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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

Olhe para além da pandemia

Antes de qualquer 'volta ao normal', temos que estar adaptados de fato ao nosso 'novo normal'

Por Claudio Lottenberg 30 nov 2020, 13h07

As duas últimas semanas trouxeram esperança renovada: os dados finais do ensaio da vacina Pfizer/BioNTech1 e dados provisórios do ensaio Moderna mostraram eficácia de cerca de 95%, além de progresso na associação de drogas para tratamento. O fim da pandemia agora se tornou mais provável?

A resposta curta é que os desenvolvimentos mais recentes servem principalmente para reduzir a incertezas de um cronograma. As leituras positivas dos testes de vacinas significam que podemos chegar – se bem trabalhados o acesso e a distribuição de vacinas – a um fim epidemiológico para a pandemia (à chamada “imunidade de rebanho”) no quarto trimestre de 2021.

Mas isso significa apenas que tais vacinas têm de uma peça – central, sem dúvida, mas de modo algum a única – de um plano de implementação e ampliação eficazes de medidas de saúde pública e novos tratamentos e diagnósticos. A sazonalidade pode também jogar a favor: estamos entrando no verão, e também poderemos reduzir a mortalidade nos próximos meses (embora seja uma época do ano em que a tendência à aglomeração se intensifica). Fato é que, apesar da melhoria nos números e nas tendências das curvas, ninguém disse que a pandemia estava sob controle. Tem-se falado com mais frequência nas últimas semanas sobre um repique ou uma segunda onda. Seja a onda qual for, isso em nada reduz a necessidade de se tomar as medidas cabíveis.

O que posso dizer é que, antes de qualquer “volta ao normal” (ou seja, um ritmo de vida tal como tínhamos antes da Covid-19), temos que estar adaptados de fato ao nosso “novo normal” – e isso significa em grande parte manter medidas de distanciamento, troca de roupas, usar máscara e álcool gel e lavar copiosamente das mãos.

Posto tudo isso, quero fazer algumas considerações sobre qualidade de vida na pandemia. Um ponto crucial é a nossa alimentação. A pandemia nos obrigou a ir menos ao supermercado, como bem sabemos – o que de certa forma compromete a variação em nosso cardápio. Mas comer sempre a mesma coisa, além de monótono, não é recomendável. Além disso, não existem alimentos totalmente saudáveis ou não saudáveis; na verdade, nenhum alimento faz mal ao organismo, a menos que seja consumido de forma inadequada, tanto na forma de preparo quanto na quantidade.

Por isso, é importante planejar as refeições, variar o que você come. A dica é: quanto mais cor houver no seu prato, melhor: isso significa que você consumirá uma quantidade maior de nutrientes. Na verdade, mesmo o tradicional arroz com feijão, se preparado com temperos diferentes e de formas diferentes, pode trazer um contexto de validade e suficiência nutricional. O ideal é se aconselhar com profissionais da área que constroem uma dieta equilibrada quanto às calorias, mas que acima de tudo traga conforto e, por que não, prazer em se alimentar.

A pandemia tem também importantes efeitos na saúde mental, o que nem sempre se percebe no curto prazo. Por isso, aprender a lidar com os sentimentos e compreender de maneira realística o que está acontecendo (esqueça teorias infundadas e hipóteses conspiratórias) é crucial para atravessar por essa fase conturbada.

Estamos em uma fase de muitas incertezas. Informações nem sempre confiáveis ocupam espaços no contexto da sociedade, governos se municiam com informações incompletas (às vezes contraditórias mesmo), salários são reduzidos e empregos desaparecem, o contato humano se torna escasso – esta é somente uma brevíssima lista dos agravantes deste momento. Isto gera sensações de angústia e de insegurança que geram ansiedade, depressão, queda da autoestima, etc. Para não ser apanhado nessa teia, leia sobre outros assuntos, não apenas ligados à pandemia (a lista de clássicos da literatura é inumerável, mas até uma revista em quadrinhos pode fazer bem). Faça alongamento. Se houver possibilidade, caminhe. Tente se distrair cozinhando. Em suma: estabeleça uma rotina que proporcione uma sensação de conforto mental. Uma frase atribuída a Winston Churchill diz: se você estiver atravessando o inferno, continue andando. A frase, no mais ótima, quase com certeza não é dele – mas a mensagem que transmite é poderosa e bastante válida.

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