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Coluna da Lucilia

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O amargor do açúcar

Quem fala que adoçante faz mal à saúde é idiota, acreditava Roosevelt.

Por Lucília Diniz 30 set 2021, 17h49
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Caloria vazia, o açúcar é o vilão de todas as dietas e, em dose excessiva, se transforma em veneno. Não exagero. Com toda aquela brancura cristalina que remete à pureza, o açúcar refinado dissimula sua verdadeira identidade – a de uma droga. É imenso o mal que pode provocar a quem se entrega impensadamente ao seu consumo. De acordo com um estudo recente sobre o uso de açúcar numa publicação britânica, é alarmante a relação verificada entre o consumo de bebidas açucaradas e o risco de desenvolver câncer antes dos 50 anos.

O açúcar pode causar – além do câncer – diabetes, hipertensão, obesidade, disfunção hepática e, como qualquer droga, dependência. Quantas vezes já ouvimos alguém dizer que seu corpo “precisa de açúcar”? Mas parece que, em vez de focar nesse problema real, sempre houve um batalhão de gente que prefere espalhar fake news sobre adoçantes. Ora, como dizer que adoçantes artificiais fazem mal, se o açúcar – que eles substituem com tanta eficiência – é que é notadamente um dos maiores inimigos da vida saudável?

A indústria alimentícia sabe disso, é claro, mas, numa manobra diversionista, sempre tentou colocar os adoçantes no banco dos réus. Embora sem sustentação científica, essa estratégia semeou a dúvida. A história da sacarina, o adoçante artificial mais antigo, oferece um bom exemplo. Sintetizada pela primeira vez em 1879, começou a ser comercializada na virada para o século XX, tendo sido de saída alvo de críticas infundadas – provavelmente partindo do lobby do açúcar na época. Até Harvey Wiley, pai do Food and Drug Administration – a Anvisa dos EUA – tentou convencer o então presidente Theodore Roosevelt a banir a substância. Mas o estadista, entusiasta do adoçante no controle do seu próprio peso, não perdeu tempo com as objeções: “Qualquer um que diga que a sacarina faz mal à saúde é um idiota”, respondeu. A ciência lhe daria razão, mas o estigma nunca desgrudou dos adoçantes. Tanto que o aspartame, descoberto por acaso em 1965, também sofreu campanhas de difamação, da mesma maneira que a sucralose, extraída da cana.

Ainda que o consenso atual seja o de que tais substâncias são inofensivas em quantidades consumidas normalmente, muitas pessoas continuam a acreditar em hipóteses nunca comprovadas de que elas fariam mal à saúde. Quanto a mim, sempre usei adoçante de modo a realçar os sabores naturais. Uma pitada aqui e outra ali, e terá sido o suficiente. Se você sentir o gosto do produto, pode saber que passou do ponto, o que não é difícil acontecer. Acredito, aliás, que moderação seja a palavra-chave. Não apenas para medir a quantidade de adoçante ou açúcar. Moderação remete ao autocontrole e à força de vontade, atributos que, uma vez conquistados, levam a uma transformação pessoal, em nossa jornada de nos tornarmos o que somos, como dizia Nietzsche.

A ideia de moderação comporta ainda uma dimensão de saúde pública que não deveria ser menosprezada. Num país em que 60% dos adultos têm sobrepeso e 40 milhões de pessoas são pré-diabéticas, ir devagar com o açúcar é um conselho que pode salvar vidas.

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