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O ENEM e o futuro do ensino médio

Em vez de se aprofundarem em poucas disciplinas, como se faz no resto do mundo, alunos passam três anos estudando assuntos que não são de seu interesse.

A função do ENEM é selecionar alunos para o ensino superior, especialmente para as universidades públicas federais, as mais competitivas. As universidades estaduais de São Paulo usam critérios próprios. Algumas universidades particulares também usam as notas do exame, sobretudo para fins de financiamento estudantil. O ENEM “pegou”, faz parte da cultura da classe média brasileira e, com isso, repercute todo ano na imprensa. A pergunta que não cala: seria esta a melhor forma de selecionar alunos para o ensino superior? Quais são os custos e benefícios?

As vantagens são conhecidas: o exame é feito por todos em dois dias, os alunos não precisam viajar para fazer as provas em diferentes cidades e a preparação se faz em torno de um mesmo programa. Essa vantagem, no entanto, não ocorre no caso dos alunos do Estado de São Paulo, que se preparam para os exames das universidades estaduais e federais.

O que deveria preocupar os estudiosos da educação e as autoridades são os efeitos negativos do ENEM. Primeiro, é uma prova cara: custa mais de meio bilhão de reais. Segundo, é uma prova que atrai 5 milhões de candidatos, sendo que a cada ano se formam menos de 2 milhões de alunos no ensino médio, e as vagas competitivas são pouco mais de 250 mil. Ou seja, dada a baixa chance de sucesso, a prova se parece mais com loteria do que com exame de seleção. Terceiro, a prova exige que os alunos do ensino médio, em vez de se concentrarem e se aprofundarem em algumas poucas disciplinas, como se faz no resto do mundo, dediquem três anos de sua vida estudando assuntos que não são de seu interesse. Isso impede que eles se aprofundem nas disciplinas para as quais têm mais talento e motivação e tira a razão de ser do ensino médio acadêmico – que é o de preparar para o sucesso no ensino superior. Quarto, apesar de influir profundamente no ensino médio, o ENEM não provocou melhorias no mesmo. Os resultados nesta etapa estão estagnados há mais de uma década. Quando comparamos os resultados dos alunos do Brasil no PISA, verificamos que isso também se reflete – as notas dos alunos do 2o ano do ensino médio em Língua Portuguesa, Matemática e Ciências não têm se alterado. A redação é um caso ainda mais trágico: a correção custa caro, e ela não acrescenta informação relevante, pois sua correlação com a prova de “Linguagens” é muito elevada. Como as notas de Linguagens vêm se mantendo inalteradas, é óbvio se concluir que o ensino e a aprendizagem da redação também não têm evoluído.

De todos, o maior problema do ENEM é o de desvirtuar o ensino médio e inibir a sua diversificação. Nos demais países, o ensino médio é diversificado, e os meios de acesso à universidade também. Isso permite que a maioria dos jovens – 85% ou mais – conclua algum tipo de ensino médio, sendo cerca de metade deles em cursos de formação técnico-profissional. O mais importante: permite que jovens mais brilhantes se concentrem, ao longo do ensino médio, no aprofundamento de estudos, preparando-se melhor para disputar vagas nos cursos das universidades de maior prestígio. E todos ganham com isso. As tensões existem – o preparo é duro e a competição, severa. Mas os jovens pelo menos se concentram em fazer aquilo de que gostam e para que têm mais talento e motivação.

O ENEM é uma jabuticaba. Reformulá-lo é imperativo e precisa ser feito junto com uma verdadeira reformulação do ensino médio. Aprovada com alarde em 2017, a reforma do ensino médio não caminhou, mas, se caminhar, não vai ajudar o país a avançar. Ela reflete uma concepção equivocada do papel do ensino médio – uma visão ideológica sobre um improvável “direito de todos a uma educação geral” e uma visão preconceituosa do ensino técnico-profissional.

Infelizmente faltam motivação e espaço para um debate profundo sobre o tema. Possivelmente vamos nos contentar com mudanças cosméticas na forma de fazer a prova. O ENEM e o impasse do ensino médio prejudicam muito os alunos com menor condições acadêmicas – ou seja, a maioria, no Brasil.

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