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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Envernizado, mas Bolsonaro

Agressivo, presidente traça na ONU cenário do que ele entende por 'novo Brasil'

Por Dora Kramer - 24 set 2019, 13h13

Incisivo e por vezes agressivo, o presidente Jair Bolsonaro demonstrou em seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU que está menos preocupado em suavizar sua imagem e mais empenhado em desenhar um cenário do que ele entende por um “novo Brasil”, inaugurado a partir de sua ascensão ao poder.

Nenhuma surpresa no fato de os discursos do brasileiro e do americano Donald Trump exibirem diversos pontos semelhantes no tocante à escolha de temas a serem abordados, vez que são aliados fortemente assumidos. Surpreendente, e até dizer imprudente para um país de força menos que relativa na cena mundial, foram os ataques de Bolsonaro a pretexto de fazer a defesa contra o que qualifica como “mentiras da mídia” em relação ao seu modo retrógrado de ação e pensamento.

O presidente saiu-se bem quando firmou profissão de fé em prol das liberdades (econômica, política, social e religiosa), mas estreitou o caráter desse compromisso ao, mais uma vez, impregnar o discurso de cunho ideológico no propósito de criticar os malefícios da ideologia no caminhar da humanidade. Atrai descrédito, por exemplo, quando abre sua fala repisando sua velha tese de que graças à sua eleição o Brasil foi salvo do socialismo a que estava prestes de aderir. O país, como sabemos e sabe o mundo, nunca esteve à “beira do socialismo”.

Desnecessário o ataque pessoal ao cacique Raoni, o tom agressivo em relação à França, a atribuição do combate à corrupção exclusivamente a Sergio Moro, o tom persecutório da afirmação da soberania nacional, notadamente quando faltou um mínimo de autocrítica em relação às inúteis e grosseiras provocações feitas por ele e cujo resultado foi a colocação do Brasil em cenas de conflitos.

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Descontada, ainda bem, a ausência da retórica chula, o presidente foi mais Bolsonaro do que nunca. Envernizado, mas Bolsonaro. Falou de um “novo Brasil” desenhado aos seus desejos de imagem e semelhança, mas que não necessariamente corresponde ao país como o veem os brasileiros.

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