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Educação em evidência Por João Batista Oliveira O que as evidências mostram sobre o que funciona de fato na área de Educação? O autor conta com a participação dos leitores para enriquecer esse debate.

Fim do Enem?

Se o fim do Enem é selecionar os melhores, ele precisa mudar, para que os melhores possam ser bons em tudo e excelentes em alguma coisa.

Por João Batista Oliveira - Atualizado em 22 jan 2020, 14h57 - Publicado em 22 jan 2020, 13h45

Não, o Enem não vai acabar – ainda que houvesse razões para isso. A palavra “FIM” tem vários sentidos, um deles é “finalidade”. É disso que vamos tratar.

No bojo das sessões de esclarecimento sobre os problemas do Enem, o presidente do Inep finalmente deixou claro o que era um segredo de polichinelo no MEC. Textualmente ele disse que o Enem não avalia o ensino médio – ele serve para “selecionar os melhores”. Quem avalia o ensino médio, disse o Presidente do Inep, é a Prova Brasil.

O que nos diz a Prova Brasil sobre o ensino médio? Ela diz que (a) a diferença de notas entre o 3º ano do ensino médio e o 9º ano do ensino fundamental é mínima (b) e que isso não tem mudado ao longo do tempo. Também sabemos que (c) a Prova Brasil tem alta correlação com o Enem.

Fica, então, a pergunta: se o ensino médio é de baixa qualidade, será que os melhores alunos são bons?

A forte correlação do Enem com a Prova Brasil e o fato de que a taxa de participação dos alunos do ensino médio no Enem é extremamente elevada sugerem que a resposta é negativa. Estar entre os melhores alunos do Enem não significa que ser bom ou ótimo, como se deseja para formar elites pensantes numa sociedade. Quando examinamos os dados do Brasil no Pisa, verificamos que nossos melhores alunos estão próximos da média dos alunos dos países da OCDE.

Resta indagar se estamos diante de uma fatalidade ou se o Enem poderia contribuir para melhorar a qualidade do plantel. Minha resposta é positiva. Podemos olhar de lado – para o processo de seleção da USP – ou para o Norte, analisando o processo de seleção utilizado pelas universidades de elite dos Estados Unidos.

O processo de seleção da USP tem pelo menos um mérito óbvio: é sequencial. Os alunos fazem primeiro uma prova mais geral, que não exige um preparo especial de quem sempre foi bom aluno. E para quem supera a barreira, há provas específicas, concentradas na área de interesse do aluno. Isso permite, em tese, que um bom aluno se concentre, ao longo do ensino médio, naquilo em que ele é melhor. Em tese, porque dado o nível de competição, ninguém que quer entrar na USP quer deixar flanco na etapa classificatória. Boa intenção, mas sem alcançar plenos benefícios.

A experiência dos Estados Unidos é interessante sob vários aspectos. Primeiro, apenas algumas centenas de suas quase 5.500 instituições de ensino superior possuem processos seletivos rigorosos. A maioria das instituições de ensino superior é composta por “colleges” que oferecem cursos de dois a quatro anos e cujo acesso não depende de processos seletivos rigorosos. Dentre as universidades, pouco mais de duas centenas possuem critérios – aí sim – extremamente rigorosos e bastante diferenciados entre si. Mas em comum seus processos têm três características marcantes: ter sido bom aluno ao longo do ensino médio numa boa escola; notas elevadas em testes que medem capacidade intelectual como o ACT ou o SAT; e, em algumas delas, provas de conhecimento avançado nas disciplinas que pretende cursar. Ou seja:  as melhores universidades do mundo apostam no sucesso anterior, na capacidade intelectual e no conhecimento profundo de alguma coisa de que o aluno gosta.

O Enem cria uma camisa de força que unifica o ensino médio e quer tudo de todos. Se o fim do Enem é selecionar os melhores, ele precisa mudar, para que os melhores possam ser bons em tudo e excelentes em alguma coisa. Fora disso, o melhor é dar fim ao Enem.

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