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Pandemia interfere na recuperação de áreas atingidas por óleo no nordeste

Cidades do litoral foram prejudicadas pelo desastre ambiental e acumulam perdas com a quarentena

Por Jennifer Ann Thomas 10 jun 2020, 16h29

Desde o início da pandemia de coronavírus, declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março, os esforços de diferentes setores se voltaram para o combate à Covid-19. Até a chegada da doença ao Brasil, uma das crises em andamento era a do vazamento de óleo, que poluiu todos os estados do nordeste e parte do sudeste. Desde agosto de 2019, quando as primeiras manchas foram identificadas, mais de 1.000 pontos foram atingidos ao longo de 2.000 quilômetros do litoral, do Maranhão ao Rio de Janeiro. Dez meses depois, ainda não se sabe quem causou a contaminação e, em meio à pandemia, é perceptível a desaceleração dos esforços para minimizar os impactos sociais, ambientais e econômicos.

Durante última segunda-feira, 8, o Dia Mundial dos Oceanos, diversas campanhas destacaram a importância do ambiente marinho e reforçaram a iniciativa da Unesco, o braço das Nações Unidas para a ciência e a educação, de criar a Década da Oceanografia, entre 2021 e 2030. Ainda assim, de acordo com a gerente do programa Marinho da ONG WWF-Brasil, Anna Carolina Lobo, a situação em consequência do óleo é crítica. “Embora não estejamos no momento mais tenso, o impacto ainda ocorre. Em termos socioeconômicos, cidades do turismo foram prejudicadas durante quatro meses no ano passado e agora a quarentena se sobrepõe ao problema anterior. São desastres em cadeia para essas populações”, afirmou. Com a desmobilização do PNC, Anna Carolina explica que a liderança do governo federal foi interrompida.

No Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, o primeiro do tipo a ser criado no Brasil, em 1983, e que mantém a mais biodiversa e extensa área de recifes de coral do Atlântico Sul, não há ações específicas sobre o óleo. A Reserva Extrativista de Canavieiras, que foi duramente atingida pela mancha, não está sendo monitorada de forma sistemática. “Muitos extrativistas dependem do pescado e não conhecemos os riscos à saúde e à contaminação”, disse o biólogo Rodrigo Leão de Moura, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos coordenadores da Rede Abrolhos, grupo de pesquisa que atua no monitoramento da saúde dos ecossistemas do Arquipélago há quase duas décadas.

“Passado o momento agudo, o monitoramento é pontual. São poucas iniciativas contempladas em relação ao tamanho da área afetada”, afirmou Moura. “Sabemos que há desmatamento na Amazônia porque existe o sensoriamento remoto. No oceano, não tem como saber o que está acontecendo”, explicou. Para o biólogo, faltam movimentos concretos para respaldar a continuidade dos esforços dedicados à crise do óleo e o envolvimento do Brasil na iniciativa da Unesco. “O ambiente marinho é o que conecta os países. O isolamento brasileiro é muito negativo também para as ciências do mar”, afirmou.

No ano passado, o Plano Nacional de Contingência (PNC) foi acionado para organizar as ações relacionadas à crise do óleo. A desmobilização do grupo começou no dia 20 de março. Em abril, o coordenador operacional do PNC, o almirante de esquadra Marcelo Francisco Campos, enviou um ofício ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. No documento, Campos argumentou que: “As ações de resposta, que antes demandavam esforços coordenados das diversas organizações envolvidas, passaram a representar procedimentos rotineiros de monitoramento e ações pontuais de limpeza de vestígios remanescentes, dentro da capacidade dos órgãos regionais. Desta forma, não se faz mais necessária a coordenação em nível federal, caracterizando, assim, a perda da significância nacional do incidente, condição que motivou o acionamento do PNC.”

Para Anna Carolina, a sociedade civil atua para manter o assunto em pauta, mas faltam informações. “Há investigações em andamento. Contudo, é um absurdo não sabermos, até hoje, a origem do vazamento. Da mesma maneira como há uma tentativa de ocultar informações sobre as mortes causadas pela Covid-19, a mesma estratégia foi empregada na questão do óleo. As investigações são sigilosas, os impactos não são divulgados, as pesquisas acontecem de forma reduzida. Uma coisa emendou na outra”, explicou.

Na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o oceanógrafo Gilvan Yogui, especialista em poluição marinha por petróleo, teve quatro projetos de pesquisa aprovados para estudar especificamente a questão do vazamento nas praias. Dois deles, selecionados pela Fundação de Amparo a Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE), não receberam os recursos prometidos. “Temos receio que, com a mudança na prioridade, talvez o dinheiro não chegue mais”, afirmou Yogui. Além da parte financeira, os grupos tiveram que cancelar saídas para a coleta de amostras por causa da pandemia.

A longo prazo, o objetivo é estudar qual foi o real impacto das manchas de óleo sobre os ecossistemas da costa de Pernambuco, estudados há décadas pelos cientistas. “Se um recurso pesqueiro estava em época de reprodução durante a chegada das manchas, pode ser que as larvas tenham morrido. Só vamos sentir o efeito na pesca daqui a cinco ou dez anos, quando os peixes estariam adultos e seriam incorporados ao estoque pesqueiro”, explicou o oceanógrafo. Caso essa alteração se confirme, as consequências serão tanto ambientais quanto econômicas, pois os produtos do mar fazem parte da economia da região. 

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