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Claudio Moura Castro Por Claudio Moura Castro

Um ‘Walden’ revivido

O isolamento voluntário do século XXI é como o do século XIX?

Por Claudio Moura Castro Atualizado em 23 out 2020, 18h49 - Publicado em 23 out 2020, 06h00

Pouco tempo depois de escrever sobre Walden, o clássico livro de H.D. Thoreau, deparo no YouTube com um vídeo chamado My Self Reliance. Mais de dois séculos depois, volta à cena o mesmo enredo: o isolamento voluntário e uma vida mais próxima à natureza — temas de evidente atualidade. Como Thoreau, um canadense urbano resolve passar dois anos em um local desolado. Vai para o meio da floresta, entre rios e lagos. Lá fica sozinho, construindo uma cabana de troncos e reforçando o sustento com a caça e a pesca. Enfrenta dois invernos, bem mais frios do que em Walden. Dito assim, seria um Thoreau do século XXI. Quer distanciar-se dos barulhos e das correrias da civilização. Quer uma experiência contemplativa. Quer sentar-se à beira do riacho para desfrutar a paisagem.

Nem tudo, porém, é semelhante. Walden descreve uma vida suave, intimista, de mínimo consumo e pouco trabalho, de escassos confortos de meados do século XIX. O vídeo moderno não mostra um Homo contemplativus, mas um Homo faber. Ele constrói uma cabana de troncos grossos. É machado no pinheiro, desgalhar e descascar os troncos. E arduamente arrastá-los pelos caminhos. E tudo na correria, para ter um teto antes de nevar. Em seguida, faz os móveis, rústicos mas elegantes. Quando parece permitir-se o período contemplativo, começa a fazer uma segunda cabana, com iguais diligência e esforço. E não para na terceira… É uma determinação quase obsessiva de construir — até sauna! Que pulsão empurra essa pessoa, nem tão jovem, a um trabalho pesado e muito além do necessário?

“No final das contas, hoje, no YouTube, quanto mais longe da civilização, mais perto da celebridade”

Tempos mudados ou apenas são personalidades diferentes? Ou é a bizarria de temperamento do Homo norte-americanus? Sobreviverá, ao fim e ao cabo, com o que apenas a natureza oferecerá? Nem tanto, pois ele está bem abastecido com comida de cidade. Acima de tudo, é um consumidor ávido. Sem eletricidade, usa machados, enxó, facões, arco de pua e serrotes. Mas o resto do ferramental é moderno, vasto e de ótima qualidade. Sua cabana longínqua tem mais tralha do que a típica casa urbana brasileira. As canoas de fibra de vidro são levíssimas. Usa luvas especializadas para cada tarefa. Veste-se com “roupas técnicas” de Goretex.

Thoreau advogava usar um mesmo casacão, até se desintegrar. Domina magistralmente todas as tecnologias: carpintaria, metais, armas de fogo e arco e flechas. Materializa o ícone intensamente americano do homem completo, sabe tudo e faz tudo. Morando na sua cabana, Thoreau vendia umas batatinhas para comprar o pouco que lhe faltava. Walden veio bem depois, para proclamar a viabilidade de uma vida simples e frugal.

Em contraste, o homem do YouTube, o de hoje, negocia mercadorias associadas à sua aventura (afinal, é preciso pagar as contas). O esmero no vídeo atesta sua centralidade no projeto. No site, anuncia a venda de roupas e acessórios, desenvolvidos para essa empreitada. No final das contas, quanto mais longe da civilização, mais perto da celebridade ele estará. Nada a ver com Thoreau? Ou seria a versão atualizada para o século XXI daquele isolamento antigo? Eis a pergunta a que não consigo responder.

Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

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