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Lixo plástico é encontrado pela primeira vez na ilha de Trindade, a mais de mil quilômetros do litoral

Formações criadas pela fusão de lixo marinho com sedimentos foram identificadas na ilha de Trindade e preocupam cientistas

Por Ernesto Neves 12 mar 2026, 11h11 • Atualizado em 12 mar 2026, 12h24
  • O plástico, símbolo da sociedade de consumo do último século, pode estar deixando uma marca permanente na história geológica da Terra.

    Pesquisadores vêm identificando em diferentes partes do mundo um tipo inusitado de formação rochosa composta por polímeros derretidos misturados a areia, conchas e fragmentos minerais.

    Essas chamadas “rochas plásticas” foram registradas em praias da Europa, da Ásia e das Américas, e também no Brasil.

    No país, a primeira ocorrência foi identificada em 2019 na remota ilha de Trindade, território brasileiro localizado a mais de mil quilômetros do litoral do Espírito Santo.

    Ali, fragmentos de plástico vindos do oceano foram encontrados incorporados a sedimentos naturais, formando estruturas semelhantes a rochas comuns.

    O fenômeno foi estudado pela geóloga brasileira Fernanda Avelar Santos, atualmente em pós-doutorado na Universidade Estadual Paulista.

    A descoberta chamou atenção da comunidade científica internacional porque sugere que resíduos produzidos pela atividade humana podem se integrar aos processos naturais de formação de rochas. E permanecer no planeta por milhares ou até milhões de anos.

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    Em termos geológicos, isso pode significar que a humanidade está deixando uma assinatura duradoura nas camadas da Terra.

    Como surgem as rochas de plástico

    À primeira vista, as formações encontradas na ilha de Trindade se parecem com rochas típicas de ambientes costeiros. Elas misturam diferentes sedimentos, como grãos de areia, pedaços de conchas e cascalho.

    Análises laboratoriais, no entanto, revelaram um ingrediente incomum: plástico.

    Os estudos indicam que polímeros como polietileno e polipropileno, amplamente usados em embalagens, cordas e redes de pesca, atuam como um tipo de “cimento”, unindo os fragmentos naturais.

    Em alguns casos, a rocha é composta quase inteiramente de plástico derretido.

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    Essas formações surgem quando resíduos plásticos acumulados nas praias são submetidos a altas temperaturas, muitas vezes após serem queimados.

    O material derretido se mistura aos sedimentos e, com o tempo, endurece.

    O resultado são estruturas conhecidas por nomes técnicos como plastiglomerados e plastistones.

    O primeiro tipo é formado pela mistura de sedimentos naturais e plástico fundido. o plastistone pode conter mais de 90% de plástico em sua composição.

    Um problema que chega a lugares remotos

    Apesar de ser uma ilha praticamente desabitada, Trindade recebe grandes quantidades de lixo marinho. Apenas cientistas e militares têm autorização para permanecer no local, e em número reduzido.

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    O material não é produzido ali.

    Ele chega trazido pelas correntes oceânicas.

    A ilha está situada em uma área influenciada pelo Giro do Atlântico Sul, um grande sistema de circulação marinha que transporta detritos vindos de diversas partes do planeta.

    Entre os resíduos mais comuns estão cordas e redes usadas na navegação comercial e na pesca industrial.

    Análises químicas das rochas plásticas indicam justamente a presença de polímeros típicos desses equipamentos marítimos.

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    Além do impacto visual e ambiental imediato, os cientistas também observam outro efeito preocupante: a fragmentação dessas rochas gera partículas cada vez menores.

    Esses fragmentos, chamados de piroplásticos, podem ser transportados pelo vento e pela maré, espalhando microplásticos ao longo da costa.

    Fragmentos aparecem em ninhos de tartarugas

    Pesquisas realizadas nos últimos anos mostram que as rochas plásticas da ilha de Trindade estão se desgastando com a ação das ondas e do vento. O material se fragmenta e se espalha pela praia, seguindo processos semelhantes aos de sedimentos naturais.

    Em alguns casos, os fragmentos acabam soterrados.

    Cientistas encontraram pedaços de plástico misturados ao sedimento dentro de ninhos de tartarugas-verdes, espécie que utiliza a ilha para reprodução. Os fragmentos estavam enterrados a até dez centímetros de profundidade.

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    A presença desses materiais em áreas de nidificação preocupa pesquisadores porque pode afetar o ecossistema local e expõe filhotes a contaminantes.

    Um possível registro do Antropoceno

    Além do impacto ambiental imediato, as rochas plásticas têm despertado interesse em outro debate científico: a definição de uma nova era geológica.

    Alguns pesquisadores defendem que a Terra entrou no chamado Antropoceno, período em que as atividades humanas se tornaram a principal força de transformação do planeta.

    Para que uma nova época geológica seja oficialmente reconhecida, é necessário identificar sinais claros e duradouros nas camadas sedimentares da Terra, os chamados registros estratigráficos.

    Os fragmentos de plástico incorporados às rochas podem cumprir esse papel.

    Se permanecerem preservados ao longo de milhares de anos, esses materiais poderiam servir como evidência física da presença humana no registro geológico.

    Para investigar essa possibilidade, pesquisadores realizam experimentos em laboratório simulando as condições ambientais que as rochas enfrentariam ao longo do tempo.

    As amostras são expostas a radiação ultravioleta, calor e umidade para avaliar sua durabilidade.

    Os resultados preliminares sugerem que o plástico pode permanecer preservado por períodos longos, especialmente quando protegido por sedimentos.

    Ainda assim, não consenso entre os especialistas sobre o reconhecimento oficial do Antropoceno. A discussão é conduzida por organismos científicos internacionais e deve continuar por vários anos.

    Enquanto o debate segue aberto, as rochas plásticas oferecem um retrato claro de uma realidade: o lixo produzido pela sociedade moderna está se integrando aos próprios processos naturais da Terra.

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