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Eólica e solar superam fósseis na matriz elétrica da UE pela primeira vez

Marco histórico ocorre em meio à reconfiguração energética do bloco após a guerra da Ucrânia e expõe avanços e gargalos da transição

Por Ernesto Neves 26 jan 2026, 15h17 • Atualizado em 26 jan 2026, 18h05
  • A eletricidade gerada por usinas eólicas e solares superou, pela primeira vez, a produção de fontes fósseis na União Europeia em 2025, consolidando uma inflexão histórica na matriz energética do bloco em meio às pressões da guerra da Ucrânia, à crise do gás russo e às metas climáticas cada vez mais ambiciosas de Bruxelas.

    Segundo dados divulgados pelo think tank energético Ember, a soma da geração eólica e solar respondeu por 30% da eletricidade consumida no bloco no ano passado, ligeiramente acima dos 29% provenientes de termelétricas a carvão, gás e óleo.

    Consideradas em conjunto com a energia nuclear, as fontes de baixo carbono já representam 71% da geração elétrica europeia.

    O avanço foi impulsionado sobretudo pela energia solar, cuja capacidade instalada cresceu 19% em 2025, num ritmo recorde.

    Países como Espanha, Hungria e Holanda já obtêm mais de um quinto de sua eletricidade a partir do sol, refletindo políticas agressivas de incentivo adotadas após o choque energético provocado pela invasão russa da Ucrânia, em 2022.

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    Desde então, a segurança energética tornou-se eixo central da política europeia.

    O corte abrupto no fornecimento de gás russo, que antes da guerra respondia por cerca de 40% das importações do bloco, levou a União Europeia a acelerar projetos renováveis, reativar usinas a carvão de forma temporária e ampliar importações de gás natural liquefeito, sobretudo dos Estados Unidos e do Catar.

    Esse movimento foi institucionalizado no plano REPowerEU, lançado em 2022, que combina expansão de renováveis, eficiência energética e diversificação de fornecedores como forma de reduzir a dependência de Moscou.

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    A estratégia, amplamente analisada por jornais como o Financial Times e o Le Monde, ajudou a explicar por que a transição energética ganhou tração mesmo em um cenário de desaceleração econômica e instabilidade política.

    Ainda assim, o caminho não foi linear. A seca reduziu a geração hidrelétrica em várias regiões do continente, obrigando a um aumento de 8% na produção a partir do gás para compensar a escassez.

    Ao mesmo tempo, a participação do carvão caiu para um mínimo histórico de 9,2% da matriz elétrica europeia, com Alemanha e Polônia, tradicionais dependentes do combustível, registrando os menores níveis já observados.

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    Apesar do avanço estrutural das fontes limpas, a transição enfrenta obstáculos relevantes.

    Reportagens do Politico Europe e do The Guardian destacam que a falta de investimentos em redes de transmissão e armazenamento tem levado ao desperdício de eletricidade renovável em períodos de alta produção, quando operadores são obrigados a desligar turbinas e painéis para evitar sobrecargas no sistema.

    Esse gargalo ajuda a explicar por que a expansão das renováveis ainda não se traduziu plenamente em contas de luz mais baixas.

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    De acordo com a Ember, os picos de preços registrados no último ano coincidiram com momentos de maior uso de gás, evidenciando a vulnerabilidade do sistema europeu às oscilações desse combustível.

    No plano político, o avanço das energias limpas ocorre em meio a resistências crescentes. Pressões de governos como os da Alemanha e da República Tcheca levaram Bruxelas a flexibilizar algumas medidas de redução de emissões em 2025.

    Além disso, um acordo recente entre a União Europeia e o presidente dos EUA, Donald Trump, para ampliar significativamente as compras de energia americana reacendeu o debate sobre até que ponto o bloco conseguirá, de fato, se desvincular do petróleo e do gás no médio prazo.

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    Ainda assim, analistas ouvidos por veículos europeus avaliam que a ultrapassagem dos fósseis por eólica e solar tem valor simbólico e estrutural.

    Ela indica que a resposta europeia à guerra da Ucrânia não se limitou a substituir fornecedores, mas acelerou uma transformação mais profunda, que reposiciona a matriz elétrica do continente em direção a um modelo menos vulnerável a choques geopolíticos e mais alinhado aos compromissos climáticos do Acordo de Paris.

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