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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Que tonto!

Aécio, com seus 51 milhões de votos em 2014, chegou na bica da Presidência, mas, até onde a vista alcança, não terá uma segunda chance

Por Roberto Pompeu de Toledo Atualizado em 30 jul 2020, 20h29 - Publicado em 27 abr 2018, 07h16

Roberto Pompeu de Toledo (publicado na edição impressa de VEJA)

O Solar dos Neves, em São João del Rei, é o que se pode ter de mais próximo à nobreza em país novo e republicano como o Brasil. O bonito sobrado oitocentista, dando sem recuo para a calçada, caiado de branco e com profusão de janelas pintadas de verde nas molduras, fica no largo do Rosário, a dois passos da igreja do mesmo nome. No extremo oposto da rua fica a igreja do Carmo e no meio a do Pilar, matriz da cidade. Junto ao Solar dos Neves fica o Solar dos Lustosa, onde viveu, informa a placa, o inventor da cera para dor de dente que leva o nome da família. As igrejas, o casario, as pedras da rua e os vetustos nomes de família compõem um conjunto que embute uma ideia de eternidade. De 1957 até sua morte, em 1985, Tancredo Neves teve no solar do largo do Rosário a residência onde passava os períodos de recolhimento no torrão natal. Hoje é usado por seu neto Aécio Neves da Cunha.

O presidente que nunca o foi mantinha comportamento pessoal digno da nobreza de sua cidade e do solar familiar. O jornalista Elio Gaspari gosta de lembrar do episódio em que Tancredo se arrepiou ao ouvir de um parceiro, ao sair num grupo: “Vocês vêm comigo, e o resto no outro carro”. Corrigiu-o: “O resto não. Os demais…”. Para sua sensibilidade, “o resto”, aplicado a seres humanos, era insulto. Imagine-se o que diria se ouvisse as falas do neto no hoje célebre diálogo com Joesley “Friboi” Batista. “Esses vazamentos, essa po… toda, é uma ilegalidade (…) Temos dois caras frágeis prá cá… nessa história, que é o Eunício Oliveira, presidente da Câmara, e o Rodrigo Maia, presidente do Senado (…) O ministro da Justiça é um bos… do ca… (…) Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação (…) Isso vai me dar uma ajuda do ca…”

Nas primeiras linhas tratava-se de estancar a sangria da Lava Jato. Nas duas últimas combinava-se a entrega dos R$ 2 milhões pedidos ao empresário. Na terça-feira passada o Supremo Tribunal Federal aceitou denúncias contra Aécio por obstrução de Justiça e corrupção passiva. Também foram acolhidas as denúncias, por corrupção, contra sua irmã Andrea e contra o primo Fred. Aécio e Andrea eram os netos queridos de Tancredo; os dois cedo se envolveram em política e trabalharam com o avô. Andrea protagonizou, aos 22 anos, um episódio em que desempenhou generoso papel. Chegou tarde para o famoso show de Chico Buarque no Riocentro, em 1981, e viu na entrada um homem ferido que pedia ajuda. Um táxi tinha se recusado a aceitá-lo. Andrea colocou-o em seu carro, todo desnorteado e sangrando, e levou-o ao hospital. O homem seria identificado como o capitão William Machado, um dos dois militares-terroristas que pretendiam levar pânico ao show e acabaram atingindo a si mesmos.

Aécio, com seus 51 milhões de votos, chegou na bica da Presidência, como o avô. O avô, falhando-lhe a tentativa, saiu sem possibilidade de tentar outra vez, pela razão que se sabe. O neto saiu com cacife que lhe favoreceria a segunda chance em condições vantajosas. Até onde a vista alcança, não a terá. Dissipou-a nos descaminhos, pontilhados de um trambique aqui e outro ali, que os políticos vão percorrendo em paralelo às carreiras, conforme prova a Operação Lava Jato. A cronista Cora Rónai, comentando como Sérgio Cabral dissipou a sua, concluiu: “Que bobo!”. Aécio é mais um tonto para a lista.

Do outro lado do córrego do Lenheiro, que corta São João del Rei, fica a mais bonita igreja da cidade, a de São Francisco. A fachada, ladeada por torres arredondadas, apresenta entalhes de pedra do Aleijadinho em torno da porta, das janelas “boca de peixe” e do frontão. Nos fundos fica o pequeno e, vá lá, acolhedor cemitério em que estão enterrados, em túmulos gêmeos, de granito negro, Tancredo e a mulher, Risoleta. No de Tancredo está escrito, “Tancredo Neves, presidente eleito do Brasil, 1910-1985”, e logo abaixo: “Terra amada minha, tu terás meus ossos, o que será a última identificação do meu ser com este rincão abençoado. Tancredo Neves”. No de Risoleta aparecem os anos 1917-2003. Não consta que na terça-feira os túmulos se tenham rachado, ao impacto de mortos a se revirar dentro deles. Túmulos são feitos para proteger os habitantes dos ruídos, das vilanias e da estupidez de gente de fora. Melhor assim.

    Que é mais Terceiro Mundo, ter ex-presidente preso ou mantê-lo condenado e solto? A França pode vir em nosso socorro. Vamos lá, franceses, prendam o Sarkozy.

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