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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

Participação e informação para evitar o colapso

Medidas duras, como lockdown e restrições mais fortes, têm seu papel, mas a participação ativa da sociedade é fundamental

Por Claudio Lottenberg Atualizado em 1 mar 2021, 19h29 - Publicado em 1 mar 2021, 19h25

A atual situação do Brasil na pandemia de Covid-19 em termos de contágio, mortes e saturação dos sistemas de saúde (público e privado) já era difícil, e se tornou extremamente grave desde o início deste ano. Vimos a tragédia humanitária que se desenrolou em Manaus, vemos Araraquara (interior de São Paulo) em situação crítica, o perfil dos doentes tem mudado e agora inclui um número assustador de pessoas de 30 a 50 anos, mesmo sem comorbidades – quando o risco maior estava entre os maiores de 60 anos. Ao lado de tudo isso, vemos ou medidas restritivas que não são efetivas ou a ausência delas – quando não a ativa oposição da parte de alguns grupos.

Dados do Observatório Covid-19, da Fiocruz, mostram que 17 capitais do país sofrem uma piora sensível nas taxas de ocupação de leitos de UTI para adultos no SUS (Sistema Único de Saúde). Porto Velho, por exemplo, estava com 100% da capacidade esgotada no momento em que este texto era escrito. Em 12 Estados, a taxa de ocupação de tais leitos está em pelo menos 80%, o que é igualmente crítico. Para a rede privada, espera-se um cenário de colapso dentro das próximas semanas.

Tal quadro torna inevitável que se pergunte como se chegou a isso no Brasil. De um país que foi sinônimo de excelência em programas de vacinação, estamos hoje no triste quadro de ver que a imunização ainda não passou de 3% da população – e ainda se trata da 1ª dose: para a segunda dose, há grande incerteza quanto ao momento em que estará disponível. Paralelo a isso, governos estaduais e municipais têm se visto à deriva, sem coordenação nacional, e isso só faz aumentar a incerteza quanto à eficácia de medidas que venham a adotar por iniciativas próprias. Está em estudo em São Paulo a adoção de uma fase ainda mais dura para a circulação de pessoas e o funcionamento de empresas – uma “fase roxa”. Atualmente, a mais restritiva no Estado é a fase vermelha, na qual apenas atividades consideradas essenciais são autorizadas, como farmácias, supermercados e postos de combustível. Também já está em vigor um “toque de restrição”, voltado principalmente a coibir aglomerações nas ruas, que vigora das 23h às 5h até o próximo dia 14.

Mas são notórios os eventos clandestinos, em São Paulo e em outros Estados, que reúnem pequenas multidões – aglomeradas, sem máscara ou qualquer outra forma de proteção. Fiscalização e multas são impostas, mas as organizações desses eventos se dão por grupos em redes sociais, e coibi-las se torna um desafio. O aumento no número de casos visto desde janeiro se dá em decorrência, em não pequena proporção, das aglomerações ocorridas nas festas de fim de ano, no Carnaval e em outras ocasiões.

Um passo essencial na mudança desse quadro é a contínua informação e educação da população. Não há tratamento precoce e não há remédio contra a Covid-19, e mesmo a vacina está chegando em ritmo extremamente lento à população brasileira – isso precisa estar claro para as pessoas. O que temos à disposição continua a ser distanciamento social, higienização frequente das mãos e uso de máscara. Tais são as medidas que têm se mostrado efetivas, e que funcionaram em países que estão adiantados na vacinação e começando a sair das restrições mais duras. São elas que nos preservarão até o momento em que a vacinação tiver progredido.

Se faz necessário em não menor grau a abertura para que a iniciativa privada possa participar do processo de imunização – o que não será uma novidade na história brasileira. Menos burocracia e mais agilidade nas certificações de novos imunizantes também farão o processo de vacinação ganhar velocidade. Isso de forma alguma implica em negligenciar etapas ou adotar critérios frouxos, mas sim em tornar mais eficiente o processo como um todo.

Medidas duras, como lockdown e restrições mais fortes, têm seu papel. Mas a participação ativa da sociedade é fundamental. Após um ano de restrições, as pessoas podem estar saturadas, além de expostas a dificuldades econômicas graves. Mas talvez já tenhamos passado do momento de encarar o fato de que estamos diante da única alternativa. No ponto em que o Brasil se encontra, o colapso iminente da saúde pode levar a outros – em serviços funerários, logística e, no limite, mesmo à segurança. A pior crise sanitária em mais de um século está em seu momento mais agudo, e é agora que precisamos de um esforço unificado em torno das medidas de prevenção, em nome do fim da pandemia e da retomada da vida normal.

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