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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Os vivos e os mortos, de Sandro Vaia

SANDRO VAIA Aprendi a amar o futebol quando tinha 9 anos e minha família morava em La Paz, na Bolívia. Morávamos num hotel onde se hospedavam toureiros, vedetes de teatro e delegações de times de futebol estrangeiros. Um dia eu estava passeando na sala de refeições do hotel, na hora do almoço, e um grupo […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 03h30 - Publicado em 12 jul 2014, 10h01

SANDRO VAIA

Aprendi a amar o futebol quando tinha 9 anos e minha família morava em La Paz, na Bolívia.

Morávamos num hotel onde se hospedavam toureiros, vedetes de teatro e delegações de times de futebol estrangeiros.

Um dia eu estava passeando na sala de refeições do hotel, na hora do almoço, e um grupo de jogadores fazia uma grande algazarra.

Um argentino loiro, magro, ar debochado, pedia ao garçom, em altos brados, uma porção de “uve bleeeeenque” (uva branca) de sobremesa. Depois olhou pra mim e falou:

– Ché, pibe, te gusta el balón ? Vamos al partido.

O nome do argentino era Alfredo Di Stefano. O time era o do Milionários de Bogotá, uma espécie de Globetrotters do futebol, que fazia parte de uma liga pirata criada no começo dos anos 50.

Além de Di Stefano, jogavam no time, entre outros, estrelas argentinas da época, como Pedernera e Nestor Rossi.

Me levaram ao estádio, como uma espécie de mascote; vi o time do Milionários, que jogava todo de branco como o Real Madrid (onde Di Stefano acabaria sendo ídolo, artilheiro e até vice-presidente, até morrer na quinta-feira passada) e como o Santos dos tempos de Pelé, esmagando o campeão local, o Bolívar, por 5 a 0.

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Com ou sem Milionários, nunca mais deixei a arquibancada.

Torci pelo The Strongest em La Paz e aqui desembarquei palmeirense.

O Brasil ainda vivia o trauma do Maracanazo, ouvi os jogos da Copa de 54 pelos alto falantes da praça principal de Jundiaí e a de 58 pela voz de narradores distantes que falavam de Nacka Sckoglund, o jogador sueco, como se fosse uma divindade viking criada na tropa de Hagar, o Horrível.

Era julho, o Brasil ganhou sua primeira copa, da qual só vimos alguns lances esparsos em filmes desbotados muitos anos depois, o céu se encheu de balões de uma forma hoje inimaginável e consolidou-se aí uma longa história de amor e de convivência com o futebol.

Eu já sabia desde os 9 anos aquilo que Galvão Bueno só descobriu e proclamou depois da hecatombe dos 7 a 1 da Alemanha, que o futebol era apenas um esporte – não uma religião, nem um modo de vida, nem o substituto do patriotismo. Um lindo e emocionante esporte, nada mais do que isso.

Sempre soube, mesmo palmeirense, que Felipão era um tosco animador de auditório mais do que um técnico ou um estrategista talentoso. Sempre levei tomatadas por isso.

Sempre soube que esporte não se mistura com política, mesmo que ditadores como Médici e Videla tenham feito isso.

Sempre entendi a hipocrisia dos políticos que dizem que o futebol não se mistura com política quando a mistura não é muito rentável, mas são os primeiros a misturá-la quando as coisas começam a ficar promissoras como fontes de votos.

Muita coisa morreu esta semana além de Di Stefano: uma escola de futebol alegre, artístico e criativo engessada no burocratismo, e a hipocrisia dos políticos que querem apossar-se das glórias que não conquistaram e que querem livrar-se das hecatombes que construíram.

Publicado originalmente no Blog do Noblat em 11 de julho de 2014.

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