Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Deonísio da Silva: Em tempo de murici, cada um cuida de si

O arbusto sempre florido e depois carregado de frutos, mesmo na pior seca, tendo inspirado o povo a criar o dito que expressa a dureza da vida sertaneja

 (/)

Esta frase é muito conhecida dos brasileiros de boas leituras e especialmente dos nordestinos. A expressão foi registrada por ninguém menos do que Euclides de Cunha no seu livro famoso Os Sertões, referência solar de nossas letras.

Quem ainda não o leu, que não se considere completamente alfabetizado, adverte o jornalista Augusto Nunes, filho de professora e conhecido cultor de bons autores e respectivos livros, em palestras a universitários de jornalismo e áreas de domínio conexo, ao indicar bons caminhos para melhorar a escrita.

O engenheiro, jornalista e escritor Euclides da Cunha registrou o provérbio, já então conhecido dos nordestinos, quando pronunciado pelo coronel Pedro Nunes Tamarindo, que o proferiu para renunciar à sucessão do coronel Antônio Moreira César, chefe da expedição de Canudos, morto no celebérrimo confronto entre o Exército Brasileiro e os pobres liderados por Antônio Conselheiro, entre 1896 e 1897,  no interior da Bahia.

Tão logo os jagunços emboscaram e mataram o comandante Moreira César, o militar que deveria assumir o comando da tropa declinou do cargo honroso e fugiu apavorado, recorrendo à metáfora da frutinha do muricizeiro. Em tempo de murici, cada um cuida de si, repetiu Pedro Nunes Tamarindo, cujo sobrenome também é nome de fruta. Tamarindo veio do Árabe tamr hindi , tâmara da Índia.

O arbusto frutífero permanece sempre bonito, florido e depois carregado de frutos, mesmo na pior seca, tendo inspirado o povo a criar o dito que expressa a dureza da vida sertaneja. Quando apenas a frutinha murici sobrevive, é tempo de cada um cuidar de si,  uma vez que, se só sobrou o murici, a coisa está feia. Quem se inspira no murici, não o faz por egoísmo, mas por necessidade, como o sapo, que pula por precisão, não por boniteza, como lembrou outro grande escritor, o mineiro João Guimarães Rosa, que, aliás, mostrou também que poucas pessoas inteligentes têm a sabedoria de um burro como o burrinho pedrês.

Moreira César se considerava muito esperto. Em Florianópolis, mandou executar centenas de pessoas, depois de ter prometido anistia aos revoltosos, se depusessem as armas. Eles se entregaram e ele mandou enforcar a todos na Fortaleza de Anhatomirim, em Florianópolis (SC), por ocasião da Revolução Federalista (1893-1895).

Entre os rebeldes estava o médico baiano Alfredo Paulo de Freitas, que servia na então Ilha do Desterro com a patente de major, quando Moreira César recebeu a esposa do militar. A mãe angustiada se fazia acompanhar de um filho do casal.

Moreira César era cínico, frio e calculista, tão como seu chefe máximo, o marechal Floriano Peixoto, que acabou por dar nome à Ilha, cujo nome bonito e triste, “Ilha do Desterro”, foi substituído por Florianópolis, cidade de Floriano (Peixoto), segundo os compostos gregos que vieram parar no Português. Na ocasião, ele tomou a criança no colo e disse: “Papai está bem longe, mas voltará logo”. Como, se ele já tinha mandado matar o pai da criança?

O indigitado pai só voltaria logo se o Juízo Final se desse brevemente, mas este só aconteceu para Moreira César, que sofreu justiça pelas linhas tortas do destino, no conflito seguinte, em Canudos (BA). E assim os jagunços de Antônio Conselheiro, movidos por um líder messiânico e carismático, acabaram por vingar os catarinenses.

Em Santa Catarina não havia murici para cada um cuidar de si.

Confira aqui outros textos de Deonísio da Silva

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Robson La Luna Di Cola

    A Proclamação da República foi a maior desgraça que aconteceu na história do Brasil. A partir dali, uma desgraça atrás da outra…

    Curtir

  2. Adilson Nagamine

    Que Brasil você vai deixar para seus netos? 26 de Março! Todo mundo na rua! Não faça do microondas uma arma. Adilson Nagamine

    Curtir