Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês
Jeronimo Teixeira Intervenção Por Jerônimo Teixeira Crítica da cultura e cultura da crítica. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Para manter-se íntegro em uma eleição

Em seus ensaios, o desencantado mas sempre lúcido George Orwell deixou lições de grande valor para o Brasil que tem de escolher entre Bolsonaro e Haddad

Por Jerônimo Teixeira Atualizado em 30 jul 2020, 20h13 - Publicado em 26 out 2018, 17h32

“A linguagem da política — e, com variações, isso é verdadeiro para todos os partidos, dos anarquistas aos conservadores — é concebida para fazer as mentiras soarem verdadeiras e o assassinato parecer respeitável, e para dar aparência sólida ao que não é mais do que vento.”
A Política e a Língua Inglesa, 1945

   

George Orwell queria matar um fascista. É ele mesmo quem o diz, em Homenagem à Catalunha, relato de seu engajamento na Guerra Civil Espanhola. Em 1937, na trincheira ao lado de jovens milicianos anarquistas, ele contava os disparos que havia feito ao longo de três semanas: somente três tiros. A estimativa militar, diz Orwellé de que, numa guerra, cada combatente gasta cerca de mil balas para matar apenas um inimigo. Mas a guerra civil que o escritor britânico descreve era mambembe, um levante miserável em que os republicanos passavam dias a fio sem encontrar os soldados do generalíssimo Franco. O frio e os percevejos por vezes davam mais trabalho que os inimigos instalados em uma posição demasiado distante. No ritmo esparso em que vinha apertando o gatilho, Orwell calculava que levaria vinte anos para matar um miserável fascista.

Não era apenas contra o fascismo que ele lutava: Orwell quis defender a precária experiência social que testemunhou na Catalunha. O escritor que mais tarde nos daria A Revolução dos Bichos acreditava ter visto um ensaio de socialismo realmente igualitário na Barcelona que o acolheu no final de 1936: uma cidade “onde a classe trabalhadora estava no comando”. Pouco depois, porém, ele conheceria as cisões intestinas que dividiam a esquerda, e veria a mão pesada do Partido Comunista, sempre caninamente fiel a Moscou, destroçando por dentro as forças republicanas. Essa experiência foi definitiva para sua compreensão do regime comunista que se instalou com a revolução russa. E uma parte substancial da crítica de Orwell ao totalitarismo está centrada sobre a perversão da linguagem pela política. Os slogans do Estado totalitário descrito em 1984 mostram como a propaganda converte as coisas em seu exato contrário: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. 

Também em sociedades democráticas as palavras se degeneram, e Orwell era sensível a isso. O homem que contabilizava a munição com que pretendia matar soldados de Franco jamais usaria a palavra “fascista” levianamente.  Já nos anos 40, quando o fascismo original de Mussolini ainda era uma realidade recente, ele apontava para o desgaste do termo. “A palavra fascismo hoje não tem qualquer significado, a não ser na medida em que significa ´algo não desejável”, afirmou Orwell em 1945, no ensaio do qual tirei a epígrafe que se lê acima. Tanto mais vazio é o epíteto fascista hoje, depois de anos de uso e abuso por uma esquerda que perverteu também o sentido original de outros termos importantes para a ciência política — democracia, direitos, golpe.

Pois o fascista do dia é, dizem, Jair Bolsonaro, provável vencedor do pleito deste domingo, 28 de outubro. Seus 49 milhões de eleitores no primeiro turno estarão a postos para marchar sobre Brasília, com a camiseta da seleção canarinha substituindo as camisas pretas do fascismo original? Não creio. Fascistas também eram, antes da ascensão de Bolsonaro, outros tantos críticos e opositores do partido de esquerda então no poder. Em tirada famosa e infame, Marilena Chauí, quadro intelectual do PT, afirmou que a classe média é fascista. O valor analítico da palavra é nulo: trata-se apenas de um xingamento. Do outro lado da disputa, os partidários do capitão fazem um uso igualmente frouxo de comunismo. Hoje até a Economist e Francis Fukuyama são comunistas. 

A noção de autoritarismo, mais genérica — todo fascismo é autoritário, mas nem todo autoritarismo é fascista — me parece mais prudente e adequada para o momento. O autoritarismo do discurso de Bolsonaro é claro e óbvio. Estão lá, repetidamente, os elogios à ditadura e as homenagens a um de seus torturadores, as arengas exaltadas que pregam nada menos que a prisão ou o exílio de opositores, a tara belicista, a obsessão policialesca com temas sexuais e comportamentais. Há quem se faça de surdo. Tenho notado, sobretudo entre aqueles que não votaram em Bolsonaro no primeiro turno mas agora desejam a todo custo impedir a volta do PT ao poder, uma racionalização rasa que pretende converter todas essas manifestações rábidas em exageros eventuais, destemperos compreensíveis de um senhor muito conservador e um tanto tosco. Com frequência, essa racionalização emprega uma figura do folclore doméstico: Bolsonaro seria aquele tiozão reaça que faz piadas inconvenientes no churrasco domingueiro. A diferença fundamental é que esse parente chato que estaria presente em toda reunião de família não está pedindo votos para o mais importante cargo executivo do país. E seja lá que profissão ele tenha — engenheiro, representante comercial, funcionário público, motorista de Uber —, o proverbial tiozão dificilmente terá construído toda sua carreira a partir das opiniões estúpidas que defende. Já Bolsonaro, há quase três décadas no baixo clero do Congresso, só ganhou a estatura de “mito” por causa de sua militância agressiva. Retire dele os ataques grosseiros a  gays e quilombolas, o fetiche por armas, a pregação da violência para conter a violência, e nada sobra. Mesmo a sua recente conversão ao liberalismo econômico é ainda indecisa e incerta. Alexandre Schwartsman, economista de impecáveis credenciais liberais, alerta: o mercado está se iludindo com Bolsonaro. Vai ver, Schwartsman também é comunista…

Fernando Haddad, o ungido de Lula, deseja nos convencer de que só ele pode nos salvar do tal fascismo. No entanto, o PT não homologou a constituição que agora diz defender, não reconhece a autoridade constitucional do Congresso para conduzir um processo de impeachment e desdenha do judiciário quando os líderes do partido são condenados por corrupção. Haddad tem um certo verniz acadêmico, uma certa distinção de classe que o torna palatável aos artistas que cantam Apesar de Você no apartamento de Paula Lavigne. Mas, a despeito de todo seu esforço para se apresentar como um candidato de centro, ele não fala como um verdadeiro democrata. No mesmo diapasão do concorrente que quer expulsar os “marginais vermelhos” do Brasil, Haddad fala em “varrer” Bolsonaro “da face da Terra”. Esquiva-se covardemente de condenar a ditadura de Maduro invocando uma fantasiosa intervenção militar na Venezuela. Diante de uma ainda vaga suspeita de caixa 2 na campanha adversária, vai ao Twitter e à justiça pedir a cassação da candidatura de Bolsonaro, e ainda orienta como devem ser conduzidas as investigações (“basta prender um empresário que ele vai fazer delação premiada e entregar a quadrilha toda”). No ponto mais baixo de sua campanha, o candidato que se diz horrorizado com as fake news acusa o vice-presidente da chapa concorrente de ter praticado tortura. Denunciada a mentira, disse que seguiu uma “fonte fidedigna”, o cantor Geraldo Azevedo, torturado em 1969, três anos antes de Mourão ingressar no exército. Em vez de pedir desculpas pela grave acusação que fez, Haddad voltou ao ataque, lembrando que Mourão e Bolsonaro tem no coronel Ustra, um torturador, uma de suas “referências”. Ora, o partido da simpática vice de Haddad tem em Stalin uma de suas referências, mas nem por isso se vai acusar Manuela d´Ávila de ter sido guarda em um Gulag.

Continua após a publicidade

Este, então, seria o último defensor das liberdades democráticas?

Em A Política e a Língua Inglesa, Orwell diz que democracia, tal como fascismo, é uma palavra cujo real significado vai se tornando impalpável: “Palavras deste tipo são quase sempre usadas de forma conscientemente desonesta. Isto é, a pessoa que a usa tem sua própria definição privada, mas permite que seu ouvinte pense que ela quer dizer algo bem diferente”.

Desconfio que, segundo a definição privada que os petistas têm da palavra, só é democracia aquele regime em que o PT é eleito.

 ***

A eleição deste domingo vem sendo pintada pelos dois lados como uma grande luta entre civilização e barbárie. Cenários extremos — e improváveis — são criados para chantagear o eleitor pelo medo. ‘Veja a Alemanha de 1933: não se pode permitir que os fascistas tomem o poder!”“Olhem para a tragédia que é a Venezuela hoje: é isso que acontecerá com o Brasil se os marginais vermelhos voltarem.”


Em Escritores e Leviatã, ensaio de 1948, Orwell nos presenteou com estas palavras que parecem talhadas para o Brasil de 2018:

“…percebemos a necessidade de envolvimento na política ao mesmo tempo que também percebemos o quanto ela é uma atividade degradante e sórdida. E a maioria de nós ainda tem uma crença persistente em que toda escolha, mesmo política, é entre o bem e o mal, e em que se uma coisa é necessária ela é também certa. Penso que devemos nos livrar dessa crença, que pertence ao universo infantil. Em política, nada mais podemos fazer do que concluir qual dos dois males é o menor, e existem situações das quais só podemos escapar agindo como um diabo ou um louco. A guerra, por exemplo, pode ser necessária, mas com certeza não é certa nem sã. Mesmo uma eleição geral não é exatamente um espetáculo agradável ou edificante. Se tivermos de participar dessas coisas — e acho que temos, a menos que estejamos blindados pela velhice, a estupidez ou a hipocrisia –, teremos também de manter íntegra uma parte de nós.”

Decidir o menor dos males não é tarefa agradável. As opções que se apresentam em uma eleição nunca serão equivalentes, ainda que existam casos em que elas se revelam, cada uma a seu modo, intoleráveis (recusar-se a uma escolha não será também uma posição — uma forma de, nos termos de Orwell, “participar dessas coisas” tão degradantes mas tão necessárias?). Qualquer que seja o mal de sua escolha, leitor eleitor, busque votar sem enganar a si próprio. Não ignore, não racionalize, não relativize as barbaridades que seu candidato diz ou faz. Só assim poderemos manter íntegra uma parte de nós.

Continua após a publicidade

Publicidade