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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A voz da gente

Passa da hora de aqueles que se julgam com aptidão e preparo suficientes para concorrer à Presidência apresentarem aos brasileiros uma agenda de trabalho

Por Dora Kramer Atualizado em 8 out 2021, 17h06 - Publicado em 8 out 2021, 06h00

Faz uns bons dias, praticamente um mês, que o país — ou parte dele — não é compelido a cerrar fileiras diuturnas em defesa da democracia. A mola propulsora desse tipo de discussão anda temporariamente desativada desde que o presidente da República foi convencido a afastar o dedo da tomada antes de se queimar completamente.

Nesse interregno de relativa paz institucional, abriu-se espaço para o que de fato interessa aos 213 milhões de brasileiros, entre os quais 147 milhões de eleitores: a vida real, com suas aflições cada vez mais agudas em tempo de crises e carestia.

Enquanto Jair Bolsonaro se abstém de criar confusões em lives, tuítes e cercadinhos, o Brasil tem a chance de se concentrar no que importa. Olhando para o futuro de horizonte próximo, pois do presente não há muito ou quase nada a esperar de um governante que desconhece o significado da palavra governar.

Portanto, passa da hora de aqueles que se julgam com aptidão e preparo suficientes para concorrer à Presidência daqui a um ano apresentarem aos brasileiros uma agenda de trabalho. Pauta concreta sem enfeites nem fantasias. Coisa de gente grande, ciente da gravidade da situação de um país há muito paralisado e hoje caminhando com rapidez ao retrocesso.

O que vemos, no entanto, não é nada parecido com um esforço de inspiração e de transpiração para mostrar aos brasileiros o rumo da recuperação do crescimento e da confiança, notadamente dos jovens cujo maior sonho hoje é se qualificar não para contribuir, mas para deixar o Brasil em busca das oportunidades que aqui lhes são negadas.

Descontados os residentes nas bolhas lulista e bolsonarista, um enorme contingente de cidadãos com toda a certeza adoraria ouvir coisas para além do “fora, Bolsonaro” ou esperar algo mais que uma simples, e ilusória, promessa de volta a um passado desprovido de boas ofertas referidas na realidade atual.

“Pretendentes a presidente não dialogam com a sociedade e deixam de fora da agenda as aflições reais do país”

O ex-presidente Luiz Inácio da Silva, do alto de seu favoritismo nas pesquisas de intenção de votos para 2022, nada tem oferecido a esse eleitorado. Não dialoga com a sociedade, não diz qual é seu plano se for eleito, sequer vai às manifestações de rua. Enquanto justifica a ausência com o desejo de não dar caráter eleitoral aos atos, dedica-se em tempo integral a reuniões de caráter eleitoral.

Na verdade, o projeto de Lula é não se expor, na tentativa de ganhar a eleição por gravidade. Não reforça protestos, pois a ele interessa que Bolsonaro balance, mas não caia. Lembra Tancredo Neves quando, temeroso de que Paulo Maluf desistisse da disputa no Colégio Eleitoral de 1985, evitou maiores ataques ao adversário.

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Não atuam de modo diferente os políticos e os partidos interessados em atrair os eleitores que não aderem (ou gostariam de não aderir) nem Lula nem a Bolsonaro. Estão se mexendo, é fato, em busca de uma ou mais candidaturas alternativas. Movimentação, contudo, voltada para os respectivos umbigos.

Ciro Gomes ocupa-se de uma briga com o PT que resvala nas vias de fato. O PSDB gasta toda a sua energia na resolução das divergências internas, que, tudo indica, não serão sanadas com a realização das prévias para escolher o candidato, seja quem for o vencedor.

Ao centro direcionado à direita, PSD cuida da própria vida em busca de robustas adesões, enquanto DEM e PSL estão voltados à organização de uma fusão. As outras forças, MDB, PP, PL e companhia, gravitam de um lado a outro no aguardo do que melhor lhes aprouver segundo suas expectativas individuais.

Em suma, a cena das forças pretendentes a governar o Brasil está dominada por projetos de poder. Planejamentos necessários no ambiente político-eleitoral, mas eles não são maiores, muito menos podem ser vistos como mais importantes que a dolorosa realidade das pessoas largadas à própria sorte.

Assim como os dois ilusionistas que ora atraem as atenções eleitorais, os demais aspirantes a presidente não abrem diálogo com um público infinitas vezes maior que aquele presente às manifestações. Limitam-se a bater na tecla dos desmandos e incompetências do governo em curso e, aqui e ali, dar umas estocadas no PT.

Agora, de conversar com o país sobre como pretendem enfrentar, amenizar e superar as dores da espinhosa vida da gente brasileira, suas excelências à direita, ao centro e à esquerda não querem saber.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 13 de outubro de 2021, edição nº 2759

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