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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Capítulo I – Vamos renascer das Cinzas

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 2 dez 2016, 15h59 - Publicado em 5 mar 2014, 21h08

“Começar – o resto vem depois.”
Rubem Fonseca

Por que Juveninho escreveria um romance?
 
Está, como Proust, em busca do tempo perdido? Está! Mas não vai lhe dedicar sete volumes.
 
Quer, como Clarice Lispector, sentir a própria “alma falando e cantando, às vezes chorando”? Quer! Mas não vai “desabrochar” como Clarice, porque não pega bem homem “desabrochando”.
 
Crê, como personagem de Rubem Fonseca, que a força do ato e não apenas da imaginação é a impulsão que fará de si um verdadeiro escritor? Crê! Que um escritor não pode livrar-se da sua vidinha? Um escritor não pode livrar-se da sua vidinha!
 
Parece-lhe difícil, como a Mario Vargas Llosa, alguém se tornar um criador se não escrever estimulado por aqueles fantasmas (ou demônios) que carrega dentro de si? Parece impossível! Que é uma tarefa árdua, plena de decepções e angústias, a elaboração de um romance? É um inferno a elaboração de um romance!
 
Sabe, como ensinava o Professor Antolini a Holden Caufield, que muitos homens já enfrentaram os mesmos problemas espirituais e morais que ele, e que, felizmente, alguns deixaram o registro de seus problemas, tal qual ele também pode fazer um dia? Claro! (E fará bonito!) Acredita que tem algo a oferecer, que alguém irá aprender alguma coisa com ele? Tem muito a oferecer! Concorda que os homens instruídos e cultos, se tiverem brilho e capacidade criadora, tendem a deixar registros infinitamente mais valiosos do que aqueles que apenas têm brilho e capacidade criadora? Concorda! (E julga-se instruído, culto, criativo e brilhante!) Compreende que, na maioria dos casos, eles têm mais humildade do que o pensador menos culto? Decerto! (Também é humilde, Juveninho!)
 
Já notou, como Henry Miller, que, quando tentamos fazer algo que ultrapassa nossos poderes, é inútil buscar a aprovação dos amigos? Muitas vezes! Que eles só acreditam em você na medida em que o conhecem? E eles não conhecem nem meio Juveninho! Que a possibilidade de que você seja maior do que parece é perturbadora, pois a amizade se baseia na reciprocidade? Azar o deles! (Juveninho chegou para perturbar!) Que é quase uma lei: toda vez que um homem embarca numa grande aventura, precisa cortar todos os laços? Adeus, laços! Que precisa isolar-se no meio do nada, e quando já enfrentou a si mesmo em combate precisa voltar e escolher um discípulo? Ao combate! (E que a discípula seja morena!)
 
Então Juveninho acredita, como Ivan Lessa, que o único bom motivo para escrever um livro é irritar os amigos? Acredita! (Não vê a hora de irritar um por um!) Que, se realmente for escrever, deve tratar o resto da humanidade aos tapas e pontapés? Sem dúvida! (Aos socos no estômago, também!)
 
Tem, como alertava Mario de Andrade a Fernando Sabino, saúde mental pra não se amolar com os outros, com as incompreensões alheias, com as humilhações? Que se danem os outros! Tem orgulho e coragem suficientes pra mandar o mundo à puta-que-o-pariu, em benefício desse mesmo mundo imbecil? À puta-que-o-pariu o mundo!
 
Mas ainda sofre, como descrevia alguém citado por Sertillanges, da dificuldade dos romancistas em nossos dias, qual seja, a de que se eles não frequentam a sociedade, seus livros são ilegíveis, e se a frequentam, eles não têm mais tempo para escrevê-los? Sofre o diabo, Juveninho! (Também frequenta a internet!) Sente portanto a angústia da medida certa, que reaparece por toda parte? Sente muito! (Mas vai acertá-la agora mesmo!)
 
Está, pois, consciente, como Thomas Mann, de que para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória à pergunta “Para quê?”, é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e tem um quê heroico, ou então uma vitalidade muito robusta? Está consciente, Juveninho! (E moralmente isolado! E independente! E robusto!)
 
Acha, como Ítalo Calvino, que a experiência, ao dar forma a uma obra literária, definha, destrói-se? Juveninho quer definhá-la, quer destruí-la! Que o primeiro livro, o melhor seria nunca tê-lo escrito? Nunca! (Mas precisa escrevê-lo!)
 
E vai começar agora?
 
Depois de um cineminha, talvez.
 
Felipe Moura Brasil – http://www.veja.com/felipemourabrasil
 
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