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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

‘Casca de banana’, um artigo de Roberto Pompeu de Toledo

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA ROBERTO POMPEU DE TOLEDO O realismo fantástico, na literatura, já deu o que tinha de dar. Na vida real, insiste em não desgrudar do continente latino-americano. Tome-se o que ocorre neste momento na Venezuela. Para além das controvérsias constitucionais e políticas, as questões centrais, para os atuais detentores do […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 31 jul 2020, 07h05 - Publicado em 14 jan 2013, 12h17

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

O realismo fantástico, na literatura, já deu o que tinha de dar. Na vida real, insiste em não desgrudar do continente latino-americano. Tome-se o que ocorre neste momento na Venezuela. Para além das controvérsias constitucionais e políticas, as questões centrais, para os atuais detentores do poder, são: (1) como propiciar as melhores condições para que o país seja considerado sob as rédeas de um presidente gravemente doente, hospitalizado e talvez respirando por aparelhos; (2) no limite, e dando-se uma das evoluções prováveis do caso, como criar as condições para que o país seja governado por um morto. O primeiro passo para solucionar tais desafios foi tomado na semana passada. Resolveu-se que o presidente Hugo Chávez não precisava tomar posse do novo mandato na data prevista. Ou seja, revogou-se o calendário. O poder político apropriou-se do tempo, no supremo afã de comandá-lo ─ afinal, é de tempo que se trata quando se depara com questões como doença, invalidez, incapacitação e morte.

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A situação do momento já é de si fantástica ─ a um presidente doente, hospitalizado, talvez entubado, e além disso invisível e num país estrangeiro, ainda se pretende incumbir os destinos do país. Mais ainda pode ficar se tal estado de coisas perdura por quatro meses, seis, um ano, e o país continua pendurado na sorte do enfermo. Não se subestime, no entanto, a possibilidade de mesmo doente mantê-lo politicamente ativo e mesmo morto fazê-lo vivo. Na Argentina conseguiram. Perón, como se sabe, vive; Evita também vive; e, mais recentemente, Néstor, na contramão dos imperativos biológicos, também vive. Fora da política, Gardel não só vive como canta cada vez melhor. Na tradição hispânica, El Cid Campeador, depois de morto no campo de batalha, teve o corpo grudado no cavalo e assim continuou a liderar os seus e a espantar os inimigos com a fama de mais valente e mais temível dos guerreiros.

Em dois outros episódios recentes, fez-se igualmente valer a infiltração do fantástico na realidade do continente. Pouco antes de ser apeado da Presidência no Paraguai, o bispo Fernando Lugo viu-se assaltado por uma súbita floração de filhos, filhos que não acabavam mais, de diferentes mães. O fenômeno contribuiu para acelerar-lhe a derrocada. Em Honduras, também deposto e expulso do país, Manuel Zelaya voltou secretamente e ─ surpresa – asilou-se numa embaixada. Até ali, refugiar-se em embaixada era recurso para sair do país, não para entrar. Ao praticá-lo pelo avesso, Zelaya entrou nos anais mundiais. O Brasil talvez possua um tantinho a menos de tendência ao inacreditável. Pelo menos, não a tem tão realçada em sua literatura. Não possui menos tendência às trapalhadas, no entanto, e foi assim que adotou o mesmo procedimento, no caso paraguaio como no hondurenho: deixou seu lado da calçada, atravessou a rua e foi pisar na casca de banana do outro lado.

No caso paraguaio, engajou-se num movimento de solidariedade a Lugo no qual o menos interessado parecia o próprio bispo, tão conformado este se mostrou, desde a primeira hora, talvez até aliviado por se ver desobrigado das atribuições presidenciais. A empreitada do Brasil, secundada pela Argentina, levou crise ao Mercosul e abriu nova ferida nas sempre delicadas relações com o Paraguai. No caso de Honduras, tal foi o empenho do Brasil, como no caso anterior, no esforço de solidarizar-se com o deposto, que Zelaya escolheu a embaixada brasileira para asilar-se. Lá se arranchou, e suas dependências viraram lugar de pouso e pasto do deposto, da parentela e de um punhado de seguidores. Por longos quatro meses, os hóspedes disputaram com os diplomatas os banheiros, instalaram camas onde havia mesas de trabalho, gastaram a água, o gás e a luz pagos pelo sofrido povo brasileiro, emperraram a rotina dos serviços e criaram uma situação de constrangimento tanto maior quanto não apontava para fim que não fosse inglório.

O caso da Venezuela oferece novo ensejo ao compulsivo ativismo brasileiro nas questões continentais. Há duas semanas, o governo enviou a Cuba o assessor Marco Aurélio Garcia, com a missão de avaliar o estado de saúde de Chávez. É preciso cuidado: Garcia tem sido, em casos semelhantes, uma espécie de enviado especial à casca de banana. Nada de comprometedor resultou dessa primeira iniciativa. O alerta deve ser mantido, porém. O fantástico está à espreita, o caso promete ser longo, e não faltarão oportunidades de atravessar para o outro lado da rua.

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