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Educação em evidência Por João Batista Oliveira O que as evidências mostram sobre o que funciona de fato na área de Educação? O autor conta com a participação dos leitores para enriquecer esse debate.

O cérebro das crianças diante das telinhas

O que estudos recentes sobre o desenvolvimento do cérebro mostram sobre os efeitos do uso cada vez maior de celulares e tablets por crianças?

Por João Batista Oliveira - Atualizado em 8 jan 2020, 12h11 - Publicado em 8 jan 2020, 12h06

Há cerca de 10 anos, quando me iniciei na área de leitura para crianças, perguntei a Peri Klass, diretora médica do Reach Out and Read, a respeito das evidências a respeito do risco dos computadores e tablets nas mãos de crianças muito pequenas. Sua resposta foi simples: o problema maior não é o tablet, é o risco da perda de interação das crianças com os adultos.

A observação era profética. Estudos recentes sobre o desenvolvimento do cérebro corroboram essa intuição: quanto mais telinha, menos mielina entre as células nervosas. A mielina isola as células nervosas e aumenta sua conectividade.  Ao contrário, quanto mais atividades que envolvem livro, conversa e interação, maiores os efeitos positivos sobre a estrutura do cérebro associada a essas atividades.

Para os leitores interessados em estudos rigorosos e mais recentes, vale a pena acessar o estudo de John Hutton e outros aqui.

Os resultados desse estudo mostram que o acesso à telinha para além do tempo recomendado pela Associação Pediátrica Brasileira (que acolhe as normas da APA norteamericana) está associado à:

– menor organização microestrutural e mielienização dos canais neuronais que apoiam a linguagem e as habilidades de aprendizagem da leitura

– menor desempenho em avaliações cognitivas

O cérebro é dotado de plasticidade, tem poder de se adaptar e recuperar alguns danos e o tempo perdido. O temor dos pediatras e dos neurocientistas é que o poder sedutor da telinha pode – e já está – limitando as interações, as relações e o engajamento das crianças com os adultos.

A mensagem não é negativa, ao contrário: os pais são insubstituíveis. A paternidade/maternidade envolve interagir, conversar, brincar, cantar, fazer e responder perguntas – e, é claro, ler desde cedo.

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