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Augusto Nunes

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Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Sua Excelência, a Folia

A batida do tambor é a marca do tempo que move uma navegação sem rumo, que começa a correr e avançar sobre a avenida da ilusão como se não houvesse amanhã

Por Heraldo Palmeira
9 mar 2019, 16h00 • Atualizado em 30 jul 2020, 19h55
  • Heraldo Palmeira

    De novo fevereiro. Que este ano caiu em março, cujo primeiro dia realmente útil será quase no meio do mês. Uma segunda-feira, caricata como toda segunda-feira que promete ser dia de começos e recomeços. Data em que, espera-se, já tenham ocorrido todos os gritos e cortejos de Carnaval pós-Carnaval. Quando, acredita-se, as pessoas vão enfim voltar à normalidade cotidiana, ao trabalho, às infelicidades costumeiras – aquelas que a folia promete dissipar, mas vira jura que só dura o tempo de a fantasia rasgar.

    Tenho a sorte de assistir a muita coisa do alto, de um décimo quarto andar que se debruça sobre um dos polos do frevo da cidade. E desço para o chão da festa quando dá vontade – e ela vem todo dia, implacável –, para encontrar amigos, ser feliz, festejar o que já veio e o que a gente pensa que ainda vem.

    Antes de tudo, a cada dia, pouco depois do almoço, a penitência de aturar a tal “passagem de som”. Sempre incômoda, repetitiva, enfadonha. Apenas o retrato da incompetência dos nossos técnicos de som, embora se achem os semideuses da festa!

    Afinal, ao fim e ao cabo, depois de infindáveis “buuum, puum, tum, tum, tááá, tssss” da bateria, escalas e arpejos sem qualquer sentido de baixo, de guitarra – que jamais serão utilizados em qualquer das músicas que serão tocadas logo mais –, chega a vez dos cantores, precedidos por aquele “oi, oi, sssom, sssom, êi, êi, um, dois, três… mil…” numa altura infernal. Deveriam ir todos à pqp.

    Esses “profissionais” passam as tardes azucrinando a paciência de quem está ao redor e, na hora dos shows, o som é sempre aquela coisa horrorosa: não se ouve cada instrumento como seria justo aos músicos, as vozes dos cantores sempre estão enterradas na barafunda sonora e predominam os graves exagerados que brotam dos subwoofers. Paredes vibram, ouvidos sofrem e tudo cai no ralo de um lugar comum: desaprendemos a gostar da beleza do som.

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    Isso tudo passado a limpo e tirados os noves fora, nada, e depois que a autoridade de plantão entrega a chave da cidade a alguém que nunca se propôs a ser fechadura, o primeiro apito anuncia a música intensa, chama para o começo do jogo da sedução, da ilusão de que tudo será bom, de que tudo é possível e permitido, de que a gente quer e vai se acabar de felicidade.

    A primeira batida do tambor é a marca do tempo que move uma navegação sem rumo, que começa a correr e avançar sobre a avenida da ilusão como se não houvesse amanhã. Onde tudo vira a maior das brincadeiras, na troça ou à vera.

    O coração que havia disparado em busca do próprio ritmo bate agora no compasso que a gente não escolhe. Ou entra nele ou sobra, ou vira massa ou não serve para a manobra. Um grande cordão que se mexe de um lado para o outro nos pontos cardeais da folia, imprecisos como tudo que tira o Norte, os pés do chão, como tudo que alucina.

    A música agora é apenas um bum bum paticumbum prugurundum de tambores e pés batendo, uma energia tribal empurrando para um êxtase animado a muitas coisas, pensamentos e palavras, atos e omissões. Sem culpa ou máxima culpa. Na base do cada um por si e Deus por todos.

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    Embarcar nessa viagem significa ir deixando para trás, a cada passo na folia, as lembranças de um samba ensaiado o ano inteiro para um solo que não haverá, os retalhos de cetim que restarão imprestáveis e vão cansar de correr ao sabor do vento de um lado para outro, sobre o piso que parecia palco para todas as fantasias. Até serem recolhidos pelos garis.

    Já serão lixo, não mais estarão enfeitando o chão da praça que recebeu todos aqueles pés que deram passos em falso o ano inteiro, a vida toda e acreditam de novo no milagre que não se completa, porque a terça-feira gorda sempre acaba e amanhece em cinzas, na tristeza da quarta-feira que convida à conversão, a uma mudança de vida, abrindo uma Quaresma inteira para quem resolver se penitenciar numa vida de jejuns além dos muitos que já são cotidianos. Coisas da fé. E segue o cortejo.

    Vai chegando aquele momento que a gente não quer que chegue – talvez porque já se sabe, de antemão, que alegria é coisa que dá e passa: a hora dolorosa de desconectar a folia do coração e o coração da folia que se esvai.

    Apreensiva
    A presa lasciva
    A presa da vida
    É riso da vida
    Eis lá rei davi
    Ei-la rei da vida
    Ela ri da vida

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    Samba, suor e cerveja embaralham corpos em estado de torpor atravessando os dias do reinado de sua excelência, a folia. Um jogo de cartas marcadas ou de arriscar a sorte para quem aposta alto tudo, acreditando no vermelho 27 da roleta da alegria. O risco do risco.

    Faz parte do jogo tirar uma carta da manga, atirar um olhar de lança na dança de quem poderia ser amor. Ser um beduíno com olhar de mercador, caça se achando caçador. Ou sentir saudade aguda dos olhos tentadores que nunca verão o desejo brotado numa fração de segundo.

    Você pode fazer quase tudo
    Contanto que você possua
    mas não seja possuído
    Você pode comer quase tudo
    Contanto que deixe um pouquinho
    um pouquinho de fome
    Você pode beber quase tudo
    Contanto que deixe um pouquinho
    um pouquinho pro santo

    Não custa ter esperança, ouvir a voz do coração, acreditar no amor de arlequins, pierrôs e colombinas, não chorar a lágrima doída dos palhaços, não borrar a maquiagem. Tentar a proteção de máscaras, perucas e adornos que criam as outras faces que nos livram de encarar a vida face a face por um hiato de alegria.

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    São as trapaças da sorte
    São as graças da paixão
    Uma certeza me nasce
    E abole todo o meu zelo
    Quando me vi face a face
    Fitava o meu pesadelo
    Estava cego o apelo
    Estava solto o impasse
    No meio daquela zorra
    Perdendo no desempate
    Girando feito piorra
    Até que a mágoa escorra
    Até que a raiva desate

    O Carnaval não tem apito final, estrila apenas um silvo temporário que interrompe a festa até o ano que vem. Como uma onda de maré que se molda ao ritmo das quatro estações do ano. Que era furor e virou calmaria até voltar a ser furor. Sorte haver a lua, há quem garanta que ela regula as marés e inspira sonhos.

    Daqui de cima revejo, agora em silêncio e vazia, a mesma rua que era multidão. Mais uma Quarta-Feira de Cinzas modorrenta, apenas cães vadios têm ânimo para farejar alguma sobra de qualquer coisa que ficou.

    Está aberta oficialmente aquela parte chata do ano entre o Carnaval e o Natal – que traz o ano-novo, as férias de verão. E o próximo Carnaval. Onde tudo começa de novo.

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    Quanto riso, oh, quanta alegria!
    Mais de mil palhaços no salão
    Arlequim está chorando
    Pelo amor da Colombina
    No meio da multidão
    Foi bom te ver outra vez
    Tá fazendo um ano
    Foi no Carnaval que passou
    Eu sou aquele Pierrô
    Que te abraçou e te beijou, meu amor
    Na mesma máscara negra
    Que esconde o teu rosto
    Eu quero matar a saudade
    Vou beijar-te agora
    Não me leve a mal
    Hoje é Carnaval

    É preciso zelar aquele beijo. Seguir sem o som do tambor – até ele precisa de repouso. Encontrar o ritmo sem música. Guardar o que sobrou da fantasia que deixou tudo lindo, sedutor como os amores de Carnaval que explodem, seguem tortuosos e morrem dentro do tríduo. E, às vezes, quase com crueldade, nunca param de desfilar na saudade mais bem guardada, mais querida, seguem atormentando o coração por uma vida inteira.

    É como um sonho, uma reza
    Um ato de solidão
    A energia dos doidos
    Motor da imaginação
    Não me peça que eu mate
    O moleque que mora comigo
    Ele é feito de barro
    É meu lado bandido
    É meu lado palhaço
    É meu lado doído
    E o palhaço quem é?

     

    Trechos de:
    Carnaval (Horácio Paiva)
    O mal é o que sai da boca do homem (Pepeu Gomes-Baby Consuelo)
    Face a face (Sueli Costa-Cacaso)
    Leque moleque (Alceu Valença-Carlos Fernando)
    Máscara negra (Zé Keti-Pereira Mattos)

    Inspirações incidentais:
    Bum bum paticumbum prugurundum (Beto Sem Braço-Aluísio Machado)
    Retalhos de cetim (Benito di Paula)
    Chão da Praça (Moraes Moreira-Fausto Nilo)
    Samba, suor e cerveja (Caetano Veloso)

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