Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Eleições, algumas notas

O antipetismo de conteúdo, representado por um projeto de governo claro para a recuperação do país, foi rejeitado nas urnas e rejeitado está

Por Valentina de Botas Atualizado em 30 jul 2020, 20h16 - Publicado em 10 out 2018, 17h15

Valentina de Botas

1 ─ A confirmação de uma expectativa, por óbvio, não é surpreendente. Contudo, pode ser chocante e é chocante não a confirmação do antipetismo ─ fenômeno mais do que natural e só surpreende pela tardia maturidade ─, mas a confirmação da escolha da maioria do eleitorado pelo antipetismo oco, rupestre mesmo, tendo à disposição candidatos honestos (até que se prove o contrário) e gestores competentes (pelos menos três provados). Diante da escolha, apesar de legítima como qualquer outra, do país em ficar entre os dois piores candidatos que disputavam a eleição, constata-se que a tardança do fruto antipetista em florescer pode tê-lo feito apodrecer no pé e deu no que está dando: um antipetismo que se esgota em si, que não projeta o que será feito do país livre do petismo. Não penso em Fernando Haddad quando afirmo isso porque o projeto de governo do PT é claro ─ trata-se tão somente da destruição do Brasil, de o PT terminar o serviço interrompido pelo impeachment ─ e Jair Bolsonaro só perde esta eleição se quiser. Portanto, quando falo em antipetismo oco me refiro ao governo de Bolsonaro.

2 ─ Fernando Haddad é o representante do gangsterismo de Estado e tem uma possibilidade, por mínima que seja, de presidir o país. Ah, mas ele é poste, preposto, cavalo, não tem vergonha de se submeter a isso. É? E um país que dá a essa súcia a possibilidade ainda que mínima de presidir o país tem?

3 ─ O antipetismo de conteúdo, representado por um projeto de governo claro para a recuperação do país, foi rejeitado nas urnas e rejeitado está. Eis um fato a respeito do qual quem, como eu, torcia pelo triunfo da soma de competência com integridade de caráter só resta aceitar. Gostando ou não, entendendo ou não, com ou sem choque. E qual era esse antipetismo de conteúdo, Valentina? Geraldo Alckmin. Agora quem ficou chocado foi você, não, caro leitor? Sei dos erros de campanha tão exaustivamente destacados por certo jornalismo, os defeitos do PSDB, etc. Eu poderia higienizar e relativizar cada um deles como fez para Bolsonaro a sua máquina dominante nas redes sociais, no YouTube e em outros canais de interlocução com o eleitor que mudaram o modo de fazer campanha eleitoral no país. Mas poupo a mim e ao eleitor desse exercício inútil agora. Talvez numa reflexão futura. A hora é de olhar para a frente, é lá que o passado nos espera depois de abduzir o futuro. O PSDB, partido que modernizou o país depois da redemocratização, e Geraldo Alckmin, um dos melhores gestores do país, são história. Ao menos como os conhecíamos até este 7 de outubro.

4 ─ O país se livraria de fato do petismo se somasse a tal libertação, por exemplo, uma ideia do que fazer com a bomba fiscal, com o desemprego, as reformas, ou até mesmo com a segurança pública, cartão de visitas de Jair Bolsonaro, o coroado antipetista que não explicitou o que pretende fazer se eleito. Lembrar esse fato é, evidentemente, estar do lado do PT, não dos fatos. Fatos, no Brasil de extremos tornado a sepultura da racionalidade, têm lado. Pois o Brasil virou isto: ou é Fla ou é Flu; se você simplesmente exerce o direito de escolha que a Constituição lhe dá e escolhe não escolher entre dois primitivismos, ah, meu caro leitor, você é um canalha isentão; mas se você escolher Fla ou Flu, será apenas canalha para cada um dos polos.

5 ─ Não acho que Haddad ou Bolsonaro transformariam o Brasil numa ditadura comunista-de-esquerda-gay-anticristã ou numa ditadura machista-nazicristã-hétero-nacionalista. Ambos só conseguem representar o atraso intelectual, a mediocridade política e a truculência moral que nos mantêm no passado incessante, longe do século XXI. Depois de uma campanha de circo e porrada, em que o debate do essencial foi truncado pela estratégia bem-sucedida de Bolsonaro e Mourão de excretarem falas absurdas sobre parcelas da população para a discussão de falsas questões. Torço para que Bolsonaro perceba que unir para governar tornará menos indomável o desafio do presidente eleito e que, desde já, ele amenize as falas, civilize a retórica, pois uma figura pública também se faz no discurso. Isso nada tem a ver com perder a assertividade ou a convicção, ao contrário, o provável presidente dirigir-se ao conjunto dos brasileiros com respeito o faz respeitável e confere autoridade. Só impõe medo quem não inspira respeito. Receio que a visão raquítica de Estado, governo, democracia, poder e sociedade de Bolsonaro e seu despreparo o impeçam de compreender isso. Escrevo este texto em Brasília, onde estive por dois dias e me lembrei do poema A Flor e a Náusea. Estamos exaustos das divisões que demonizam a diversidade, nauseados com as ofensas que substituem argumentos, irritados com a patrulha que de mão única de esquerda passou a ser de mão dupla em certa direita copiando e aprimorando a brutalidade que condenava na esquerda. De dentro da esperança suja de estar enganada nos meus receios, cito de cabeça a última estrofe para encerrar estas notas. Me perdoe o leitor as imprecisões da memória que se funde à imaginação:

“Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Continua após a publicidade
Publicidade