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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Manter acesa a chama

Eles acham que a 'força do povo' moverá todas as montanhas

Por Dora Kramer - 4 Jan 2019, 07h00

A turma do novo governo desdenhou das análises praticamente unânimes no dia seguinte ao da posse de que Jair Bolsonaro se repetiu como candidato e deixou a desejar como presidente nos dois primeiros pronunciamentos oficiais. Os mentores estreantes acharam que os analistas não entenderam o espírito da coisa, que seria exatamente manter acesa a chama que levou Bolsonaro da insignificância parlamentar à Presidência da República, a fim de fazer da mobilização popular a principal garantia de governabilidade. Em miúdos: pressionado pelo povo, o Congresso seria forçado a se curvar às vontades e conveniências do presidente.

Na teoria, uma equação simples. Na prática, uma operação cuja complexidade ficará evidente à medida da passagem do tempo. A cada dia uma nova agonia a exigir soluções para as quais a “força do povo” conta pouco ou quase nada. Até porque o povo, no caso, tem mais que fazer. Mobilizações populares têm prazo de validade e alcance limitado. Euforia passa e, mais rápido do que parecem acreditar os novos locatários do Planalto e cercanias, se transforma em expectativa por providências, e daí em cobranças por resultados. Se o tempo da política é veloz, o da aflição popular é de um imediatismo atroz.

A ideia de que o presidente da República pode se ater ao papel de animador de auditório enquanto um grupo de executivos (agora liderados por Paulo Guedes na economia, Sergio Moro na probidade e pelos militares na ordenação no andamento dos trabalhos) toca o barco é muito parecida com a concepção adotada por Luiz Inácio da Silva. Com Lula deu certo por longo tempo, mas são realidades diferentes. Além de ter a economia com vento a favor, o petista contou com ampla boa vontade até entre opositores. O “operário de esquerda” não estava ali para ser contestado. Nacional e internacionalmente.

Com Bolsonaro não é assim. Foi eleito em ambiente de intensa polarização e com boa parte de seus eleitores fazendo a opção pelo que considerava o mal menor. Os radicais bolsonaristas adeptos do “mito” são uma parcela ínfima dos 209 milhões de brasileiros. Para estes, o presidente não falou na estreia sobre a maneira como pretende melhorar a vida deles; e daqueles não obterá a sustentação necessária para governar durante os próximos quatro anos. Trata­-se, portanto, de uma ilusão a ser desfeita em breve, a tal da história de que anseios eleitorais sirvam como fiadores governamentais.

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Jair Bolsonaro acertou ao detectar a demanda do eleitorado, mas errará se insistir em não reconhecer que uma coisa é perceber o que as pessoas querem ouvir numa campanha, outra muito diferente é dar a elas o que esperam de um governo, cujo êxito depende da capacidade de planejamento, empenho na execução das ações, habilidade para harmonizar o funcionamento das instituições, destreza nas relações com o Parlamento e nenhuma, mas nenhuma mesmo, concessão à crença autoritária (e, na democracia, fantasiosa) de que a “força do povo” possa mover todas as montanhas.

Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2019, edição nº 2616

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