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O que explica o sucesso de universidades chinesas que superaram até Harvard em um novo ranking

Investimento pesado, foco em inovação e metas arrojadas estão entre os fatores

Por Ricardo Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 jan 2026, 08h00 •
  • Até o início do século XXI, a colossal força de trabalho da China sustentava um vertiginoso crescimento na casa dos dois dígitos. Fincada em mão de obra abundante e barata, a política que por longo período vigorou ali era exportar à banda rica do planeta toda espécie de itens manufaturados de baixa e média tecnologia, vendidos a preço de banana. A bem pensada estratégia garantiu avanços extraordinários, mas faltava azeitar a máquina do todo-poderoso Estado para dar um salto de inovação e ingressar para valer no clube das economias que ditam os rumos do planeta. E assim, nas duas últimas décadas, o onipresente governo chinês, tocado com mãos de ferro pelo Partido Comunista, pródigo em desenhar planos de longo prazo, passou a canalizar abundantes recursos às universidades e a investir firme em pesquisa em setores de elevado valor agregado, como biotecnologia, transição energética e inteligência artificial. A cada vez mais visível presença de insumos made in China nos mercados globais — celulares, robôs, medicamentos, carros elétricos — tem tudo a ver com esta revolução no campo do conhecimento, conduzida de forma disciplinada, ano a ano, até que, também aí, os chineses alcançassem o topo.

    Foi há algum tempo que a academia naquele naco do mundo se converteu em uma vitrine para a excelência, tanto na formação de cérebros quanto na produção científica de primeira grandeza. A novidade está na disparada de instituições que, em listas de peso, apareciam sempre atrás das americanas, invariavelmente na dianteira sob qualquer medidor. Segundo um novo ranking elaborado pela Universidade de Leiden, na Holanda, centrado na quantidade e na importância de pesquisas publicadas, o tabuleiro da geopolítica do saber deu uma sacudida: a China passou a ocupar oito das dez primeiras colocações, emplacando as universidades de Zhejiang e Xangai Jiao Tong como campeã e vice, respectivamente, no rol em que a prestigiada Harvard, dos Estados Unidos, surge em terceiro lugar (veja no quadro). Em outros rankings que têm como termômetros nível de ensino, reputação e alcance internacional, a China também vem avançando, como no da Times Higher Education, em que já conta com cinco representantes no pelotão da frente, entre eles a Universidade de Pequim, que se saiu melhor do que as estelares Columbia e Cornell.

    arte ranking universidades

    A escalada de Zhejiang, no sudeste chinês — conhecida como a “Cambridge do Oriente”, em alusão à universidade britânica que também figura entre as melhores do globo — tem raízes no foco obsessivo em pinçar assuntos capitais para a investigação científica. Ao todo, 256 pesquisadores altamente citados dali fizeram reverberar trabalhos originais, como um em torno do tratamento de câncer à base da aplicação de vírus e outro que resultou em uma “fumaça congelada”, exibida como o mais leve sólido já criado pelo homem. Fundada no fim do século XIX, a instituição graduou mais de 700 000 alunos (entre os quais dez ex-medalhistas olímpicos) e tem dado ativa contribuição ao crescimento do país, como a construção da primeira máquina com projeto nacional capaz de perfurar túneis — exemplo de uma política intensificada pelo presidente Xi Jinping, de formar uma tropa de elite do saber. “A China sempre valorizou o estudo, mas, agora, ciência e tecnologia se tornaram o maior vetor de desenvolvimento”, enfatiza Luís Paulino, diretor do Instituto Confúcio da Unesp.

    Para a educação, não falta verba: a área é irrigada com 1,8% do vultoso PIB . Pela primeira vez, aliás, a cifra alcançou a média dos países desenvolvidos, embora siga abaixo dos Estados Unidos. Os caminhos encontrados pela China mostram, portanto, que o dinheiro por si só não explica tudo: ele precisa vir aliado a metas arrojadas e servir como incentivo a talentos capazes de fazer girar a roda da inovação. Embora não enriqueçam na academia, os professores são atraídos por vantajosas condições de trabalho e reconhecimento profissional, além de benefícios como linhas de crédito facilitadas para a compra de imóveis. Em troca, precisam apresentar resultados concretos e cavar espaço em revistas científicas respeitadas internacionalmente. “Publicar estudos é essencial para obter recursos públicos destinados à pesquisa, um estímulo para que produzam mais e melhor”, explica Evandro Menezes, professor de direito da FGV-RJ e titular da Cátedra Wutong, da Universidade de Língua e Cultura de Pequim.

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    VANGUARDA - Cientistas em ação: incentivo do governo a setores-chave
    VANGUARDA - Cientistas em ação: incentivo do governo a setores-chave (Chen Yehua/XINHUA/AFP)

    A competição entre pares, alimentada desde cedo, para aflição de integrantes das jovens gerações, é outro fator apontado como motor decisivo em direção à tão almejada excelência do ensino superior chinês. A corrida começa com a estreita peneira para ingressar em uma das vistosas universidades, o que depende do sucesso no Gaokao, o maior e mais difícil vestibular do mundo. Todo ano, os 13 milhões de estudantes que completam o bem avaliado ciclo básico, que também vai muito bem na queda de braço global, brigam por um dos 10 milhões de vagas ofertadas. No caso das instituições que encabeçam o novo ranking de Leiden, o funil para a aprovação é ainda mais estreito. “É um divisor de águas na vida dos alunos, cuja rotina escolar é acompanhada de perto até pelos avós”, explica a especialista Maria Helena Castro, ex-secretária-executiva do Ministério da Educação. Desde os primórdios, os olhos da China estão voltados para a sala de aula. Não custa lembrar que a mais cultuada figura por lá é o filósofo Confúcio (551 a.C. a 479 a.C.), que já pregava: “A educação é o que distingue os homens”. Ao aplicar à risca a milenar lição, a China vai deixando o resto do mundo para trás.

    Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980

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