Clique e assine com até 92% de desconto
Coluna da Lucília Por Lucília Diniz Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação

Ativismo de sofá funciona?

O impacto do “clicktivism” no mundo concreto

Por Lucília Diniz Atualizado em 22 out 2020, 16h53 - Publicado em 22 out 2020, 16h45

Você provavelmente já ouviu a expressão “ativista de sofá”. Se não ouviu, eu explico: o ativista de sofá é, melhor dizendo, um ativista de redes sociais. É a pessoa que coloca filtros em sua foto de perfil, compartilha tuítes, participa de abaixo-assinados, posta hashtags, tudo em apoio a alguma causa política ou humanitária.

Sua militância é virtual, daí a carga pejorativa do termo: o ativista de sofá é aquele que, do conforto de sua casa, se engaja em quantas lutas puder, mas não se mexe no mundo real. Ele quer ser visto como alguém preocupado com o meio ambiente, a justiça social, a humanidade, mas não se compromete “de verdade” com a defesa dessas causas. Todos conhecemos alguém assim, não é mesmo?

À primeira vista, essa parece ser uma forma preguiçosa de ativismo, sem qualquer impacto relevante para a sociedade. Bem, não é o que concluiu um estudo da Universidade da Carolina do Norte (UNC), nos EUA, recentemente publicado na prestigiada revista Science.

Os pesquisadores descobriram que até as formas mais despretensiosas de “clicktivism” (ou “ativismo digital”) têm algum impacto concreto no mundo. Elas ajudam principalmente a disseminar ideias pouco conhecidas, movimentos que não encontrariam espaço em canais convencionais de divulgação como televisão e jornais. Em outras palavras, um tuíte ou uma hashtag não mudam o mundo, mas milhares deles podem, sim, impulsionar uma causa.

Quem ainda acha que ativismo digital é coisa para “preguiçosos” simplesmente não entendeu como a informação circula e se multiplica no ecossistema das redes sociais. Os pesquisadores notaram ainda que pessoas engajadas virtualmente são também as que mais participam de mobilizações offline. Ou seja, o “ativismo de sofá” não tem substituído, mas sim complementado, o ativismo “real”.

O fato é que comecei a rever alguns conceitos após conhecer esse estudo da UNC. Em primeiro lugar, será que ainda faz sentido falar em “ativismo digital” como algo à parte, como um “tipo” específico de ativismo? Estamos todos, querendo ou não, permanentemente com um pé no mundo digital. A pandemia do coronavírus tornou isso mais verdadeiro ainda. Em tempos de isolamento social, home office e videocalls, não há por que se referir a um “mundo digital” à parte, separado do mundo “real”. Logo, o ativismo das redes é hoje parte indispensável de qualquer movimento transformador.

Mas há outra questão levantada pelo estudo que me instigou: se parece difícil mudar o mundo com um tuíte ou uma hashtag, esses recursos podem ajudar a transformar os nossos mundos. Com as redes sociais, cada um de nós tornou-se influenciador, mesmo que apenas do seu círculo de amigos, de sua família, de seus colegas de trabalho. Logo, não é ótimo que todos nós sejamos um pouco “ativistas de sofá”? Com ações simples – uma postagem, um compartilhamento, um comentário – podemos disseminar informações confiáveis sobre qualidade de vida, bem-estar, alimentação saudável, atividades físicas e assim por diante.

É o que tento fazer nesta coluna. Mas ninguém precisa de um espaço na imprensa para impactar positivamente e transformar os hábitos daqueles que queremos bem. É como se diz: onde há uma vontade, há um caminho – e nem precisa sair do sofá.

Continua após a publicidade
Publicidade