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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Em construção

A sociedade brasileira já demonstrou a capacidade de abraçar causas que nos levaram a remover obstáculos aparentemente inamovíveis

Por Dora Kramer Atualizado em 9 abr 2021, 13h23 - Publicado em 9 abr 2021, 06h00

O manifesto de seis potenciais candidatos à Presidência da República em defesa da democracia, de maneira geral, foi recebido com alento. Visto como um primeiro passo na busca da derrubada dos muros erguidos pelos dois polos do populismo amestrado comandados por Jair Bolsonaro e Lula da Silva.

Não foram poucos, no entanto, os que consideraram o movimento muito pouco promissor. Fadado ao fracasso, até. Depois da leitura inicial, otimista, vieram as reações, não diria pessimistas, mas um tanto melancólicas e fatalistas. Como se o Brasil fosse obrigado a sucumbir à condição de refém de dois projetos desgovernados: um por capitular ante a corrupção desenfreada, o outro pelo amor obsessivo ao retrocesso.

Esse tipo de sentimento, já vimos, não dá em boa coisa, pois resulta na disseminação da ideia, entre a maioria, de que a saída é se apegar ao salvador que lhe pareça menos ruim. Aceitar esse cenário como retrato fiel da realidade equivale a ignorar a capacidade que a sociedade brasileira já demonstrou de abraçar causas que nos levaram a remover obstáculos aparentemente inamovíveis.

As lutas pela anistia, pela retomada das eleições diretas, pela transição negociada à redemocratização; a Constituinte que rendeu uma Carta à prova de autoritarismos, a derrubada do primeiro presidente eleito diretamente pós-ditadura dentro dos estritos parâmetros legais e até a adesão a um plano de combate à inflação cujo êxito se deveu principalmente à participação da sociedade.

Pensando nisso foi que o ex-deputado e ministro das Comunicações no primeiro governo do PT, Miro Teixeira, teve a ideia de propor às mesmas entidades civis envolvidas naquelas lutas que se engajem no bom combate no rumo da conquista da pacificação e do desenvolvimento do país. Não com manifestos, mas com uma ação efetiva para colocar o eleitorado (ou o “contribuinte”, como ele prefere) no comando do processo.

“Alternativas a Lula e Bolsonaro podem seguir diferentes mas convergentes caminhos”

Como? Miro iria aproveitar a reunião plenária da Ordem dos Advogados do Brasil da quarta-feira última, 7 de abril, para tratar do assunto com o presidente, Felipe Santa Cruz: as entidades elaborariam um cardápio de temas (“podem ser vinte ou trinta”) para que entre eles as pessoas escolhessem cinco, em votação na internet, que considerassem prioritários. Dali sairia o que se poderia chamar de um plano de metas feito a partir das demandas do público a ser apresentadas ao país, independentemente de candidaturas.

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“Seria a sociedade no comando. A política precisa dialogar com o público, abandonando o método antigo, e superado, de restringir as conversas às siglas partidárias”, diz Miro Teixeira. Embora ele não veja futuro na formação de uma frente em torno de um candidato de consenso para concorrer como alternativa ao PT e à direita extremada em 2022, não descarta convergências nem desqualifica o esforço do chamado centro. “Não há um caminho único para fazer com que esse rio corra para o mar.”

De fato, se a ideia prosperar, nada impede o núcleo inicial dos seis possíveis candidatos (Henrique Mandetta, João Doria, Eduardo Leite, Ciro Gomes, João Amoêdo e Luciano Huck) de aderir ao método de consulta popular. Entre outros motivos, porque eles não pretendem esgotar suas ações naquele documento.

Conta o deputado Roberto Freire, presidente do Cidadania, que um segundo passo já está em marcha: a realização de uma reunião virtual do grupo para que cada um apresente sua posição em relação ao futuro. Seja das candidaturas ou de um projeto para o país.

Alguma possibilidade de se vislumbrar desde já um favorito? “Nenhuma”, diz Roberto Freire, ciente da necessidade de cada uma dessas forças dissolver suas tensões internas, da premência de não se impor critérios de exclusão e da prioridade à construção de consensos sobre as formas de comunicação com o eleitorado. Um ponto, contudo, é comum e inegociável: o “polo democrático” (ele prefere a expressão à denominação de “centro”) está aberto a novas inscrições, mas o pré-requisito é aceitar que o confronto é com Lula e Bolsonaro.

Freire não adere ao conformismo nem aceita comparações com a situação de 2018 como se tem feito por aí para antever um suposto fracasso da empreitada alternativa. Diferença determinante: “Lá ninguém conversou, não houve sequer tentativa de união porque acreditávamos que qualquer um seria capaz de derrotar o PT e Bolsonaro. Agora, mais de um ano antes, já estamos em campo”.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 14 de abril de 2021, edição nº 2733

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