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Armstrong homenageou filha na Lua? O real e a ficção em ‘O Primeiro Homem’

Filme com Ryan Gosling acompanha vida pessoal e treinamento do astronauta antes de se tornar o primeiro a pisar na Lua

Para fazer o filme O Primeiro Homem, cinebiografia do astronauta Neil Armstrong, o diretor Damien Chazelle fez um corte quase cirúrgico no livro de mesmo nome, assinado pelo historiador James R. Hansen. Publicado no Brasil pela editora Intrínseca, a obra de mais de 500 páginas acompanha desde o histórico dos antepassados da família Armstrong, até a carreira do jovem engenheiro como piloto de teste, passando por detalhes de sua vida pessoal, personalidade, e o histórico pouso na Lua, onde ele se tornou o primeiro homem a pisar no satélite natural da Terra. Toda essa trajetória ocupa cerca de 2/3 da obra, que ainda narra o retorno do biografado ao planeta, sua fama e morte, em 2012, por complicações de uma cirurgia cardíaca.

No filme estrelado por Ryan Gosling, o recorte escolhido foram os anos entre 1961 e 1969, período em que Armstrong e a esposa Janet (Claire Foy) passaram pela trágica morte da filha — dor que, especula-se, teria levado o engenheiro a participar da seleção do programa de astronautas da Nasa, como uma espécie de fuga —, até o pouso na Lua em 20 de julho de 1969, quando ele ganhou o status de herói americano.

A produção em cartaz no Brasil é bastante fiel à intensa investigação do autor do livro, que entrevistou amigos, familiares, autoridades e, claro, o próprio Armstrong, que autorizou a produção da biografia, mas nunca pediu por nenhuma alteração das versões que leu em vida.

Confira abaixo uma lista com pontos de destaque entre o livro e o filme, e uma análise do que é real, imaginado e de parte do tempero da história que Chazelle deixou de lado.

 

Personalidade moderada de Armstrong

 (//VEJA)

Não estranhe a atuação fria e com poucas expressões faciais de Ryan Gosling. O jeito contido do astronauta era conhecido entre os colegas da Nasa. No livro, o autor não economiza adjetivos para caracterizar a personalidade moderada e modesta do biografado: comprometido, dedicado, confiável, autoconfiante, persistente, determinado, honesto, inovador e prudente foram algumas das características de Armstrong listadas pelos entrevistados. A mãe do astronauta, Viola Armstrong, dizia que ele era um “menino tranquilo e sem problemas, com uma tendência à timidez”. Entre os astronautas, as opiniões eram parecidas: “Era uma pessoa muito reservada”, “pensativo”, “não era um cara expansivo”, “não muito acolhedor, mas também não era frio”. O jeito reservado e centrado é tratado pelo livro e pelo filme como elemento que o levou a ser bem-sucedido nas missões espaciais, mas não muito na vida pessoal.


O tratamento e a morte da filha

 (//Divulgação)

Assim como mostra o filme, Neil e sua esposa Janet passaram pela dolorosa perda da filha Karen, quando a garota tinha apenas 2 anos e 9 meses. A criança foi diagnosticada com um tumor maligno instalado no tronco encefálico, descoberto quando ele começou a afetar os movimentos e as habilidades cognitivas da menina. Um tratamento com radiação foi feito para diminuir o tamanho do tumor. Neil e Janet se revezavam nos cuidados da família e nos longos períodos passados em hospitais. Karen morreu em janeiro de 1962, seis meses após o diagnóstico. O filme resume a luta da família e imagina reações emotivas de Armstrong, que nunca demonstrou diante de outras pessoas o sofrimento. “Neil foi muito estoico e demonstrou pouca emoção, ao contrário de Janet”, disseram familiares sobre a reação dos pais após a perda. Ele nunca tocava no assunto da morte da filha com os colegas da Nasa, alguns nem sabiam que Neil tinha tido uma menina. O longa é fiel ao mostrar a rapidez com que ele volta ao trabalho, mas se aprofunda pouco na questão de como a morte da criança pode ter influenciado na decisão de entrar para o programa espacial como uma fuga do trauma e também da casa da família, na Califórnia, para Houston, no Texas.


Entrevista para ser astronauta

 (//Divulgação)

Novamente, o longa resume ao máximo o processo de admissão de Neil Armstrong ao programa espacial da Nasa. Além da entrevista, que realmente ocorreu, e Armstrong chegou a afirmar que foi tranquila e não se sentiu pressionado durante a conversa, alguns testes clínicos e psicológicos nada agradáveis foram realizados durante a seleção dos futuros astronautas. Um dos testes, por exemplo, injetava água gelada na orelha do candidato, até que ele ficasse descontrolado. Outro de isolamento colocava a pessoa em um quarto escuro, sem nenhum sinal sensorial, como luz, som e cheiros, e pedia para que ela saísse em duas horas. Armstrong, para calcular o período, ficou cantarolando a música Fifteen Men in a Boarding House Bed, até achar que completou duas horas. Ao fim, em 1962, 32 finalistas foram escolhidos, sendo apenas seis civis — entre eles Armstrong.


Emergência na primeira missão

 (//Divulgação)

Armstrong entrou em uma espaçonave pela primeira vez três anos e meio depois do início da carreira de astronauta, na missão Gemini VIII, que faria parte do treino da ida à Lua. A nave comandada por Neil deveria completar um acoplamento com outra espaçonave, a Agena, no espaço. Tudo ia bem até que um curto circuito em um dos propulsores fez com que as duas naves girassem perigosamente sem controle. Em determinado momento, Armstrong percebeu que logo ele e o copiloto perderiam a consciência e a visão. Para manter o foco e a calma, Neil colocou a cabeça em certo ângulo e conseguiu estabilizar a nave e recuperar o controle. Durante a emergência, as duas naves se desacoplaram e o contato com a Nasa ficou mudo por 21 minutos, causando um estado de desespero em Houston.


Esposa enfrenta a Nasa

Durante a missão Gemini VIII, Janet ficou em casa com os dois filhos pequenos, vendo pela televisão o lançamento e ouvindo a comunicação entre a Nasa e os astronautas através de um rádio disponibilizado pelo governo. Assim como mostra o filme, quando a transmissão foi interrompida, Janet foi à sede do controle da missão, a diferença com a vida real é que ela foi até lá acompanhada de um dos assessores da Nasa, que tentou impedi-la inicialmente, e mais tarde ela se tornou alvo de sensacionalismo de um jornalista que estava autorizado a acompanhá-la de perto durante o processo, e depois narrou a história com excessos. O esforço dela, contudo, foi vão, já que o diretor de operação de voo da Nasa na época, Donald Kent ‘Deke’ Slayton, a proibiu de entrar na sala de controle. “Nunca mais faça isso comigo. Se acontecer um problema, quero estar dentro do controle da missão. E se você não me deixar entrar, vou contar para todo mundo”, disse ela na discussão.


Mortes de astronautas

 (//Divulgação)

Trabalhar na Nasa parecia um sonho para quem observava pela TV a vida em tom de ficção científica dos astronautas. Nos bastidores, contudo, um pesadelo rondava os integrantes do projeto e suas famílias. Muitos morreram em testes para a missão Gemini e Apollo. Dias antes de Neil passar perto da morte na Gemini VIII, dois amigos do astronauta, Elliot See e Charlie Basset, foram vítimas fatais de um acidente durante um pouso em um treinamento. Menos de um ano depois, três astronautas (Ed White, Gus Grissom e Roger Chaffe) morreram em um incêndio na plataforma de lançamento da Apollo 1, durante um teste com os trajes espaciais para o lançamento que aconteceria em três semanas — uma fagulha de um fio elétrico pegou fogo e atingiu matéria inflamável na atmosfera de oxigênio puro. Eles morreram asfixiados em segundos.

O filme é fiel ao citar as mortes, inclusive pincela a depressão da esposa de Ed, Pat White, vizinha e grande amiga de Janet e Neil. Pat chegou a tentar suicídio e foi interrompida por Janet, cena que o longa preferiu não mostrar.


Conversa com filhos antes da viagem

 (//Divulgação)

Antes de Armstrong embarcar rumo à Lua, a latente crise de comunicação entre ele e Janet explodiu. A esposa exigiu que ele sentasse com os filhos e explicasse como seria a viagem e que havia a possibilidade de que ele não voltasse. Janet, contudo, não participou da conversa como mostra o filme. Rick e Mark, filhos do astronauta, ajudaram o diretor do filme a preencher a lacuna. “Aquela cena partiu de nós”, disse Rick ao USA Today. Mark era muito novo para lembrar o que foi dito, já Rick, que tinha 12 anos na época, contou parte do que recordava do momento. Ele não lembra, por exemplo, se chegou a perguntar ao pai se ele achava que não voltaria da missão, como mostra o longa. “Eu não tinha dúvidas de que ele voltaria. Então acho que não perguntei sobre isso”, diz o filho mais velho, dizendo que também não se lembra se, ao fim, apenas apertou a mão do pai, como os roteiristas encaixaram na história. “Nós achamos que vamos voltar, mas existem riscos”, disse Neil na ocasião.


Relação entre Armstrong e Buzz Aldrin

 (//Divulgação)

O filme fala pouco de Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, atrás de Neil, mas alfineta sua personalidade expansiva e seu jeito típico de um ser humano sem filtro – ou noção. O livro reforça e aprofunda essa distância entre os dois. Ambos se respeitavam, dentro do rigoroso esquema de hierarquia da Nasa, mas Aldrin causou alguns problemas ao colega, ou tentou. Quando ficou decidido que Neil, que era o comandante da missão Apollo 11, seria o primeiro a descer da nave na Lua, por ser um civil (Aldrin tinha servido nas Forças Armadas), Buzz ficou irritado e tentou angariar dentro da Nasa – e até no governo — pessoas que ficassem ao seu lado para que a decisão fosse alterada. O recalque não funcionou e sua fama ficou ruim na organização. O autor do livro ainda ressalta o fato de que Aldrin teria dado um jeito de boicotar o colega na Lua — ou foi seu egocentrismo que falou mais alto. Apesar de ter sido o primeiro a pisar no solo lunar, Neil Armstrong não possui nenhuma foto sua na Lua. Enquanto a câmera ficou com Aldrin, ele só tirou fotos do ambiente, da nave e até do próprio pé – é dele a foto da pegada no empoeirado chão do satélite natural. Neil teve que se contentar com uma imagem em que aparece de costas, mexendo na nave, e outra em que surge refletido no visor da roupa espacial de Buzz, enquanto Neil tirava uma das muitas fotos que ele fez do colega. A desculpa de Aldrin é que ele tiraria uma foto de Neil com a bandeira americana, mas quando se preparava para isso, o presidente americano Richard Nixon ligou e Armstrong foi atender.

 

Declaração da Casa Branca, caso a missão falhasse

 (//Divulgação)

O chefe de gabinete da Casa Branca na época, H.R. Bob Haldeman, pediu a William Safire, redator de discursos de Nixon, que escrevesse declarações caso algo desse errado durante a missão. Entre elas está a carta lida no filme, imaginando a possibilidade de os astronautas pousarem na Lua, mas não saírem dela. “O destino quis que os homens que foram à Lua para explorá-la de forma pacífica, que continuem na Lua e descansem em paz. Estes homens corajosos, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, sabem que não existe esperança em seu resgate. Mas eles também sabem que há esperança para a humanidade em seu sacrifício”, diz o começo do texto. Ficou combinado ainda que, antes da declaração ser divulgada, o presidente deveria telefonar para cada uma das viúvas.

Declaração da Casa Branca, caso a missão à Lua, em 1969, não desse certo

Declaração da Casa Branca, caso a missão à Lua, em 1969, não desse certo (//Reprodução)

 

Homenagem para a filha na Lua

 (//Divulgação)

A cena em que Neil Armstrong para diante de uma cratera na Lua e joga o bracelete de sua filha Karen é fictícia, mas foi escrita pelos roteiristas com um fundo de verdade. Os três astronautas que foram à Lua tinham o direito de levar um kit pessoal com os itens que quisessem. A Nasa nunca divulgou a lista do que havia nesses kits. Enquanto os dois outros astronautas chegaram até a vender em leilão alguns objetos – Aldrin, como mostra o filme, realmente levou joias da esposa na viagem —, Armstrong sempre se manteve em silêncio sobre o que foi levado por ele. Ao biógrafo que escreveu O Primeiro Homem, Neil afirmou que perdeu seu inventário do kit e que não lembrava de tudo. Ele contou que levou dois broches de ramo de oliveira de ouro, um para a esposa e outro para a mãe, e peças do histórico avião dos irmãos Wright por um acordo com o Museu da Força Aérea dos EUA.

A dúvida sobre a homenagem para a filha morta surgiu por dois motivos. Primeiro por uma fala de sua irmã June, que era bem próxima de Neil. “Se ele levou algo da Karen para a Lua? Sinceramente, espero que sim”, disse em um tom emotivo, que levantou suspeitas do autor do livro. Outra pista foi um misterioso e breve afastamento de Armstrong da missão na Lua. Não estava nos planos, mas ele decidiu se afastar da nave e do colega de missão por alguns minutos, para observar uma cratera fora da área de exploração. O que ele fez perto da cratera nunca foi revelado. A decisão por usar um bracelete como símbolo dessa homenagem foi tomada pelos roteiristas do filme, pensando em um objeto que sobreviveria ao incêndio que atingiu a casa dos Armstrong, cena que acabou cortada da produção.

 

 

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