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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Agora, falando sério

O país aguenta, mas Bolsonaro talvez não se aguente muito tempo

Por Dora Kramer Atualizado em 2 ago 2019, 14h41 - Publicado em 2 ago 2019, 07h00

A pergunta recorrente entre nós, espectadores do espetáculo produzido, dirigido e encenado por Jair Bolsonaro, é até quando o Brasil aguenta conviver com um presidente tão obviamente despreparado para o cargo. A questão de fundo, porém, talvez não seja essa, uma vez que o país já passou por muitas e péssimas, sobreviveu a todas e pode perfeitamente sobreviver a mais esta.

A dúvida é se, e até quando, Bolsonaro se aguenta sem perder a relevância e tornar-se um coadjuvante da cena política que, em tese e para todos os efeitos, deveria liderar. Da posição de autoridade primeira ele pode transitar para a condição de mero provocador diletante a quem não se dá maior importância devido à inconveniência e à exorbitância de suas palavras, gestos e decisões.

Isso se chama perda de substância, que é justamente para onde caminha o presidente cuja convicção é de que está certo. Ele disse recentemente ao jornal O Globo que nasceu assim, não vai mudar e não está minimamente preocupado “com 2022”, pois, se estivesse, “não daria essas declarações”. Ou seja, sabe da impropriedade daquilo que fala e, no entanto, persiste no erro.

A esse tipo de conduta dá-se o nome de ­burrice, embora ao presidente e a seu contingente de acólitos possa soar como autenticidade.

“O presidente quer fazer tudo do seu jeito, mas do jeito dele não dá certo”

Pode-se ser um autêntico estadista ou um autêntico cabeçudo. Questão de vocação, formação e personalidade. No caso de Bolsonaro, há um completo desconhecimento sobre desempenho de função pública. Qualquer uma, conforme atesta sua atuação parlamentar. Investido do figurino de “homem comum”, quer fazer tudo do seu jeito, mas do jeito dele não dá certo. Aliás, pode dar muito errado a depender dos prejuízos que o presidente ainda seja capaz de causar a si, à sociedade, à estabilidade institucional, ao estado de plenos direitos legais e aos preceitos da civilidade.

Por enquanto ninguém pensa em impeachment, embora o país possa vir a pensar, tantos são os flancos abertos pelo presidente. No momento seria um embate inútil por ausência de força política em condições objetivas e subjetivas de ocupar o lugar. Além disso, seria o tipo de caso que Bolsonaro adoraria enfrentar. Um ótimo motivo para distribuir sopapos verbais, excelente opor­tunidade para unir a tropa e uma chance para recuperar o apoio dos arrependidos ma non troppo.

Produzir conflitos no lugar de resultados de governo não enseja impedimento para exercer o cargo de chefe da nação, mas provoca isolamento, o equivalente ao degredo na política. As pessoas se afastam, os aliados se calam, os subordinados se retraem, os adversários se reúnem, as propostas do governo não prosperam no Congresso, as derrotas se avolumam no Judiciário, o ambiente na percepção externa se deteriora, as relações internacionais são dificultadas, tudo desanda e sai do eixo.

O primeiro sinal de que a conta chegou (ou não) será dado agora, com a volta do Congresso ao centro da cena que Bolsonaro ocupou da pior maneira possível no recesso.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2019, edição nº 2646

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