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Diário de um Escritor Por Flávio Ricardo Vassoler Um olhar para o cotidiano histórico e cultural da Rússia - mas muito além do futebol

Adeus, Lênin?

Na Rússia, não poderia faltar a matriochka política. Da boneca maior, representada por Vladimir Putin, à menor, Lênin

Por Flávio Ricardo Vassoler - 25 jun 2018, 08h25

Ao largo da Praça Vermelha, em Moscou – a bem dizer, por todos os cantos da capital russa e, provavelmente, em todas as cidades do país –, é possível encontrar a матрёшка (matriochka), uma boneca multicolorida de madeira que se abre ao meio e de cujo ventre vão saindo, sucessivamente, bonequinhas cada vez menores.

Na Rússia historicamente transpassada pelo culto ao grande líder, não poderia faltar a matriochka política, é claro. Assim, da boneca maior, representada pelo neotsar Vladimir Putin (1952 – ), à boneca menor, encarnada pelo bolchevique Vladimir Lênin (1870-1924), as matriochki (emprego, aqui, o plural russo) vão acompanhando, da contemporaneidade até os primórdios da Revolução de 1917, a sucessão inversa de presidentes russos e premiês soviéticos.

Putin, então, engloba Boris Iéltsin (1931-2007), o primeiro presidente eleito após o colapso da União Soviética que, por sua vez, contém Mikkhail Gorbatchov (1931 – ), o líder reformista que, ao tentar arejar a URSS para dar uma face humana ao socialismo, acabou sendo o último a apagar as luzes [até hoje, alguns sovietófilos nostálgicos acusam Gorbatchov de alta traição; ademais (e talvez já com três ou quatro talagadas de vodca a mais), há quem acuse o carismático Gorby, com sua característica mancha vermelha sobre o cocuruto, de ser um maçom a serviço do imperialismo estadunidense].

Gorbatchov, por sua vez, engloba Leonid Brejnev (1906-1982), o longevo e sonolento premiê que, com sua voz algo embargada, permaneceu no poder durante 18 anos – de 1964 até o ano de sua morte. [A matriochka política pula, na sucessão inversa de Gorbatchov a Brejnev, os gerontocratas Konstantin Tchernenko (1911-1985) e Iuri Andropov (1914-1984), que, devido à idade bíblica, acabaram permanecendo durante muito pouco tempo à frente da URSS.]

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Brejnev contém o carismático e bom de briga Nikita Khruschov (1894-1971), o secretário geral do Partido Comunista que liderou a URSS durante a gravíssima crise dos mísseis em Cuba, em outubro de 1962, escaramuça que, ao contrapor as duas superpotências da Guerra Fria, quase levou o mundo ao apocalipse nuclear.

Khruschov, então, engloba Ióssif Stálin (1878-1953), o ditador que comandou a União Soviética durante a Grande Guerra Patriótica (1941-1945) contra os invasores nazistas e que, por meio dos planos quinquenais, da coletivização/inanição forçadas no campo, da política de extermínio e expurgo dos (supostos) inimigos e da drenagem de trabalho escravo, levou a URSS, segundo uma de suas colocações mais pitorescas, “do arado de ferro à bomba atômica”.

A matriochka/Kinder Ovo de Stálin, ao fim e ao cabo, dá à luz Vladimir Lênin, o líder da Revolução de Outubro de 1917.

Mas, para aquém (e para além) do grande panorama histórico com seus líderes máximos, como era a vida cotidiana (o microcosmo) em meio à União Soviética?

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A propaganda estadunidense durante a Guerra Fria (corroborada pelos golpes militares profiláticos aplicados na América Latina com o beneplácito dos EUA) só fazia enfatizar o totalitarismo de Estado e a falta de liberdades civis, o desrespeito aos direitos humanos, a escassez de produtos nos mercados e as filas quilométricas para a obtenção de alimentos. Mas, ao lado do teor de verdade de tais colocações, como era a vida cotidiana (o microcosmo) em meio à União Soviética?

Charge soviética em que um grande alicate comunista desmembra as engrenagens do nazismo e põe Hitler para correr ao fim da Segunda Guerra Mundial - Foto de
Charge soviética em que um grande alicate comunista desmembra as engrenagens do nazismo e põe Hitler para correr ao fim da Segunda Guerra Mundial Flávio Ricardo Vassoler/VEJA

Para tentar elucidar um pouco das expectativas e sonhos dos cidadãos e cidadãs soviéticos, o Soviet Lifestyle Museum, aqui em Kazan, nos apresenta um verdadeiro antiquário – ou relicário, a depender da coloração ideológica – do cotidiano da URSS.

Logo à entrada do museu, deparo com uma piada que atesta, para os devidos fins, que o escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924) recebeu o título de cidadão honorário da União Soviética. (Vale frisar que Kafka costumava rir aos borbotões enquanto lia para os amigos suas estórias de sumo medo a prenunciar o totalitarismo de Estado à direita e à esquerda.) Eis o chiste:

“– Alô, é da polícia?

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– Sim.

– Aqui é o Vássia.

Breve ruído.

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Em 5 minutos a campainha volta a soar.

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– Alô, é da polícia?

– Sim.

– Aqui é o Vássia.

Breve ruído.

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5 minutos.

Campainha.

Voz junto à porta.

– É o Vássia?

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– Sim.

– Aqui é a polícia”.

Logo ao lado, leio um chiste que espia através do verniz oficial da ética soviética do trabalho [a ética protestante (sem Deus) e o espírito do socialismo]:

“– Onde você trabalha, Ivan?

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– Em nenhum lugar.

– Mas o que você faz?

– Nada.

– Mas que trabalho fantástico!

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– Sim, meu trabalho é fantástico – mas a concorrência é enorme!”

E que dizer da cobrança dos pais soviéticos pelo bom desempenho de seus filhos na escola? Com um sorriso de canto de boca, o Soviet Lifestyle Museum nos dá uma dica:

“– Paizinho, hoje na escola tem reunião de pais… Mas é só pra alguns pais.

– Só para alguns pais? Como assim, Sacha?!

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– Sim… A reunião é só pra você e pro professor”.

Em contraposição à aura cinzenta que a propaganda dos EUA atribui à URSS, o museu desvela a vida soviética em seu lirismo risonho:

“– Kátia, minha filha, o que você tá fazendo?

– Tô escrevendo uma carta, mamãe.

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– Ora, menina, mas você ainda não sabe escrever!

– E o que que tem? A minha amiga também não sabe ler”.

E que dizer quando uma mãe depara com o retrato de seu filho artista quando bem jovenzinho?

“– Mamãe, mamãe, eu tive um sonho muito lindo, mamãe! – exclama o pequeno Sacha.

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– E você sabe o que o sonho quer dizer, meu filho?

– Claro que sei, mamãe. O sonho… é o cinema enquanto dorme”.

Tornando o tempo e a memória tangíveis, o Soviet Lifestyle Museum apresenta pôsteres os mais diversos – da estátua idealizada do operário brandindo o martelo ao lado da camponesa soerguendo a foice até as admoestações (a bem dizer, as ordens) estatais para que os cidadãos não fumassem e (como se adiantasse alguma coisa) não bebessem.

Jaquetas e camisetas, calças e tênis, broches, bolsas e adesivos com os caracteres em russo, sempre grafados em vermelho, da СССР [Союз Советских Социалистических Республик (Soiuz Sovietskikh Sotsialistitcheskikh Respublik), isto é, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.]

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Uma charge anônima mostra um enorme alicate com a estrela vermelha da URSS desmembrando as engrenagens decrépitas de um Hitler trêmulo e mal preparado para enfrentar o general inverno russo. Ao lado de um pôster altivo do soldado soviético na Segunda Guerra – За Pодину, за Сталина, За Cвободу! (Za Rodinu, za Stalina, za Svobodu!, isto é, Pela Vitória, Por Stálin, Pela liberdade!), vejo uma foto, em preto-e-branco, de uma camponesa que acena, sorridente, da carroceria do trator de sua fazenda coletiva – provavelmente, a foto data dos anos 1960, quando Khruschov, a partir de uma política de degelo antiestalinista, procurou insuflar ímpeto de utopia rediviva na população com seu estímulo a safras recordes no campo e a programas de construção coletiva de edifícios a partir de blocos pré-fabricados, para que cada família soviética pudesse viver em seu próprio apartamento para além das moradias coletivas.

Quem já leu o romance Doutor Jivago (1957), obra-prima que rendeu ao russo Boris Pasternak (1890-1960) o Prêmio Nobel de Literatura em 1958, se lembrará de que, não muito tempo depois da vitória dos bolcheviques, em outubro de 1917, a enorme casa do médico (e poeta) Iuri Jivago foi expropriada e passou a abrigar várias famílias em seus numerosos cômodos. [Não à toa, um velho dito da finada República Democrática Alemã – mais conhecida, no Ocidente, como Alemanha Oriental – sentenciava que uma cozinha própria (isto é, uma cozinha não compartilhada com um sem-número de famílias) valia uma vida.]

Um pôster colorido em homenagem à parada do Dia 1º de Maio me permite entrever a elegância austera das mulheres soviéticas, com seus vestidos sem decotes – não se veem nem mesmo ombros à mostra –, cinturas bem talhadas e meias-calças a realçar a silhueta até a comportada altura dos joelhos. Carregando bexigas de várias cores, a molecada veste bermudas, meias arriadas e camisas de botão com mangas compridas.

Um pôster do Коммунистический Cоюз Mолодёжи (Kommunistitcheski Soiuz Molodioji, isto é, União da Juventude Comunista), o Komsomol, sentencia que o membro pré-mirim, com seu lenço vermelho ao redor do pescoço, deve estar sempre pronto – Всегда готов! (Vsegda gotov!) – para as demandas do Partido. Com o braço estendido em continência e a mão direita aberta em palma a cruzar a testa como se fosse uma hipotenusa, a saudação do Komsomol já prepara o jovem membro para a disciplina de caserna do socialismo. [Não à toa, um velho dito do Partido Comunista da finada Alemanha Oriental assim sentenciava:

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“Die Partei hat immer Recht” (“O Partido sempre tem razão”).]

E eis que vejo uma foto de Mikhail Kalachnikov (1919-2013) enviada pelo próprio militar e engenheiro russo ao Soviet Lifestyle Museum. Datada de 09 de novembro de 2013, véspera do 94º aniversário do lendário inventor do fuzil de assalto AK-47, Kalachnikov só viveria mais 44 dias depois de capturada a imagem em que aparece de olhos algo esbugalhados e vestido com uma jaqueta esportiva junto à sua mesa de trabalho.

O soviético Mikhail Kalachnikov, militar, engenheiro e inventor do fuzil de assalto AK-47 Flávio Ricardo Vassoler/VEJA

À esquerda (mas também à direita), o AK-47 passou a fazer parte das mais diversas sublevações armadas pelo mundo – após a guerra de independência em relação a Portugal, Moçambique chegou a estampar o fuzil em sua bandeira nacional.

Boletins escolares e gramáticas soviéticas; pistolas de plástico e réplicas do AK-47 em madeira; sobretudos e quepes do Exército Vermelho e do KGB; vitrolas e fitas cassete (músicas de época ficam tocando ao fundo); perucas desgrenhadas e maços de cigarro amassados; centenas de fotos de Gagárin e desenhos do cosmonauta com giz de cera; máscaras de gás (para o caso sempre “iminente” de um ataque ianque) e até mesmo uma bolsa, dos anos 80, com a imagem de um velho Lada – no Parque Lênin, nas cercanias de Havana, em julho de 2013, dirigi um Lada vermelho cuja caixa de câmbio já não discernia entre a segunda e a quarta marchas e cujos pneus, mais carecas que Lênin, ainda assim freavam quando, já começando a suar, eu pisava no pedal até o talo.

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Em 2008, enquanto eu fazia um curso de língua russa na Российский Университет Дружбы Народов (Rossiiskii Universitet Drujby Narodov, Universidade Russa da Amizade dos Povos), um de meus professores, o bigodudo Vitali Tchartoritcheski, traçou uma comparação entre os novos e os velhos tempos.

– Como nós, acadêmicos das humanidades, não tínhamos lá muito prestígio em comparação com os cientistas e engenheiros que impulsionavam a corrida armamentista e o programa aeroespacial da União Soviética, não nos restava muito ímpeto para a criatividade – isso sem falar na liturgia do marxismo –leninismo segundo a qual precisávamos rezar. Ainda assim, chegamos a fazer alguns estudos pitorescos, por meio dos quais descobrimos que Púchkin e Lênin, em termos de estatística vocabular, eram de fato gênios: há mais de 10.000 palavras distintas – se bem me lembro, a cifra chega a 15.000 – empregadas por eles ao longo de suas obras, veja só! E, bom, se você estiver pensando que tais estudos são frutos de quem não tem muito mais o que fazer, ouça essa: a época atual – sobretudo vocês, do Brasil, mas também a velha Europa – se gaba por encher estádios para jogos de futebol; pois então saiba, meu caro, que, na União Soviética, nós lotávamos estádios para ouvir poesias – sim, para ouvir poemas e recitá-los: chegávamos ao êxtase coletivo não com gols, mas com versos e estrofes de Púchkin e Maiakóvski, veja só! Como é que eu vou esquecer que, em outubro de 67, no 50º aniversário da Revolução, mais de 70 mil pessoas reunidas no Estádio Central Lênin reverberaram versos de Maiakóvski – versos que os marinheiros recitavam enquanto, de seus encouraçados, eles investiam contra o Palácio de Inverno do tsar, em São Petersburgo, durante a Revolução:

“Come ananás, mastiga perdiz. / Teu dia está prestes, burguês”. Naquele momento, meu caro, nós acreditamos que a beleza salvaria o mundo. Sim, nós acreditamos, nós acreditávamos! Vamos, me chame hoje de ingênuo e de idiota, mas nós tínhamos algo – um sentido tangível – para além de contas bancárias e redes de fast food. E o que vocês têm hoje, meu caro? Vamos, me diga: o que vocês têm?!

O Soviet Lifestyle Museum e a lembrança das palavras de Vitali me fazem aterrissar, sem mais, no filme Adeus, Lênin! (2003), dirigido pelo alemão Wolfgang Becker (1954 – ). Ao fim da narrativa, Alex, filho bastante amoroso da dedicada comunista Christiane, precisa enterrar a mãe cardiopata que não conseguiu sobreviver ao colapso do bloco socialista. O enterro de Christiane, no entanto, não relegará a utopia a sete palmos do chão. Alex procura, ainda uma vez, o afago da memória. Na extinta Alemanha Oriental, as crianças, como se fossem cosmonautas, lançavam seus foguetes lúdicos com a esperança de que o socialismo fosse o pioneiro na exploração do espaço. Christiane pede a Alex que suas cinzas sejam lançadas aos céus a bordo de um foguete cosmonauta – o Vostok 1 de Iuri Gagárin. Quiçá para distanciá-la de um mundo em que a utopia se transformara em estilhaço da memória. Adeus, Lênin. Quiçá para se confundir com as estrelas, cujo firmamento distante a humanidade tentou redesenhar com o socialismo.

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Ao fim e ao cabo, a viagem cosmonáutica pelos escombros da memória e da utopia me faz entender uma colocação sumamente espirituosa e contraditória, nostálgica e (por que não?) lírica de Vladimir Putin, quando o ex-agente do KGB assim sentenciou a jornalistas russos em meados de 2010: “Aquele que quer restaurar a União Soviética não tem cérebro, mas quem não lamenta o seu fim não tem coração”.

Sobre o autor

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA). É autor das obras O evangelho segundo Talião (nVersos, 2013), Tiro de misericórdia (nVersos, 2014) e Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, 2018), além de ter organizado o livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012) e, ao lado de Alexandre Rosa e Ieda Lebensztayn, o livro Pai contra mãe e outros contos (Hedra, 2018), de Machado de Assis. Página na internet: Portal Heráclito, http://www.portalheraclito.com.br.

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