Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Editorial do Estadão: O povo como problema

Eis aí, para os espíritos autoritários, o “problema” das verdadeiras democracias: o povo, quando é livre, tem vontade própria

Sempre que o Foro de São Paulo se reúne, recende de seus salões o ranço característico da esquerda autoritária latino-americana. Abundam palavras de ordem contra o “imperialismo americano” e invectivas contra o “neoliberalismo”, como se a guerra fria não tivesse terminado. No encontro, todos os problemas enfrentados pelos governos e partidos esquerdistas da região costumam ser atribuídos aos Estados Unidos, a representação do mal absoluto no discurso desses liberticidas. Na edição deste ano, realizada em Havana, não foi diferente: até mesmo a prisão de Lula da Silva foi caracterizada como parte da “guerra de caráter não convencional” que, segundo o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, os americanos deflagraram contra os “líderes progressistas” do continente.

“Exigimos a liberdade imediata de Lula, depois de uma condenação e prisão sem provas, e o direito a ser candidato presidencial nas eleições de outubro no Brasil, respeitando a vontade da maioria do povo brasileiro. Lula livre! Lula inocente! Lula presidente!”, diz a declaração final da 24.ª reunião anual do Foro de São Paulo – que, é claro, denuncia a “ofensiva reacionária, conservadora e restauradora neoliberal” capitaneada pelos Estados Unidos.

Em seu discurso, o ditador Maduro – que liquidou a oposição em seu país, encarcerou e exilou os dissidentes e reprimiu duramente todo tipo de manifestação contra seu governo, responsável pela penúria venezuelana – caracterizou o Brasil como um regime de exceção. Maduro disse ver o “martírio de Lula com dor, mas não com resignação”, denunciando que seu companheiro petista foi “escondido numa masmorra” para “impedir sua ação política”, porque “sabem que Lula livre ganhará a eleição presidencial no Brasil”. E acrescentou: “Basta!”.

Enquanto estão preocupados com a qualidade da democracia no Brasil, onde a imprensa é livre e as instituições funcionam, o Foro de São Paulo e seus ciosos delegados de partidos de esquerda entendem que a “Nicarágua sandinista”, por exemplo, é uma democracia plena – embora seu ditador, Daniel Ortega, tenha manobrado para se perpetuar no poder e mandado reprimir duramente manifestações contra seu governo, resultando, até agora, em mais de 350 mortos. Segundo o Foro, a Nicarágua de Ortega está sendo vítima da “política intervencionista” dos Estados Unidos, e os manifestantes estariam a serviço de “golpistas” teleguiados pelos americanos.

É evidente que, no léxico do Foro de São Paulo, a palavra “democracia” perde seu sentido estrito, servindo para designar unicamente regimes e partidos autoritários da América Latina que se pretendem legítimos porque julgam expressar a vontade do “povo”. Se o povo não concorda com a interpretação desses seus alegados porta-vozes, pior para o povo. Que o digam os presos políticos de Cuba, governada pela mais longeva ditadura do mundo, anfitriã do encontro “democrático” e “progressista” do Foro de São Paulo.

É em nome desse “povo” que o “campo progressista” latino-americano insiste na libertação de Lula, como se o suposto desejo popular expresso em pesquisas de intenção de voto para presidente fosse mais que suficiente para anular o julgamento que condenou o chefão petista à cadeia. Pouco importam os fatos, as provas e as sentenças de diversos juízes.

No delírio lulopetista, o sistema judicial brasileiro está tão eivado de golpistas que, segundo disse o ex-ministro Gilberto Carvalho a um site do MST, “só há uma forma de tirar Lula da cadeia”: um “levante popular, uma mobilização muito forte, uma radicalização do processo, seja de que forma for, que faça com que eles sintam que está ameaçada a estabilidade do País, e aí, por uma razão de força maior, libertem o Lula”.

O próprio Carvalho, contudo, reconhece que não será tarefa fácil, pois nem sempre o povo está suficientemente esclarecido para defender o PT. Ao comentar a dificuldade de mobilização, o amigão de Lula lamentou: “O povo faltou. O povo faltou no impeachment, o povo faltou na prisão de Lula”. Eis aí, para os espíritos autoritários, o “problema” das verdadeiras democracias: o povo, quando é livre, tem vontade própria.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. jose norberto monteiro

    Não esqueçam, sem re-eleição para ninguém, pé na bunda dos politicos profissionais.

    Curtir

  2. Sonia Fausta Tavares Monteiro

    O povo faltou a todos esses eventos macabros, promovidos pela seita petista, porque aprendeu a enxergar com olhos de quem vê, e não mais aceita enganação de aproveitadores, travestidos de defensores dos pobres! Aquele povo que foi traido e pisoteado por 13 anos, só existe em muito pequena escala, e está aprendendo a se defender dos espertalhões que se aboletam nos poderes com o único objetivo de se dar bem! Portanto, se Lula está preso, isto acontece pelo fato de ter sido investigado, julgado, e condenado a 12 anos, por enquanto, de cadeia, passando por todas as instâncias judiciais , que confirmaram a sentença, por comprovados crimes de corrupção e lavagem de dinheiro! Pois é… bem diferente de outros países da América Latina, que encarceram, e sem julgamento, aqueles que contrariam idéias ditatoriais que emanam de governos de seus países! Portanto, felizmente no Brasil, e apesar de tudo, as instituições ainda funcionam!

    Curtir

  3. alfredo lucio saback soares de quadros

    realmente é necessário que entendam que a estabilidade do país já está ameaçada, não em função da devida prisão do maior criminoso deste país em todos os tempos, mas sim pelos reais golpistas que tentam manipular as mentes incapazes e dá-lo como um inocente preso político, tendo juízes , inclusive da mais alta corte, tentando ilegalmente liberta-lo.
    contra esta já vigente ameaça ao Brasil, só há um poder para impedi-la enquanto há tempo: as forças armadas.
    os antigos apêndices de convicção do falso pt, que exerciam por vontade própria a defesa dele; os ptcopatas ( como o fui de 81 à 02 ) acordaram e entenderam que foram enganados.

    Curtir

  4. silvio teixeira filho

    A maior piada dos últimos tempos Nicolás Maduro disse que os americanos deflagraram contra os lideres PROGRESSISTAS DO CONTINENTE. A Venezuela está melhorando a situação do seu povo humilde,? NÃO , os que estão abandonando o País são os mais carentes, os ricos estão firmes, querendo ainda mais do trabalhador venezuelano.

    Curtir

  5. Quando li esse Editorial no Estadão, pensei em recomendá-lo ao blog. Nem foi preciso. Interessante é que já é a 24a reunião. Consta que a fundação ocorreu em 1990, provavelmente como uma forma de manter ativo o movimento comunista internacional nas Américas, diante da iminente desintegração da União Soviética em 1991. Era também um caminho para dar sobrevivência ao regime kubano, que já vinha entregue à própria sorte. Não por coincidência, a União Europeia foi criada um pouco depois, em 1993, como contraponto à recém-conquistada hegemonia americana. E assim “a causa” se manteve viva, enquanto a China galopava na globalização inventando o capitalismo de estado, e a Rússia se rekuperava da sua catastrófica aventura comunista pelas mãos do Kzar formado pela KGB. Em 2013, quando a internet começou a produzir fumaça, muita gente sequer sabia da existência dessa Hidra vermelha kucaracha. Quando alguém alertava para a existência do “Foro de São Paulo” e seus objetivos, era rebatido como propagador de “teoria conspiratória”. Aos poucos os fatos prevaleceram e boa parte das vítimas potenciais percebeu o perigo que esse movimento representa para a liberdade dos povos participantes. Os venezuelanos, infelizmente, já estavam dominados.

    Curtir