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Claudio Moura Castro Por Claudio Moura Castro

Relendo Henry David Thoreau

Uma vida inspirada no isolamento do historiador americano

Por Claudio Moura Castro - Atualizado em 2 out 2020, 22h21 - Publicado em 2 out 2020, 06h00

O poeta e historiador americano Henry David Thoreau (1817-1862) nasceu e se criou em Concord, uma cidadezinha perto de Boston. Formou-se em Harvard, logo ali. Era um homem cultíssimo, criativo, inconformado e autor do icônico livro sobre desobediência civil. Em plena pandemia do novo coronavírus, como esquecer do Walden Pond, o laguinho que Thoreau escolheu para viver a experiência de isolar-se do mundo? Com materiais de demolição, ele mesmo construiu uma cabana rústica, de 15 metros quadrados (há hoje uma réplica exata no local). Lá morou por dois anos, em 1845 e 1846, enfrentando impávido os invernos da Nova Inglaterra. Tudo o que comia era plantado por ele mesmo. Queria demonstrar três teses ao fazer referência a Thoreau: (1) com uma vida despojada, pode-se sobreviver com o que se planta e colhe; (2) é muito melhor que a correria do cotidiano para ganhar dinheiro; e (3), o que interessa aqui, isolar-se faz bem à alma, atalho para fruir com mais intensidade o fluxo da vida.

Thoreau levou seus livros favoritos, escrevia, observava embevecido o desenrolar das estações, estudava os peixes e conhecia todos os pássaros. Para enfrentar o isolamento social, alguns podem inspirar-se nele. Modestamente, segui as suas pegadas, ficando nas montanhas em Minas Gerais, em local escassamente povoado, na companhia dos meus livros, meu computador e minhas panelas. Fotografo os pássaros e as plantinhas. Pelo ruído do motor, tento identificar os aviões que passam. Na minha oficina, brinco de marceneiro. Não deixa de ser um privilégio. Mas limpo a casa (nada romântico).

“Estudos mostram que o afastamento voluntário pode ser salutar — o involuntário, não”

Comparo minhas rotinas com as de Thoreau. Somos fiéis aos livros, mas ele escrevia com uma pena, eu no teclado. Porém, divergimos na culinária. Eu capricho na cozinha. Ele só comia o que tinha na horta (feijão e batatas). Uma vez por semana, vou às compras. Ele também ia à bodega, comprar o essencial. E fazia uma contabilidade rigorosa. Não queria despender mais do que ganhava vendendo sua produção. Nisso sou desleixado, mas suspeito gastar menos agora. Não há ninguém para fiscalizar as minhas rotinas. Mas me apego a elas. Não como sem a mesa posta, faço a cama, mantenho horários, equilibro lazer e trabalho. Por que eflúvios recônditos mantemos o dia organizado?

Thoreau não evitava o contato humano, não era um ermitão (e sua mãe costumava lavar sua roupa). Às vezes, visitava algum conhecido ou convidava para sua cabana quem ia pescar no lago (mas só oferecia água). Tampouco me isolo totalmente e, pelos meios digitais, cultivo um círculo de amigos e colegas.

Estudos recentes mostram que o isolamento voluntário pode ser salutar. Já o afastamento involuntário maltrata a saúde e a alma. Para Thoreau, foi a sua escolha. O meu começou involuntário, é óbvio. Mas tentei seguir sua linha. Decidi gostar dessa nova vida. E logrei desfrutar o lado bom de estar só. Sinto a vida fluir, com mais tempo para prestar atenção nas pequenas coisas. Acho que não voltarei totalmente ao estilo de antes. Cito um amigo, o pensador Roberto Brant: “Quem não é capaz de ficar só perde uma parte importante da alegria e tristeza de viver. Nem tudo no ser humano é para ser compartilhado”.

Publicado em VEJA de 7 de outubro de 2020, edição nº 2707

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