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A Origem dos Bytes Por Filipe Vilicic Crônicas do mundo tecnológico e ultraconectado de hoje. Por Filipe Vilicic, autor de 'O Clube dos Youtubers' e de 'O Clique de 1 Bilhão de Dólares'.

Como o ambiente de Facebook, Twitter e afins alimenta os radicais

E o que isso tem a ver, por exemplo, com os incidentes (bem off-line) de Charlottesville, da professora agredida em SC etc.

Por Filipe Vilicic - 24 ago 2017, 17h45

“Eu pensava que quando todos pudessem falar livremente e trocar informações e ideias, o mundo iria automaticamente se tornar um lugar melhor. Eu estava errado. A internet está quebrada. E agora é muito mais óbvio, para muito mais pessoas, que está quebrada”.

O comentário acima poderia vir de qualquer ser pensante que navegasse pelo Twitter com certa frequência. Já seria uma verdade. Contudo, o peso é ainda maior. A constatação é de Evan Williams. Nada menos que um dos fundadores, e ex-CEO, do Twitter. Também é dele a criação do Blogger, o mais importante sistema de desenvolvimento de blogs, depois vendido ao Google.

Ao fazer o Blogger e o Twitter, Williams acreditava que mudaria o mundo ao dar voz a todos. Hoje, 18 anos após o início do Blogger e, 11, de Twitter, ele desacredita de suas antigas ideias. Como, convenhamos, é a situação da maioria daqueles que, assim como ele, botavam tanta fé na internet.

Por quê? Pois tanto a rede social que ele criou, quanto todas as outras, se tornaram vitrines para radicais. Sendo ainda mais direto: para estúpidos, de todas as sortes. Soa cada vez mais atual o que Umberto Eco falava sobre as redes sociais, de elas serem plataformas para “uma legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

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São esses imbecis que dão força a outros imbecis, mas no mundo real. Imbecis como os supremacistas brancos que espalharam ódio em Charlottesville (EUA). Liderados por outro imbecil, Christopher Cantwell. Esse um imbecil que se articulou e ganhou seguidores na esfera digital. Por meio de sites como A Voice for Men (Uma Voz para os Homens), uma página machista que condena mulheres – em especial, as feministas. Ou, depois, por páginas de radicais de direita, a exemplo do Some Garbage Podcast e o Radical Agenda. Por esses, Cantwell ganhou fama por seus vídeos, como os publicados no YouTube. Numa das últimas gravações, ele chora ao saber que está sendo procurado pela polícia americana.

Como surgem imbecis como ele no mundo on-line com consequentes estragos no off-line? Uma pesquisa do Georgia Insititute of Technology apontou que, dentre aqueles que discutem política no Facebook, 70% não aceitam conversar com quem tem opinião distinta. Pior: 60% simplesmente ignora qualquer post que não tenha a função de tão-somente certificar o que a pessoa já pensa sobre o mundo. Esse tipo de comportamento acaba por criar bolhas virtuais. Em cada bolha, apenas quem pensa em igual sintonia. Com isso, passa-se a achar que o “mundo” só pensa como você. Indo além: e que, por isso, só por se estar numa bolha (às vezes, composta de imbecis), se está certo nas próprias opiniões.

Posso, por exemplo, imaginar como Christopher Cantwell devia se achar o tal, o máximo, apenas por, na internet, ter um bando de imbecis o cercando. Num outro estudo, da Universidade de Washington, revelou-se que 70% dos posts no Facebook simplesmente repetem o que dizem os amigos dessa pessoa no mesmo Facebook. Ou seja, há a sensação (que deve ter tomado o supremacista Cantwell) de que, quando se apoia uma opinião radical, há respaldo nas redes sociais. Quando, na real, podem ser só idiotas que estão circulando ao redor, como abelhas em volta de mel.

E aí se chega à história da professora agredida em SC. Sobre a notícia, vê-se (quase que) apenas opiniões radicais no Facebook. De um lado, quem acha que o garoto de 15 anos, o agressor, seria exemplo máximo de como a maioridade penal deveria ser reduzida no Brasil. Pau nele! Do outro, quem defende, no estilo família Bolsonaro, que a professora “mereceu” por ter, um dia, se portado a favor daqueles que dão (ou tentam dar) ovadas, reais ou virtuais, em políticos de opiniões polêmicas. Pau nela!

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Quem tá certo? Nenhum dos lados. Ambos são compostos por radicais idiotas. Radicais que fazem da internet um quadro – ou, melhor, uma caricatura – de uma das frases clássicas de Shakespeare, tirada da peça A tempestade (não do Facebook, acredite!): “O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui”.

Acabo com uma pergunta provocativa: e você? Se sente mais radical quando entra no Facebook? Sente que só vê opiniões iguais às suas quando mergulha no Twitter? Se sim, experimente ouvir os divergentes. Experimente ler posts com visões distintas. Experimente ares (mesmo que virtuais) menos poluídos.

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