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007 Contra SPECTRE


Coração quente, sangue frio.

Equiparar-se a Operação Skyfall era o desafio de Spectre. Mas está confirmado: nunca na série 007 houve parceria tão espetacular quando a do diretor Sam Mendes com o astro Daniel Craig.

A morena com que James Bond circula na abertura operática de 007 contra Spectre deve estar até agora esperando por ele na cama de um hotel. “Já volto”, diz Bond à beldade, enquanto sai pela janela do quarto. Não, não volta: o Bond de Daniel Craig é mais ativo e propulsivo que todas as outras cinco encarnações do personagem somadas. A morena que se vire; ela lhe serviu de companhia enquanto, num fabuloso plano-sequência, ele se esgueirava por entre a multidão apinhada nas ruas da Cidade do México para as festividades do Dia do Mortos. Do quarto de hotel em diante, ele segue sozinho, colado a um matador cuja carreira pretende encerrar em definitivo nesse dia mesmo. O que não estava no programa é o tanto de dano colateral que ele vai causar – um quarteirão histórico inteiro posto abaixo, um helicóptero que durante vários minutos ameaça cair sobre a gente aglomerada na Praça Zócalo, fazendo com que as hordas corram para lá e para cá, apavoradas. Tendo recuperado o controle da situação, Bond é visto fazendo algo que seus antecessores nunca fizeram, ao menos não em público: suando em bicas, a transpiração escorrendo por seu rosto e encharcando o colarinho. O México é mesmo quente, e as emoções deste Bond foram sempre vulcânicas. Mas que ninguém se engane. Seu sangue-frio permanece nas temperaturas glaciais de costume.

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A ambientação no feriado mais simbólico do México não é só um agrado ao país, que teria contribuído com 20 milhões de dólares para o orçamento de Spectre. Desde o título (“espectro”), os mortos são o Leitmotif do filme. Particularmente aqueles mortos meio inquietos, cujas pendências continuam interferindo com os vivos. Como a M de Judi Dench, que foi quem mandou Bond atrás do matador, por meio de uma mensagem que chegou ao agente dias depois de ela ser sepultada. As pistas continuam em um enterro, em que Bond crava sua mira na viúva melancólica (Monica Bellucci, fazendo figuração de luxo). Mr. White (Jesper Christensen), o vilão de Quantum of Solace, reaparece moribundo, mas ainda escondendo cartas na manga – além de um filha que fica linda de morrer em um vestido de seda prateado (Léa Seydoux, a atriz francesa do momento e Bond girl da vez). Outras figuras sepulcrais, estas saídas do passado bem mais distante de Bond, serão decisivas, caso do misterioso Franz Oberhauser (Christoph Waltz).

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Todos esses personagens estão interligados; são engrenagens de uma mesma máquina, dentro da qual reside o fantasma que de fato assombra o filme – o espectro da vigilância total sobre todo e qualquer cidadão de qualquer país. Esse é o programa que C (Andrew Scott, impecável), o novo galo no terreiro da Inteligência britânica, quer implantar, passando por cima de M (Ralph Fiennes). Acima de tudo, C quer exterminar os agentes da linhagem 00, porque eles têm licença para matar e também para seguir o próprio julgamento e tomar as próprias iniciativas – uma latitude que não combina com as inclinações totalitárias de C (não por acaso, é com “c” que começa o palavrão mais insolente e debochado do inglês britânico, em especial quando endereçado a um homem).

Também o diretor Sam Mendes e os roteiristas liderados por John Logan, porém, estão às voltas com um fantasma: o que eles próprios criaram com o espetacular Operação Skyfall. Graças à afinação desse time, há três anos a série 007 celebrou seu cinquentenário com a melhor, mais urgente, mais surpreendente e mais impactante de todas as aventuras do agente secreto. Em Skyfall, Daniel Craig e seu personagem se entenderam de vez – com uma atração mútua tão elétrica que dá para dizer, sem apanhar dos fãs de Sean Connery, que Craig suplantou o Bond original. As críticas foram ardorosas, e a bilheteria foi um estrondo: 1,1 bilhão de dólares, 500 milhões à frente de Cassino Royale, o segundo colocado da série.

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Superar esse colosso, ou ao menos equiparar-se a ele, é o desafio de Spectre. E, embora o primeiro e o último atos sejam acachapantes, no trecho intermediário percebe-se que Mendes está sentindo a pressão. Tendo enxugado o protagonista de todo excesso e o depurado até a essência em Skyfall, ele está obrigado, aqui, a dar a Spectre a mesma concepção autoral, e a manter Bond nos trilhos do realismo dramático. Coisa que, em filme de 007, nem sempre vem fácil: dosar essa estirpe de escapismo com atualidade política e com a visceralidade de Craig é um trabalho de precisão. Basta o mecanismo desregular-se um tiquinho de nada e pronto, perde-se o torque necessário a cada cena. Lá pelo meio do filme teria, sim, valido a pena dar uma volta extra nos parafusos.

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Mas, se a primeira impressão é a que dá o tom e a última é a que fica, então Spectre se sai extraordinariamente bem: é virtuosística a maneira como Mendes retoma a impulsão no ato final, e como de novo abre terreno para que Craig use aquela fúria fria que é sua contribuição definitiva ao personagem. Feroz como hooligan em dia de jogo decisivo, Bond sai barbarizando por Londres na defesa de seu time – a Inglaterra, o Parlamento, a espionagem feita à velha moda, o amor de uma boa mulher. O futuro, porém, é incerto: são tantas as confirmações e desmentidos que a esta altura ninguém sabe dizer ao certo se Mendes, Logan e principalmente Craig ficam para mais um filme, ou se vai ser aberta a caça a um novo Bond. Seria desconsolador se a trajetória do 007 de cara amarrada e orelhas de abano se encerrasse por aqui. Hipótese pior, só a de ela prosseguir além do ideal: se há arte ainda mais difícil que a de ser Bond, é a de escolher a hora certa para deixar de sê-lo.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 04/11/2015
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2015

Trailer


007 CONTRA SPECTRE
(Spectre)
Inglaterra/Estados Unidos, 2015
Direção: Sam Mendes
Com Daniel Craig, Léa Seydoux, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Naomi Harris, Andrew Scott, Christoph Waltz, Rory Kinnear, Monica Bellucci, Jesper Christensen, Dave Bautista, Alessandro Cremona, Stephanie Sigman
Distribuição: Sony Pictures

Leia aqui as resenhas de outros filmes de James Bond:

007 –  O Mundo Não É o Bastante

007 – Um Novo Dia para Morrer

007 – Cassino Royale

007 – Quantum of Solace (texto)

007 – Quantum of Solace (video)

007 – Operação Skyfall (texto)

007 – Operação Skyfall (video)

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  1. Comentado por:

    Beto Sobral

    Estou ansioso para assistir ao video dessa critica, pois todos os videos da Isabela são excelentes .

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  2. Comentado por:

    Beto Sobral

    Sou fã dessa saga, então é difícil não gostar desse novo filme, apesar de ser um filme longo eu não me cansei, esse filme é uma copia de Skyfall, quem gostou provavelmente vai gostar desse.
    A única coisa que eu não gostei foi a direção, por incrível que pareça, eu achei que Mendes não sou aproveitar o capanga, Batista é grande e forte, mas não tivesse aquela sensação de perigo que Ojo ou Jaws transmitiam, Waltz tem o mesmo problema do Souza, é um vilão muito inteligente mas que perante Bond ele misteriosamente fica muito burro .
    Não sei todos aqui tiveram a mesma sensação que eu tive, mas me pareceu que o filme é a despedida de Craig do personagem, aquelas cenas e menções aos últimos filme de Craig, a galeria de vilões e dos amores de Bond, me pareceu um adeus de Craig.
    Se é para sair, que seja agora e por cima, não é atoa que Connery é tido como uns dos melhores, ele saiu na hora certa, Moore ( o meu favorito ) demorou muito tempo, o que prejudicou muito os últimos filmes .

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  3. Comentado por:

    Ivan

    Isabela, tenho 2 atores que na minha opinião fariam ótimos Bonds. Christian Bale, Michael Fassbender. Quem você acha que deveria ser o próximo Bond? Não concordo com você que Craig seja a personificação do personagem. Eu acho que ele é uma grande descaracterização do personagem. Abraços!

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  4. Comentado por:

    Adriano

    Afinal, qual é o palavrão mais insolente e debochado do inglês britânico que começa com a letra “C”?

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  5. Comentado por:

    Sandro Cesar

    Ainda nao assisti Spectre, sempre achei interessante os filmes do 007, mas foi com a entrada de Daniel Craig que me tornei fã incondicional da franquia. O cara é muito bom no personagem. Ele é implacável imprevisivel como Bond, uma bomba relógio. Torço pra que não seja o último filme dele na série, mas concordo que se for pra parar que pare estando no auge. Parabéns a todas equipes envolvidas nos últimos quatro filmes e salve Daniel Craig, não desmerecendo os anteriores, mas tu é o cara!!!!!!

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  6. Comentado por:

    Isabela Boscov

    Se eu escrever aqui qual é o palavrão, os filtros vão pegar e apagar a resposta. Então só vou dizer que tem quatro letras e que as duas ultimas são nt

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  7. Comentado por:

    kevin miranda lima

    You cocky little bastard .

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  8. Comentado por:

    Adriano

    Já saquei, rsrs. Parabéns pelo blog!

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  9. Comentado por:

    Isabela Boscov

    Bom, Ivan, é assim mesmo, cada um tem o “seu” Bond…
    E meu voto, por enquanto, vai para o Idris Elba.

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  10. Comentado por:

    Allan

    Olá ,boa tarde, gostaria de saber o modelo ou nome daquele vestido prata de seda que ela usa ?

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