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Coluna da Lucília Por Lucília Diniz Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação

A geladeira

Cultura, crenças e desejos lindamente guardados na cozinha

Por Lucilia Diniz - Atualizado em 2 out 2020, 19h10 - Publicado em 2 out 2020, 06h00

O magnata Jeff Bezos, fundador da Amazon, é o homem mais bem-sucedido do mundo. Primeiro ser humano a cruzar a linha dos 200 bilhões de dólares de patrimônio pessoal, Bezos mantém um hábito comum a várias pessoas de sucesso que conheço: marcar textos e frases inspiradores e deixá-los em local de acesso fácil. Curiosamente, o texto de que ele mais gosta está estampado há muitos anos na porta de sua geladeira.

Numa tradução livre, a mensagem diz: “Ser bem-sucedido é rir muito e com frequência; conquistar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; ganhar o apreço de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza; encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma criança saudável, um canteiro de jardim ou redimindo uma condição social; saber que pelo menos uma vida respirou melhor porque você viveu”. Interessante perceber que em nenhum momento há uma associação entre sucesso e prosperidade.

Mas o que mais me encantou no gesto de Bezos foi ele escolher a porta da geladeira para emoldurar e preservar a mensagem que lhe é significativa. Eu também sempre gostei de textos e frases inspiradores; assim como de geladeiras. E fazer dela “o meio e a mensagem” que nutre a nossa vida não deixa de ser uma ideia genial, capaz de dar novo significado ao mobiliário refrigerado presente em quase todas as casas do planeta. Equipamento prestes a celebrar 164 anos de existência.

“Imaginar o que seus donos estampam na porta do eletrodoméstico carrega inegável voyeurismo”

Toda geladeira tem luz própria (literalmente), já que seu conteúdo diz muito a respeito de uma pessoa. Imaginar o que seus donos estampam na porta delas, com o que a abastecem, o que comem e como organizam os alimentos é algo que carrega um forte e inegável tempero de voyeurismo. Se eu vir uma geladeira quase vazia, com apenas água gelada e uma caixa de pizza semidevorada, posso apostar que o dono é um homem solteiro. Assim como se eu abrir a geladeira de uma família japonesa que mora em Ichigaya, área residencial de Tóquio, encontrarei várias pastas, temperos e iscas que integram um repertório culinário absolutamente distinto daquele com que estamos familiarizados. Geladeira e cultura andam de braços dados!

Sobre espreitar refrigeradores alheios, foi lançada em maio a segunda versão do livro Inside Chef’s Fridges, obra que nos mostra como são as geladeiras domésticas pessoais dos melhores chefs do mundo. O desejo de mostrar o que está por trás da porta das geladeiras também move os anônimos. A ponto de já existir, imagine, uma categoria de fotos que faz sucesso nas redes sociais, as “shelfies”. São selfies de prateleiras, que funcionam não só para as de livros. A tendência levou os fabricantes Bosch e Samsung a lançar, na Europa, modelos que tiram fotos de seu interior. Seja para mostrar ao dono o que é necessário levar para casa, seja para mostrar seu conteúdo aos amigos.

É o aproveitamento da luz própria do eletrodoméstico para, numa versão mais “cool” da vaidade, promover uma outra exposição de si mesmo. Por essa, nem os roteiristas de O Dilema das Redes — o documentário do momento exibido pela Netflix — poderiam esperar.

Publicado em VEJA de 7 de outubro de 2020, edição nº 2707

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