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Alon Feuerwerker Por Alon Feuerwerker
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A tempestade quase perfeita

A aparente falta de cuidado potencializou fragilidades latentes

Por Alon Feuerwerker - Atualizado em 22 mar 2020, 14h22 - Publicado em 20 mar 2020, 06h00

A equação política e econômica do governo Jair Bolsonaro estava bem desenhada no plano inicial. O Congresso aprovaria as reformas liberais, no ritmo que fosse. A economia reagiria, mesmo num passo não espetacular. O ministro da Justiça colocaria seu capital popular a serviço do projeto bolsonarista. O presidente nesse meio tempo alimentaria politicamente sua base dia após dia rumo a 2022. E a esquerda continuaria ilhada, pelo menos em curto e médio prazos.

E a coisa vinha vindo.

Mesmo os percalços — todo governo tem — pareciam insuficientes para um desarranjo. O PIB de 2019 decepcionou, nada que não pudesse ser deixado para trás com uma dose de esperança no futuro e advertências sobre o risco de repetir fracassos recentes. O presidente romper com o próprio partido e ficar sem nenhum para chamar de seu era pouco, perto da simpatia de um Legislativo amplamente liberal-conservador pelo programa econômico.

Aí veio a pandemia do coronavírus. O imprevisível é mesmo muito difícil de prever.

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Entre janeiro e fevereiro, já era possível antever a onda da crise sanitária. Foi avisado, mas talvez não se sensibilizou. E transbordou em março. E somou-se à pendenga do Executivo com o Legislativo por causa do Orçamento impositivo. E juntou-se à guerra do governo contra a imprensa. É notável, aliás, como o governo consegue brigar com dois atores, Congresso e imprensa, amplamente dispostos a apoiar as principais agendas do Planalto na política econômica.

Os políticos, porém, ainda preferem enfrentar um Bolsonaro manco em 2022 a entronizar Mourão

Aí o presidente da República decidiu dar mais importância à ameaça de recessão que às preocupações do cidadão e da cidadã com a própria saúde.

Na crise de 2008/2009, Luiz Inácio Lula da Silva disse que ela chegaria aqui como uma marolinha. Não foi bem assim. O crescimento em 2009 foi menos zero vírgula qualquer coisa. Mas 2010 foi robusto, e Lula conseguiu eleger a sucessora. Naquela crise o tema era a economia. Lula podia pedir ao eleitor um tempo. Aguentem aí que vai melhorar. E tinha capital político para tanto. A conta veio depois, deu em junho de 2013, mas isso já é outra história.

Agora o assunto é a saúde. Não adianta dizer “outras doenças matam mais que o coronavírus”, a notícia do momento é a Covid-19. As pessoas estão muito preocupadas com a ameaça à própria vida e à dos entes queridos. Só se fala nisso. E a aparente falta de cuidado do governo em sintonizar-se com a preocupação do distinto público potencializou as fragilidades que vinham latentes, e juntou-se tudo numa tempestade quase perfeita.

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Só não é a tempestade perfeita contra o governo Bolsonaro porque não há desejo relevante no mundo político de trocar o capitão pelo general que é seu vice. Nas várias franjas da política, prefere-se enfrentar um Bolsonaro manco em 2022 a entronizar agora Hamilton Mourão e dar a ele o passaporte para um “bolsonarismo sem Bolsonaro”, de viés racional e equilibrado. Mas tudo tem um limite, e na tempestade alguém tem de assumir o leme do barco.

Não existe espaço vazio na política. E isso não chega a ser uma novidade.

Publicado em VEJA de 25 de março de 2020, edição nº 2679

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