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Esquina: “Solução do trânsito é cobrar de quem usa o carro e estaciona na rua. O direito de ir e vir não é do automóvel”

Na última terça-feira, aconteceu o primeiro encontro do Esquina, série de conversas que vai até setembro no Conjunto Nacional, em São Paulo. Logo na estréia, um tema espinhoso: como melhorar São Paulo? Para responder a essa pergunta, os convidados Lourenço Gimenes, arquiteto e sócio do escritório FGMF, Fernando Serapião, crítico de arquitetura e editor da revista […]

Eduardo Vasconcellos (à dir.) fala ao público da Livraria Cultura no primeiro encontro do Esquina

Eduardo Vasconcellos (à dir.) fala ao público da Livraria Cultura no primeiro encontro do Esquina

Na última terça-feira, aconteceu o primeiro encontro do Esquina, série de conversas que vai até setembro no Conjunto Nacional, em São Paulo. Logo na estréia, um tema espinhoso: como melhorar São Paulo? Para responder a essa pergunta, os convidados Lourenço Gimenes, arquiteto e sócio do escritório FGMF, Fernando Serapião, crítico de arquitetura e editor da revista Monolito, e Eduardo Vasconcellos,  sociólogo, engenheiro e consultor da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), identificaram alguns dos pontos capazes de provocar mudanças na cidade.

O primeiro deles diz respeito à mobilidade. Para Vasconcellos, a única forma de melhorar os deslocamentos em São Paulo é reduzir o uso do automóvel. E a única forma de fazer isso é cobrar pelo uso. “Nos percursos de até 8 km, é mais barato usar o automóvel do que o ônibus. São 3,5 reais no ônibus contra 2,80 reais de combustível para o carro, uma máquina que ocupa 50 metros quadrados e costuma transportar apenas uma pessoa”, diz.

Para Vasconcellos, mesmo quando computado o gasto com IPVA, a despesa é irrisória. “Se dividirmos pelos dias do ano, veremos que muita gente paga apenas 50 centavos por dia”, afirma. Na Europa, taxas sobre a circulação do automóvel tornaram o uso do carro sete vezes mais caro do que o do sistema público, o que se refletiu numa queda de 30% de motoristas nas ruas. Permitir o estacionamento de graça no meio-fio de graça é outro erro. “Um milhão de carros param nas ruas paulistanas sem pagar nada. Se considerarmos todo o Brasil, há um espaço inerte usado como estacionamento que custou 600 bilhões de reais para ser construído”, diz. E conclui: “Quando falamos em cobrar mais, as pessoas não aceitam porque transferem o direito constitucional de ir e vir para o seu automóvel. O direito é da pessoa, não do automóvel. Temos de desconstruir essa ideologia e melhorar nossa qualidade de vida.”

Construir mais vias não resolveria o problema. Ele argumenta que a cidade com maior oferta de vias expressas da Via Láctea é Los Angeles, com seis faixas por sentido em centenas de quilômetros e bilhões de dólares investidos. Porém, a cada ano a Univerisidade do Texas faz um ranking das cidades mais congestionadas dos Estados Unidos e a vencedora é sempre Los Angeles. “O tamanho do automóvel é incompatível com a cidade”, afirma.

 

Da esq. para a dir.: Lourenço Gimenes, Fernando Serapião, Eduardo Vasconcellos e Eduardo Andrade de Carvalho

Da esq. para a dir.: Lourenço Gimenes, Fernando Serapião, Eduardo Vasconcellos e Eduardo Andrade de Carvalho

O custo de manter uma cidade gigantesca como São Paulo foi outro ponto da discussão. “É muito espraiada e muito pouco densa, não há dinheiro que pague essa infraestrutura”, afirma Fernando Serapião. Segundo ele, toda a população da cidade caberia num espaço de sete parques Ibirapuera se tivéssemos a mesma densidade do edifício Copan (1.160 apartamentos, com cerca de 5.000 moradores). Para tornar o espaço mais agradável, seria possível intercalar as torres com áreas verdes, totalizando dez Ibirapueras. “A cidade é o  lugar da nossa época, mas ainda temos em mente o interior da Inglaterra rural do século 16, queremos morar no campo com flores. O contraponto entre as virtudes que uma cidade tem e o desejo individual e hedonista de cada um de nós é o conflito que forma praticamente todas as cidades do mundo. E São Paulo não está fora desse jogo”, afirma.

Lourenço Gimenes destacou a dificuldade das ações de planejamento. “Profissões ligadas ao planejamento, sejam ligadas à engenharia, arquitetura, desenho urbano ou quaisquer outras disciplinas, são extremamente aviltadas do ponto de vista de valor, pertinência, relevância social e política. Precisamos aprender como sociedade a planejar melhor”, diz. Assim, segundo ele, a própria população exerce o papel de tomar as iniciativas transformadoras. “Para melhorar alguma coisa temos de ter ousadia e coragem. Precisamos de ativistas. A ousadia, a falta de medo de errar e a coragem inconsequente são fundamentais para transformar”. Para ele, a ambição que catacteriza São Paulo deve ser acionada para provocar essas mudanças. “São Paulo não é uma cidade resolvida e não se entende por resolvida. Existe essa fagulha”, diz.

Eduardo Vasconcellos acrescentou que o mesmo vale em relação ao carro. “O estado brasileiro virou sócio e refém da indústria automobilística, o que representa uma barreira estrutural fortíssima. A esquerda, que está no poder há doze anos, não mudou nada. Não há nenhuma força política que queira verdadeiramente mudar. Então tem de haver um esforço dentro da democracia, mas partindo da sociedade”.

Os encontros do Esquina são quinzenais, às terças, às 19h, na Livraria Cultura de Artes (bem em frente à principal), no Conjunto Nacional, em São Paulo. A participação é aberta ao público e gratuita. Para acompanhar a programação, é só curtir a página do Esquina no Facebook.

 

Serviço
Esquina: Conversas sobre Cidades e Arquitetura
De 7 de julho a 1º de setembro, às 19h
Livraria Cultura de Artes do Conjunto Nacional (em frente à principal), no 1º piso.
Avenida Paulista, 2.073. Tel.: (11) 3170-4033

 

E, no próximo encontro, Roberto Pompeu de Toledo:

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Por Mariana Barros

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