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Cidades sem Fronteiras Por Mariana Barros A cada mês, cinco milhões de pessoas trocam o campo pelo asfalto. Ao final do século seremos a única espécie totalmente urbana do planeta. Conheça aqui os desafios dessa histórica transformação.

Desfiles no sambódromo custam 53 vezes a despesa da folia de rua e revertem menos aos cofres públicos

Prefeitura gasta 43 milhões de reais em dois dias de Anhembi e 800.000 reais com a estrutura para os blocos

Por Mariana Barros Atualizado em 30 jul 2020, 23h34 - Publicado em 6 fev 2016, 11h45
Sabrina Sato no desfile da Gaviões da Fiel, ontem no Anhembi (Heitor Feitosa/ VEJA)

Sabrina Sato no desfile da Gaviões da Fiel, ontem no Anhembi (Heitor Feitosa/ VEJA)

No primeiro dia de desfiles no Sambódromo do Anhembi, o prefeito Fernando Haddad comparou o retorno financeiro que o blocos de rua trazem com o retorno das escolas de samba. São 400 milhões de reais no primeiro modelo e 250 milhões de reais no segundo. Além do retorno, existe a questão dos custos, o que torna a comparação ainda mais impressionante.

O Carnaval de rua é incomparavelmente mais barato que o do sambódromo. Neste ano, a festa dos blocos custará aos cofres públicos 800.000 reais. Outros 4,6 milhões são bancados pela patrocinadora oficial da folia de rua, a Amstel, marca de cerveja pertencente à Heineken Brasil. Os valores incluem todo o calendário da festa, que, além de ser gratuita para os foliões, se espalha por todas as regiões da cidade, das mais ricas às mais carentes.

Já para bancar para o espetáculo das escolas de samba a prefeitura libera 43 milhões de reais, cinquenta e três vezes a despesa da folia de rua. E quem quiser assistir precisa pagar caro. Os ingressos partem de 90 reais e podem chegar a 2.420 reais. Direitos de transmissão pela televisão e o patrocínio oficial para os desfiles são usados para bancar a LigaSP, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, que financia as escolas e mantém uma delicada relação com a administração municipal.

Já o modelo do Carnaval de rua é bem diferente — principalmente por ser descentralizado. A prefeitura oferece a infraestrutura de limpeza, desvios de rota nos bairros e banheiros químicos. E os blocos arcam com os próprios custos: carros de som, camisetas, instrumentos, seguranças particulares etc. Essas despesas são pagas por sistemas de cotas (espécie de vaquinha entre os foliões) e por patrocinadores que independem do patrocínio oficial da prefeitura. Concorrentes da Amstel, como a Skol, da Ambev, patrocinam alguns dos blocos.


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A secretaria municipal de Cultura exigiu que a Amstel pagasse pela montagem de palcos para shows na periferia e solicitou ainda um adicional de 300.000 reais para ser direcionados ao patrocínio de alguns blocos. A cervejaria e os blocos selecionados para receber o investimento fizeram os acordos diretamente. Coube a eles, assim como a todos os outros, se comprometerem a seguir a cartilha da prefeitura que determina as regras de exibição das marcas apoiadoras e cumprir horários e trajetos acordados. Ambulantes credenciados e cadastrados e usam coletes com o logotipo da Amstel, mas não são obrigados a vender a marca com exclusividade — podem também oferecer as concorrentes.

Abadás são proibidos em São Paulo, uma vez que o decreto que estabelece as regras do Carnaval de rua determina que não se pode cobrar pela participação. Em Salvador, onde os cordões e os abadás são tradicionais, as vendas de ingressos para entrar a folia de rua vem apresentando queda, superada pela procura por camarotes VIPs instalados ao longo dos circuitos.

No Brasil todo, festas mais baratas e democráticas devem ganhar impulso nos próximos anos. São reflexo de uma mudança cultural já em curso mas também de algo nada alegre, a gravidade da crise econômica.


Por Mariana Barros

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