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Clarissa Oliveira Notas sobre política e economia. Análises, vídeos e informações exclusivas de bastidores

O destempero de Bolsonaro e a boca solta de Lula

Em nome da polarização, tanto o presidente quanto o petista fazem jogo duplo e agem para agradar a sua torcida mais fiel

Por Clarissa Oliveira Atualizado em 24 nov 2021, 08h48 - Publicado em 24 nov 2021, 08h22

Cada um se vende como pode, mas em termos eleitorais o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm muito em comum. Os dois precisam garantir que a polarização hoje expressa nas pesquisas de intenção de voto se mantenha e que nenhum dos nomes colocados como opção para a terceira via consiga prosperar. Para isso, fazem um jogo duplo. De um lado, moderam o discurso para tentar atrair o eleitorado de centro. Do outro, jogam para quem sempre os aplaudiu .

É nesse contexto que Bolsonaro, embora tenha baixado o tom das críticas ao Judiciário, dispara contra ministros do Supremo Tribunal Federal ou se refere a Lula de forma chula, como “o nove dedos”. É também nesse cenário que Lula trouxe de volta a proposta de regulamentação da mídia, por exemplo. Mas, de tempos em tempos, ambos exageram feio na dose. Lula errou de maneira absolutamente grosseira no cálculo ao comparar a permanência de Daniel Ortega no poder ao governo de Angela Merkel. Assim como Bolsonaro se embananou como nunca nos atos de 7 de setembro.

É curioso ver como aliados de ambos repetem as mesmas frases na hora de explicar esses escorregões. E em geral custam e muito a reconhecer o erro. “O Bolsonaro não é bobo, ele sabe exatamente o que faz.” “Se tem alguém que sabe fazer campanha é Lula, nada do que ele diz é aleatório.” É difícil imaginar que as pérolas saiam da boca de cada um deles de forma planejada. Mas basta conversar com aliados de ambos para esbarrar em um relato sobre alguém que sugeriu alguma coisa naquela linha em alguma reunião.

Em parte, isso se deve ao fato de que tanto Lula como Bolsonaro lidam com um problema que só tende a aumentar com o avanço da campanha: a divergência entre seus principais conselheiros políticos. Bolsonaro, como conta um interlocutor, ouve opiniões em pelo menos cinco cantos diferentes antes de tomar uma decisão: filhos, militares, líderes do Congresso, Paulo Guedes e redes sociais. “É por isso que o Guedes vira e mexe precisa recuar, ele combina uma coisa com o presidente, que fala com outra pessoa e muda de ideia”, resume o aliado.

Lula, por sua vez, lida com dois PTs bem distintos. De um lado, o “PT das antigas”, como conta um dirigente do partido. É aquele grupo que reúne nomes como Gilberto Carvalho, Luiz Dulci, Aloizio Mercadante, Paulo Okamotto, Franklin Martins, todos reincorporados ao recém-criado núcleo da pré-campanha petista. Do outro, estão nomes que uma década atrás nem sonhariam em ter espaço nessa mesa, como Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann.

Conselhos e palpites à parte, vale o pitaco dado pelo ex-presidente Michel Temer ao programa de estreia do Amarelas On Air. Ao comentar o fato de o presidente Jair Bolsonaro se aconselhar com seus filhos, o emedebista disse que é normal que muita gente tente dar palpite no governo. “Mas você tem que ter sua opinião própria.”

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