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Coluna da Lucília Por Lucília Diniz Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação

Hora da merenda

Cantinas de escolas públicas deveriam oferecer cardápio rico em nutrientes

Por Lucília Diniz 19 ago 2021, 18h18

Não faz assim tanto tempo que os conceitos de gordura e saúde se embaralhavam entre leigos bem intencionados. Muitos de nossos avós, por exemplo, achavam que havia alguma coisa errada com os netos mais magrinhos. Essas crianças, eles imaginavam, estariam vulneráveis a doenças, teriam o crescimento comprometido, não aprenderiam direito a tabuada.

Pois esse tempo passou, e tais conceitos foram superados. Hoje, a obesidade infantil é, corretamente, considerada pela medicina como um problema a ser enfrentado. As escolas públicas, no entanto, parecem relutar em adotar práticas condizentes com a visão baseada na ciência. Basta observar o que, com frequência, ocorre com as refeições oferecidas aos alunos. Nos sites das prefeituras, os cardápios em geral parecem balanceados, o que atende às exigências legais. Nas mesas, no entanto, a realidade nem sempre corresponde ao anunciado. Proteínas e legumes frescos – que compõem a parte nutricional mais importante da dieta – muitas vezes não estão presentes. E sobra carboidrato: arroz, batata, bolacha, macarrão. Não por coincidência, os alimentos do primeiro grupo são mais caros do que os do segundo.

Sei por experiência própria que políticas públicas voltadas à alimentação das crianças não são fáceis de serem implantadas. No período em que José Serra foi governador de São Paulo, estive envolvida em um projeto-piloto por iniciativa da primeira-dama, Mônica Serra, no âmbito do Fundo Social da administração paulista. A ideia passava pelo uso integral dos alimentos e a eliminação de desperdícios. Mas às vezes faltavam insumos ou treinamento adequado das merendeiras.

O almoço e o lanche nas escolas públicas costumam ser a principal refeição de muitas crianças. A pandemia escancarou essa realidade, tanto que muitos governos, como o de São Paulo e do Rio de Janeiro, passaram a dar às famílias um auxílio-merenda, como forma de compensar a falta das refeições devido à suspensão da presença dos alunos nas escolas. Agora, com a volta às aulas presenciais, temos mais uma a oportunidade de debater a alimentação ideal, sobretudo para a faixa etária que frequenta o ensino fundamental. No Rio de Janeiro, por exemplo, os vereadores estão debatendo a predominância de alimentos ultraprocessados nos lanches nas cantinas de escolas públicas e privadas. As crianças de um modo geral gostam de biscoito recheado, cachorro-quente e achocolatados, mas ainda, é claro, não têm discernimento para avaliar o poder nutritivo do que ingerem. O problema é maior para as crianças de escola pública, que com frequência não têm acesso aos principais nutrientes em casa.

A lei é importante, mas não é suficiente. A sociedade precisa estar atenta para checar se ela está ou não sendo cumprida. Executivos, docentes, representantes da sociedade civil e pais deveriam aproveitar o momento de volta às escolas para começar a elaborar um projeto de alimentação viável e consistente. Ter vontade política é um começo. Mas é preciso também organização, esforço logístico que favoreça a compra de insumos adequados, treinamento de profissionais, distribuição ágil de alimentos e contratos bem amarrados com fornecedores. Dá trabalho, sim. Mas dá para fazer

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