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A Origem dos Bytes Por Filipe Vilicic Crônicas do mundo tecnológico e ultraconectado de hoje. Por Filipe Vilicic, autor de 'O Clube dos Youtubers' e de 'O Clique de 1 Bilhão de Dólares'.

Como o Twitter virou palco principal das tensões entre EUA e Irã

A rede se transformou num novo telefone vermelho – aquele que ligava URSS aos EUA? Teve papel na escalada de violência, mas também nas negociações por paz

Por Filipe Vilicic - Atualizado em 9 jan 2020, 13h18 - Publicado em 9 jan 2020, 13h08

Fidípides, conta-se, foi o primeiro a correr uma maratona. No ano de 490 a.C., o herói grego atuava como mensageiro, soldado e diplomata ao mesmo tempo. Uma das versões da lenda afirma que, primeiro, percorreu ao menos 200 quilômetros, entre Atenas e Esparta, para pedir auxílio espartano na iminente guerra contra os persas. Na sequência, e sempre em velocidade máxima, zarpou para o campo do combate. Após os gregos vencerem a Batalha de Maratona, contudo, houve temor de que os persas fugidos iriam com seus barcos em direção a Atenas, em manobra de vingança. Fidípides voltou a correr, agora os famosos 42 quilômetros da maratona olímpica, para avisar atenienses. Por seu sucesso, Atenas pôde se preparar e repelir o império de Darius I. Todavia, exausto, o herói corredor morreu logo após entregar sua derradeira mensagem.

No passado, assim se fazia diplomacia: correndo de um lado para o outro. O método evoluiu. Vieram os cavalos, os navios, os carros, os aviões, os telegramas, os telefonemas. No século XXI, é a vez do Twitter. A rede social, em que passarinhos azuis virtuais transmitem curtas mensagens de forma praticamente instantânea, é o palco de uma das negociações mais tensas da história contemporânea: a troca de farpas, com agressões e recuos, de Donald Trump com Javad Zarif, o ministro de Relações Exteriores do Irã.

Em 1962, ao longo da crise dos mísseis em Cuba, ainda era demorado, difícil, promover a comunicação entre nações. Diplomatas preferiam registrar tudo por escrito, pois falas podem ser interpretadas de forma errônea. Assim demorou, como exemplo, em torno de 12 horas para a embaixada estadunidense em Moscou decodificar uma mensagem de apenas cinco páginas da União Soviética. Ao longo das negociações, surgiram outros momentos assim. Quando representantes soviéticos tinham de enviar cartas a Washington, por exemplo, confiavam em um ciclista. Sim, num ciclista. A ele cabia pedalar até a Casa Branca para lá deixar recadinhos de Nikita Khrushchev.

O problema de comunicação foi notado pelo líder russo. Quando decretou o acordo final, o de paz, com os Estados Unidos, Khrushchev realizou anúncio na rádio, para que Kennedy logo ouvisse a nota oficial da União Soviética. Depois de todo esse vaivém é que os comunistas propuseram a criação do famoso telefone vermelho, como linha direta de contato entre os dois lados da Guerra Fria.

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Nos últimos dias, o Twitter se candidatou, de forma involuntária, a se tornar um remodelado telefone vermelho. Foi por lá que se acompanhou a tensão entre Estados Unidos e Irã. Na rede social, Trump chegou até a insinuar que cometeria um crime de guerra: atacar regiões de valor cultural e religioso para iranianos. No site, Javad Zarif respondia de imediato às manobras do presidente estadunidense. Após a morte do general Qasem Soleimani, prometia vingança.

A história continuou a se consolidar pelo Twitter. Por lá circulavam os boatos mais quentes, a exemplo da carta que o comandante das forças dos EUA no Iraque teria entregue a líderes locais, prometendo a retirada de suas tropas. Também avisos, a exemplo da notificação que impedia aviões comerciais estadunidenses de sobrevoar aquela região do Oriente, por questões de segurança.

Assim como o Twitter se tornou palco para celebrar tapas uns nos outros, foi nele que se promoveram recuos, supostamente em busca de firmar paz – não se sabe se temporária. Talvez devemos à rede social o rápido içar de bandeiras brancas. As tensões não chegaram nem próximo da intensidade da crise dos mísseis de Cuba.

O iraniano Javad Zarif não se demorou a tuitar, após o bombardeio de bases dos EUA na região: “O Irã tomou e concluiu medidas proporcionais de autodefesa sob o Artigo 51 da ONU (…) Não procuramos a escalada da guerra, mas nos defenderemos contra agressões”. Trump logo se posicionou, novamente em sua principal plataforma, o Twitter: “Tudo está bem! Mísseis disparados pelo Irã em duas bases militares localizadas no Iraque. Avaliação de mortes e danos sendo feita. Até agora, tudo bem!”.

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Presenciamos um momento que certamente entra para a história. De uma era na qual ações diplomáticas são tomadas de forma pública, em tempo real, aos olhos de todos, na vitrine das redes sociais.

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O Twitter abriu, sim, portas para escancarar faces cruéis, assustadoras, da humanidade – alimenta ódio, raiva, preconceitos, inclusive os espalhados em perfis de políticos tuiteiros como Trump e Bolsonaro. Todavia, também se consagra não só como campo de ação para multidões que pressionaram todos os lados – EUA, Irã, ou mesmo no caso daqueles que pediam a Bolsonaro para não jogar o Brasil no meio das discussões bélicas –, como para as respostas dos líderes pressionados. Para a sorte de todos, por enquanto: “Até agora, tudo bem!”.

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