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Claudio Moura Castro Por Claudio Moura Castro

Diabruras da didática

Os professores precisam aprender seu ofício para poder ensinar

Por Claudio Moura Castro - Atualizado em 24 ago 2020, 11h55 - Publicado em 21 ago 2020, 06h00

Eis uma seleção de dúvidas inocentes, com respostas curiosas:

1. “Senta aí e estuda até aprender o ponto.” Sábio conselho? Péssimo! Aprendemos muito mais dedicando igual tempo a estudar um pouquinho hoje e outros pouquinhos amanhã e depois.

2. Um professor passou cinquenta exercícios de equações do 1º grau, depois cinquenta do 2º e mais cinquenta de exponenciais. Outro passou os mesmos 150, mas todos embaralhados. Qual está certo? Na prova, logo em seguida, o primeiro grupo obteve notas maiores. Em outra, porém, meses depois, o segundo grupo mostrou melhores resultados. Ou seja, misturando as questões o aprendizado é mais efetivo e dura mais.

3. Gastar bom tempo com matemática, depois com física, e assim por diante? Melhor que saltitar rapidamente entre as matérias, confundindo a cabeça do aluno? Curiosamente, intercalar os assuntos dá melhores resultados.

4. “Fiz anotações cuidadosas na aula, mas sumiu o papel.” Tudo perdido? Quase nada, pois o ganho vem do esforço de selecionar o que anotar. Consultar o papel, mais adiante, quase não ajuda.

5. Após uma pergunta, quanto tempo até os professores cobrarem a resposta? Um segundo depois. Se esperassem cinco, a resposta seria 300% melhor.

6. Provas frequentes subtraem o tempo de aula? Não, provas inteligentes são uma das melhores maneiras de fixar o conhecimento. É tempo ganho e não perdido.

“Em vez de formas práticas, inunda-se a cabeça dos futuros mestres com teorias intergalácticas”

Diabruras da didática! Alguns desses resultados são inesperados, outros parecem amalucados. Mas não são devaneios, estão confirmados por pesquisas sólidas. São os esplêndidos frutos da aplicação da ciência rigorosa à sala de aula. Conhecemos hoje a eficácia de dezenas de procedimentos e fórmulas de uso frequente nela. E estão sendo inventadas outras tantas, desconhecidas no passado. Em um país de ensino tão ruinzinho, utilizar esses resultados traria uma bela contribuição.

Os livros que sugerem essas regras estão por aí (muitos em português), e até eu escrevi um. Por que não são usados nas faculdades de educação? Por que, em vez de formas práticas de atuar em sala de aula, se inunda a cabeça dos futuros mestres com uma torrente de teorias intergalácticas? Pior, repete-se a dose nos cursos de reciclagem. Não são ideias erradas, mas não ajudam quando toca a campainha e começa a aula. Ensino bom requer professores bons. Eles não nascem sabendo. De fato, precisam que lhes seja ensinado o seu ofício.

Em meus contatos com professores, entendi que os mestres desejam ajudas práticas para facilitar e tornar mais eficazes as suas aulas. Os apaixonados pelas teorias complicadas são os doutores, encarregados da formação daqueles que militam em sala de aula. Em Tristes Trópicos, Lévi-Strauss fala de sua experiência em uma universidade brasileira, onde via todos enamorados de teorias da moda, abstratas e complicadas. Não se davam conta de que tudo começa entendendo o simples em profundidade. Será que hoje ainda seria verdade?

Publicado em VEJA de 26 de agosto de 2020, edição nº 2701

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