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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Lula quer esperar num palanque o embarque para Curitiba

Os devotos de Lula hastearam a bandeira das diretas-já em obediência ao chefão que morre de medo de cadeia

Por Augusto Nunes 24 Maio 2017, 15h06

Num Brasil convulsionado pela crise agravada pelas denúncias dos irmãos Batista, torna-se ainda mais pedagógico recordar as turbulências que esquentaram o fim do inverno de 1961, desencadeadas pela renúncia de Jânio Quadros na tarde de 25 de agosto. Se o Brasil fosse menos primitivo, teria substituído o presidente que acabara de renunciar pelo vice João Goulart, como determinava a Constituição. O respeito às regras democráticas bastaria para reduzir a fuga de Jânio a mais uma prova de que o eleitorado brasileiro frequentemente se apaixona por estadistas de galinheiro. A manobra política concebida por um populista doidão  só ganhou contornos dramáticos porque o veto dos três ministros militares à posse de Jango estimulou a imaginação cretina de deputados e senadores.

Em sete dias, Deus fez o mundo. Também em sete dias, o Congresso brasileiro contentou-se em fazer o Brasil parlamentarista, inaugurado em 2 de setembro de 1961. Deu no que deu. Meses depois, um plebiscito ressuscitou o presidencialismo e, em 1964, Jango foi deposto por golpistas convencidos de que no Brasil, como havia reiterado a aventura parlamentarista, a Constituição existe para ser violada. Passados mais de 50 anos daquele agosto, a agonia política de Michel Temer atesta que não cessaram os surtos de inventividade imbecil. A Constituição determina que, caso se consuma o afastamento de Temer, seu sucessor será escolhido pelo Congresso no prazo de 30 dias. Os netos dos golpistas de 61 preferem exigir aos berros a eleição direta do novo presidente.

Felizmente, a bancada dos insensatos hoje sofre de raquitismo. No século passado, os parteiros do parlamentarismo de araque produziram um monstrengo condenado a morrer já no berçário porque tinham medo dos militares. Os defensores das diretas-já declararam guerra às normas constitucionais em obediência ao chefe que morre de medo da cadeia. Se o réu da Lava Jato ouvisse nesta semana aquelas batidas na porta às seis da manhã, pousaria em Curitiba um delinquente sem profissão definida. Se a vigarice inconstitucional for vitoriosa, será anexado à população carcerária um candidato em campanha. Nesse caso, Lula ficaria mais à vontade para usar a fantasia de perseguido político — até chegar a hora de trocá-la pelo uniforme de preso comum.

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