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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.
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Dupla do barulho

A plateia sofre, mas presidente e ministro se divertem no esquete

Por Dora Kramer - Atualizado em 31 jan 2020, 10h11 - Publicado em 31 jan 2020, 06h00

O presidente pode demitir o ministro da Justiça? Pode, mas sabe que não deve. Uma que Sergio Moro não dá motivo, outra que ele tem mais a perder que a ganhar. O ministro da Justiça pode se demitir? Pode, mas está ciente de que não deve. Uma que os pretextos criados por Jair Bolsonaro lhe soaram até agora insuficientes, outra que ele tem mais a perder que a ganhar; a visibilidade do cargo é essencial, sejam quais forem seus planos futuros.

Portanto, salvo alguma loucura presidencial incontornável, ainda não será neste nem no próximo Carnaval que Bolsonaro e Moro brincarão separados. A performance do morde e assopra tem feito bem a ambos. Ao ministro, as mordidas só proporcionaram consolidação da popularidade; ao presidente, os assopros propiciam recuos usados como “provas” das intrigas de oposição.

A depender da preferência política do freguês, são vistos alternadamente nos papéis do “bom” e do “mau”. Assim vão caminhando ambos ao molde de um esquete de humor nem sempre de bom gosto. Nenhum dos dois se aflige, enquanto na plateia (dentro e/ou fora do governo) os desesperados se contorcem, de regozijo ou dissabor, a cada novo episódio da série cujo epílogo ainda está para ser escrito.

Ainda não é agora que Moro e Bolsonaro vão brincar o Carnaval separados

Não é que se trate de uma encenação com roteiro bem pensado e escrito a quatro mãos. Há evidentes e reais insatisfações, desconfortos e divergências de parte a parte. Estas estão patentes no noticiário desde o capítulo inicial, em fevereiro de 2019, do veto a uma indicada (Ilona Szabó) de Moro para suplente no Conselho Nacional de Política Criminal.

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Foi o único caso em que Bolsonaro ganhou a parada de Moro nas redes sociais, dado o não alinhamento da cientista política à cartilha bolsonarista. De lá para cá, quando esteve do lado oposto ao do interesse do presidente, o ministro posicionou-se em consonância com as expectativas daquele eleitorado. Donde sentou praça no topo da popularidade governamental e na antessala das preferências de voto para presidente em 2022.

Vamos ser francos: ninguém é imune à inveja, e Bolsonaro talvez se remoa quando vê Moro fazendo as vezes de uma versão civilizada dele em entrevistas, debates e confrontações em geral. Se, e quando, o ministro diz alguma barbaridade, a gente nem sente, tal a fidalguia no trato.

O então juiz provavelmente não tinha na cabeça (embora pudesse ter no radar) uma candidatura presidencial quando aceitou o cargo de ministro. Fez sentido a alegação de dar um “upgrade” na tarefa que se impôs no combate à corrupção. Meio ingênuo no começo, nesse um ano ele aprendeu várias coisas.

Uma delas, que perspectiva de poder é poder. Daí a forte probabilidade de, incensado pela mulher, já ter incluído a Presidência no cardápio. Outra lição é sobre o valor da frieza e as vantagens da paciência.

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Assegura apoio à reeleição do presidente e qualifica indicação ao Supremo como “interessante” para manter frio o outro tema. Já Bolsonaro se debate um pouco mais, dá bandeira, embora não seja louco de rasgá-la. É uma dupla do barulho, mas cada qual age do seu jeito de modo a aproveitar, e usar adiante, os frutos do sucesso garantido pela plateia que aplaude, vaia e os mantém em cartaz.

Publicado em VEJA de 5 de fevereiro de 2020, edição nº 2672

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