“Só os bilionários podem salvar o meio ambiente”, diz grafiteiro ambientalista
O artista internacional Mundano conta como surgiu a inspiração de optar por uma arte engajada e a força que ela tem contra a destruição dos biomas

São Paulo é conhecida por ser uma selva de pedras, devido ao número elevado de prédios e a quantidade cada vez menor de verde. Um desses edifício, a poucos metros da Avenida Paulista, foi transformado em um mural, onde figura a maior líder indigenista da atualidade, Alessandra Mundurucu. Não se trata apenas de um grafite, mas de um protesto à destruição da Amazônia e de outros biomas importantes, que apresentaram até o fim de setembro 150% mais pontos de incêndios. Antes de os portugueses chegarem na região, São Paulo já foi um ecótono, o encontro de vários biomas, no caso, Cerrado, Mata Atlântica e de florestas de Araucárias. Este ano, a maior metrópole do país sentiu o cheiro das queimadas e respirou a fuligem da destruição da Amazônia, que chegaram pelos hidrovias da atmosfera. “O mural é um grande post it”, diz o grafiteiro-ativista Mundano, de 38 anos, autor da obra. “Ela vai ficar ali durante 7 anos para ninguém esquecer o que está acontecendo.” Abaixo, trechos do bate-papo com o artista, que cobra atitudes mais sustentáveis por parte dos líderes do agronegócio.
Como está sendo a recepção desse imenso retrato da Amazônia ?
É muito difícil agradar todo mundo. Principalmente porque faço arte engajada. o mural que está em São Paulo mostra uma realidade que eu vi com os meus olhos: o solo rachado e devastado pela seca e pelas queimadas. Muitas pessoas se identificam com essa realidade, mesmo estando a milhares de quilômetros da Amazônia. Até porque a fumaça das queimadas da floresta se espalharam pelo país e chegaram em São Paulo.
Em que momento veio a ideia de começar a fazer arte engajada?
Em 2007, quando o grafite me levou a conhecer outras dimensões de São Paulo e do mundo. Foi quando vi de perto o racismo ambiental e os mais diversos tipos de injustiças. Então, comecei a escrever frases, questionar e fazer alertas.
Qual a sua impressão? Funciona?
Arte com causas é uma ferramenta muito forte. Ela toca lugares que às vezes números e palavras não chegam. Eu trouxe a destruição ambiental da Amazônia para o centro da maior cidade do país. Essa imagem gigante vai ficar durante 7 anos no prédio. Ela é tão forte que foi matéria no New York Time.
Foi muito difícil fazer uma pintura dessas proporções?
Precisei da ajuda de seis artistas, corajosos e talentosos (André Hulk, Marcos Moluco, Daniel Werá, Loss e André Firmiano). O painel levou 15 dias para ficar pronta e ainda estamos retocando. Nesse período, começaram as tempestades em São Paulo, o que aumentou o nosso desafio. Fiquei emocionado com o tamanho dessa obra. Alessandra Mundukuru não tem 1,50 metro de altura e ela está lá entre os prédios enorme. Além disso, a obra é à base de cinzas e terra da Amazônia, que foram misturados a um verniz. Essa é uma técnica ancestral, a mesma da pintura rupestre, que, na verdade, foi o primeiro grafite da humanidade.
Qual foi o motivo que levou você a escolher a Alessandra como personagem da sua obra?
Meu objetivo dessa vez era colocar uma pessoa viva no centro do meu mural. Já homenageei muitos mortos. Ela é uma grande defensora do meio ambiente. Foi difícil marcar um encontro, mas eu queria contar a história dessa indigenista. Mesmo com agenda cheia, viaja pelo mundo todo. Mas em um determinado momento, me chamou para acompanhar à demarcação o território Sawré Muybu, do povo Munduruku. Essa viagem foi especial. Pela primeira vez, participei de uma expedição de 10 dias, em uma região bem inóspita, no limite do território, em mata virgem. No caminho fui vendo vestígio da exploração. Encontramos caminhão de soja, garimpo ilegal, e muita vegetação derrubada. Depois fui para a cidade mais próxima, Itaituba, município do Sudoeste do Pará. Não ia para lá há alguns anos. Fiquei impressionado como está destruído.
Leia:
+ https://veja.abril.com.br/agenda-verde/queimadas-criminosas-na-amazonia-viram-tema-de-grafite