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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

De 8 a 80

De um lado, os defensores do imediato impedimento do presidente da República; do outro, os convictos da reeleição em 2022

Por Dora Kramer - Atualizado em 1 Jun 2020, 15h39 - Publicado em 29 May 2020, 06h00

Nesta era de extremos em que vivemos, a segunda vítima (depois da verdade, a primeira) de vozes e olhares radicais é o espaço existente entre o oito e o oitenta. Nele vicejam atitudes moralmente condenáveis e/ou criminalmente enquadráveis. Não obstante, avoluma-se a aglomeração nos polos opostos. De um lado, os defensores do imediato impedimento do presidente da República; do outro, os convictos da reeleição em 2022.

O atual epicentro da discussão é a notória reunião de abril. O vídeo ensejou interpretação mais ou menos generalizada de que ali não havia prova cabal das pressões do presidente sobre a Polícia Federal, apontadas por Sergio Moro.

Por essa óptica, na ausência da tal da “bala de prata”, o procurador-geral da República não teria razão para oferecer denúncia ao Supremo Tribunal Federal contra Bolsonaro, que estaria, assim, livre da ameaça do impeachment.

O raciocínio materializou-se na reação do “mercado”. Os financistas, parceiros de empresários na falta de perspicácia política, respiraram aliviados ante a queda do dólar e a subida das ações na bolsa. Na versão de seus analistas, não havia nada ali de mais grave além das grosserias. Muitos até fora da bolha dos súditos do Jair concordaram.

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Pode até ser que essa também venha a ser a conclusão do procurador Augusto Aras e que ele não veja razão para enquadrar Bolsonaro como suspeito de nenhum dos crimes listados por ele no pedido de abertura de inquérito no STF para apurar a denúncia de Moro. Isso não significa ausência de dolo, nem serve para limpar a extensa folha corrida do presidente no quesito palavras e atos abusivos.

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A destituição legal de um presidente da República é medida extrema. Pode vir ou pode não vir. Se não vier, agora ou mais adiante, não equivale à absolvição no tribunal da opinião pública. Ao se tomar o impedimento como a única punição cabível, acaba-se por considerar que tudo o mais é permitido e qualquer coisa que não venha a resultar na interrupção do mandato possa ser aceita como atestado de boa conduta.

“O foco exclusivo na ‘bala de prata’ fortalece adeptos da tese conspiratória”

O foco exclusivo na cápsula detonadora de lobisomens e outros monstros só favorece a teoria conspiratória que alimenta súditos caninos, sejam eles ideológicos, ressentidos entusiasmados com a fama ou os empenhados em se desviar da rota do iceberg, figura usada naquela reunião pelo presidente para expressar seu medo do naufrágio.

Ocorre por vários motivos, sendo o impeachment uma hipótese. Mas um governo também sucumbe por outras razões. Uma delas, quando rompe o pacto constitucional da harmonia entre os poderes e, isolado, passa a vagar tal cadáver insepulto com interlocução de precária a inexistente na institucionalidade e na sociedade. Pois aquela reunião aproximou o presidente da situação-zumbi.

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Mais uma vez, Bolsonaro errou o cálculo. Ficou perdida no registro das barbaridades diárias a ideia dele de dar publicidade à reunião do dia 22 a fim de mostrar-se ao país em situações de mando. Entre elas, cobranças feitas ao então ministro Moro sobre a prisão de rebeldes às determinações da quarentena.

Imaginou que a pose de valente lhe renderia benefícios políticos/eleitorais. Por isso mandou gravar. Por isso substituiu referências à polícia por “segurança nossa”. Só não divulgou porque foi “desaconselhado”. Certamente por auxiliares cientes do que ali ocorrera: uma série de atitudes passíveis de enquadramento criminal e condenação moral. Tinham razão, conforme demonstraram os fatos. Fosse a gravação favorável, a Advocacia-Geral da União não teria tentado impedir na Justiça a divulgação, nem haveria ataques à decisão do ministro Celso de Mello de liberar o vídeo.

Um desastre completo: pôs o ministro da Educação na mira da Justiça, o do Meio Ambiente na corda bamba da improbidade, o da Economia no altar do cinismo pretensioso, a dos Direitos Humanos em delírio policialesco, os presidentes da Caixa, do Banco do Brasil e do BNDES em posição de sabujice explícita.

A todos impôs alistamento compulsório em seu exército e fez mais: incentivou milícias populares, debochou do serviço oficial de inteligência, menosprezou o Congresso (“esse pessoal aqui do lado”), explodiu pontes com o Supremo e mostrou aos palavrões quanto era falsa a civilidade exibida no encontro da semana passada com os governadores. Uma obra de destruição. Se é vista como ganho, invertido está o sentido do que seja perda.

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Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 3 de junho de 2020, edição nº 2689

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