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‘Dose dupla de dilmismo’, editorial do Estadão

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA No mesmo dia, quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff deu duas provas de que acredita irrestritamente no que costuma dizer aos seus subordinados: “Eu sou a presidenta, eu posso”. De um lado, ela mandou fazer, ou autorizou, uma gambiarra para preservar a redução das tarifas de energia – a “bondade” com […]

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

No mesmo dia, quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff deu duas provas de que acredita irrestritamente no que costuma dizer aos seus subordinados: “Eu sou a presidenta, eu posso”. De um lado, ela mandou fazer, ou autorizou, uma gambiarra para preservar a redução das tarifas de energia – a “bondade” com que inaugurou, em janeiro, a sua campanha à reeleição. De outro, solidarizou-se com a direção da Caixa Econômica Federal (CEF), responsável pela barbeiragem que levou ao pânico os beneficiários do Bolsa Família, que acharam que o programa estava para ser extinto.

Na véspera do duplo espetáculo de dilmismo explícito, erros primários de articulação política, pelos quais o Planalto só tem a si para culpar, tolheram a aprovação da medida provisória (MP) das contas de luz, cuja validade expira na próxima segunda-feira. Combinando soberba e irresponsabilidade, o governo desdenhou da recente promessa do presidente do Senado, Renan Calheiros, de que só poria em votação as MPs que a Câmara dos Deputados remetesse à Casa pelo menos sete dias antes de caducarem.

Por isso, a MP das tarifas de energia, a 605, teria de ser aprovada na Câmara até a última segunda-feira. A descoordenação entre as ministras responsáveis pela interlocução com o Congresso – Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e Ideli Salvatti, das Relações Institucionais – impediu que o cronograma fosse cumprido. Tarde daquela noite, por falta de quórum, o presidente da Câmara, Henrique Alves, encerrou a sessão. Ele comentaria: “Precisamos entender por que, de 420 deputados da base aliada, o governo não consegue colocar 257 em uma sessão decisiva”. A aprovação se deu na terça.

Calheiros, por sua vez, foi ainda mais contundente ao rebater a acusação governista de que teria sido inflexível. “As pessoas próximas da presidente”, apontou, “precisam ter um pouco (de consciência) da dimensão do funcionamento das instituições.” A primeira autoridade a não tê-la é a própria Dilma. No afã de salvar a redução das contas de luz, e tendo em vista que uma medida provisória não convertida em lei não pode ser reapresentada no mesmo ano, a finada MP será enxertada em outra, a 609, que desonera a cesta básica.

O contrabando é um escândalo – idêntico ao dos políticos que enfiam em MPs emendas alheias ao seu assunto para servir a suas clientelas. Ao mesmo tempo, a presidente convocou o ministro da Educação, ex-senador Aloizio Mercadante, para dar um jeito na desastrosa interação do Planalto com o Congresso. Faz sentido: com a educação no melhor dos mundos possíveis, o ministro tem tempo de sobra para se desincumbir de todos os encargos adicionais que a sua chefe resolver transferir-lhe.

Já em relação ao vexame do Bolsa Família, a presidente que se acha todo-poderosa imitou o seu patrono Lula, que não se cansava de afagar membros do seu governo e políticos aliados suspeitos de malfeitorias. Diante dos fortes indícios de que os boatos sobre o fim do programa não foram fabricados para desgastar o governo, mas com toda a probabilidade surgiram por combustão espontânea – depois que, sem aviso prévio, a Caixa Econômica liberou de uma só tacada todos os pagamentos do mês de maio -, Dilma saiu em defesa da cúpula da instituição, até agora incapaz de se explicar ao País.

Em nota, a presidente desmentiu que pretendesse mexer na sua diretoria, “formada por técnicos íntegros e comprometidos com as diretrizes da CEF, com seus clientes e com os beneficiários de programas tão importantes para o Brasil como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida”. Pode ser. Mas, estranhamente, um vice-presidente do banco disse que os recursos foram liberados quando começou a corrida às agências. A liberação se deu na véspera. Pior ainda, o presidente da Caixa, Jorge Hereda, esperou uma semana para falar a verdade. E, quando falou, saiu-se com uma explicação inverossímil para a origem do problema.

É uma história mal contada do começo ao fim, com tintas de acobertamento de uma derrapagem. Melhor teria feito a presidente se deixasse para se manifestar mais adiante.

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  1. Comentado por:

    Marco Felix

    Triste mas é o nosso Brasil. Mercadante? aquelo do Miojo?

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  2. Comentado por:

    Popeye

    Esse governo é uma nau sem rumo, cada vez mais perigosamente se aproximando dos rochedos.

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  3. Comentado por:

    Oliver

    É AMARELO, O BANANA.
    Ao longo do tempo em que encontrei e me encontrei neste nobre espaço de contendas capitaneado por um dos maiores expoentes do jornalismo brasileiro, pude perceber uma curiosa curva de conscientização ao longo do processo. É como se disséssemos: – “As bananas são amarelas”, enquanto uma parte significativa da patuleia acreditava que eram azuis. “Essas são azuis”, bradavam os mais convictos, acreditando que as bananas sempre foram amarelas até o país ser refundado por um bando de vigaristas. Pior. Eu diria que as bananas de hoje são tão amarelas como todas as outras, inclusive aquelas que um dia se apresentaram como azuis, na ânsia de conquistar um eleitorado amarelecido, que continua pisando nos votos, distraído. Me indispus com muitos, cujas bananas amarelas pareciam bem azuis, até prova em contrário. Sempre defendi uma lógica simples por aqui; os ladrões estão certos. Estão no papel de ladrões que sempre foram. O que não está certo por aqui são as “puliça”. Travestidas de uma tal de “oposição”, que de oposição não tem nada, insistem em parecer o que não são; amigos da confraria, civilizados senhores cujo discursinho bambo não chega até a esquina do eleitorado ávido por um contraponto nessa mixórdia em que se transformou nossa política. Ao longo do tempo fomos vendo cair os Demóstenes, os Afifes, os Kassabes e outros tantos pilantras cuja verdadeira pilantragem foi se disfarçarem do que nunca foram; políticos honestos e bananas exóticas. Alguns destes pilantras até levaram meu voto, na ânsia vagabunda de frear a força das novas bananas políticas deste cenário nacional turvo. Algo que não vou repetir em minha vida. A esquerda já deu, ampliando o conceito defendido pelo Coronel, lá do Coturno. Que me desculpem os potenciais eleitores do novo banana que acaba de se apresentar candidato, mas esse discursinho bafú já não é o bastante para me convencer. Que todas essas bananas são amarelas, disso eu já sei. Não preciso de horário eleitoral gratuito para me convencer disso. Também não anulo o meu voto, pois isso é o que querem os democratas de araque que ora fustigam esta nossa democracia perneta. Hoje meu voto vai para construir um discurso de direita; qualquer um. Se é para votar num banana, quero um que não mude de cor pelo caminho. Que se danem os índios fajutos, os esmolados das bolsas-miséria sem as calças de 300 contos na cintura, os defensores do xixi no banho e toda a corja de politicamente corretos, tapas-nas-panteras, defensores de véspera da mão grande em nossas liberdades individuais, exterminadores de sacolinhas plásticas e fadas escondidas em cremes anti-rugas. Já chega dessa bananada. Vivi pra ver o maior golpe que pode sofrer uma democracia. Um bovinismo estúpido e crédulo. Um país encostado num barranco sem vergonha, coalhado de oportunistas cujo discurso raso não se firma nas duas patas traseiras. Vivi pra ver um velha me odiar, mesmo eu sendo forçado a pagar as contas da vigarista contra a minha vontade. Vivi pra ver um presidente picareta e boquirroto me acusar de ser o culpado pela crise, por ter olhos azuis pregados na cara, tais quais os de meu filho menor. É um vigarista. Enquanto ordenhava a galera ávida por uma mortadela pública, era ordenhado pela amante inescrupulosa, contratada para dar algum prazer sado-masô na vidinha besta deste cretino fundamental. Vivi pra ver sua banana ir enegrecendo lentamente. Um podre. Aboletado numa seita igualmente podre. E cercada ( a seita ) por um bando de oportunistas, cuja ideia é sempre se servir da carniça que sobra, como os abutres. Vade Retro. Olhe bem para a sua banana, caro eleitor. De que cor será a bananada que você vai fazer, na próxima escolha ?
    Vou publicar na Feira Livre, grande Oliver. Abração.

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  4. Comentado por:

    Oliver

    A OUTRA SUÍÇA
    Temos aqui um país exótico. Mergulhado na latrino-américa, é o único da região que mantém uma Suíça encrustada numa Zâmbia. Antes que os patrulheiros das causas estúpidas venham me acusar de bairrismo, sugiro uma visita à Venezuela. Levem papel higiênico na bagagem. E estômago para o que vão ver. Tenho amigos fugindo de lá que me contam as atrocidades cotidianas que sofrem os poucos honestos que ainda restam dessa predação a que foram submetidos. Amigos que perderam os pais, mortos por milícias vagabundas alimentadas por este discurso que inflama o bom senso. Amigos que tiveram que fugir de lá com a roupa do corpo, enquanto ardia em chamas o patrimônio de uma vida inteira de trabalho honesto. Amigos perseguidos, simplesmente por exercitarem o bom senso e o direito de discordar. Não pensem vocês que aqui é muito diferente não. O Foro de São Paulo é o mesmo. As instituições neutralizadas as mesmas. A justiça torta é a mesma. A oposição daqui é ainda muito pior que a de lá, inclusive. A única coisa que muda é o tamanho do elefante. Muito mais pesado de derrubar por aqui, leva mais tempo e exige mais esforço, o que não passa despercebido pela civilização pensante e distraída. Estamos à deriva, meus caros. Não pensem vocês que com essa “oposição” toda certinha a gente chega em algum lugar menos pilantra. É compreensível. Disse-me uma vez um amigo que é mais fácil uma tendência em New York encontrar eco em Sampa que seguir de ônibus da capital paulista em direção a Campinas. Que me desculpem os campineiros. Não é preconceito nenhum. É claro que lá, como aqui, existe a Suíça e a Zâmbia, pretensamente irmanadas. A escala é que muda. A urbanidade paulistana elevou o nível do confronto para uma disputa regional. Um geografismo. Impossibilitados de encontrar os “3%” para fustigá-los um a um, a seita pilantra recorre às suas Dercys de plantão para odiar genericamente a classe média pagante dessa farsa. Sabem que o buraco é mais embaixo, mas deixam claro que os inimigos somos nós e que o coice será a ferramenta de trabalho. Inimigos que somos de um projeto torpe de poder cuja lógica é rasteira e vagabunda como seus professores e professadores mais barulhentos. Estamos sitiados pela barbárie alimentada pelo poder público. No campo, nas instituições, na educação. Lentamente estrangulados por um projeto de poder vigarista cuja intenção é mais do que clara; não vê quem não quer. Privilegiados pela sinergia urbana, acobertados pela impessoalidade da multidão, disseminados pela mídias digitais cujo ódio da patuléia é latente, vamos nos aguentando enquanto podemos. Não temos representantes na classe política atual. Estão todos irmanados na missão de ocuparem as moitas para ninguém usá-las para necessidades fisiológicas outras que não sejam as dessa esquerda filha da luta. A hidra tem muitas cabeças. Pensam os esquerdinhas mais lustrosos que a plebe um dia irá prestigiá-los por latirem pouco e morderem no silêncio. Querem herdar a massa falida, os abutres. Pode até ser. Não vou estar aqui para conferir, podem ter certeza disto. Tal como os poucos venezuelanos que ainda restam e resistem em sua terra natal, meu medo nem é o enfrentamento com esse bando de pilantras, caindo de podres em suas ideologias mancas. Meu medo é sim o preço a pagar para reconstruir um país pilhado pela vigarice crônica e recorrente. Deitado em berço nada esplêndido pelos encostados na teta pública, que se recusam a trabalhar. Sobrepesado pelos “benefício” que se arrastam e se disseminam pela patuléia ignorante. Não pensem vocês que não há uma linha direta entre “este ano o bicho vai pegar” e a morte de um adolescente em troca de um celular. Entre o “vale fazer o diabo” para se eleger e o álcool jogado num dentista indefeso. É uma senha. Um “podem queimar que a gente não prende”. Um “podem barbarizar que a gente está qui para fingir que não vê.” É método. Tudo é válido para desestabilizar psicologicamente o pouco que ainda resta de nossa sociedade acuada. Há um ponto em que toda a boa vontade do mundo não recupera a civilidade perdida, meus caros. Chegamos na barbárie subsidiada. Nos meios justificando os fins. Nos cinco meses que perdemos alimentando o paquiderme ignorante e assaltante de cofres diversos que finge nos governar. Essa gente não serve nem pra adubo, meus caros leitores. E o prejuízo que nos causam já bateu no fundo de suas underwares, hehehe. Vão indo que eu não vou. Nessa kombi eu não embarco nem se me oferecerem a passagem de brinde. Meus olhos azuis de “inimigo da pátria de ferraduras” ainda enxerga. Vagabundos.

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  5. Comentado por:

    Oliver

    RUY E ROBERTO.
    Muito obrigado, mestre !!! Ocupado com minhas malas, não tive tempo para as devidas condolências, na semana passada. Perdemos dois grandes democratas, não é mesmo ? Espero, do fundo do meu coração, que a perda nos una, e não nos disperse. Que sejam luz, e não mais trevas para uma sociedade já tão manca em sua ignorância conformada. Que Ruy e Roberto se encontrem no paraíso dos grandes. E que a viola afiada de ambos não silencie nunca. Abração, amigo. Grato de novo, por dar voz a um destemperado como eu.

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