Como as redes sociais atrapalham a felicidade
VEJA conversou com Tal Ben-Shahar, professor do curso de ciência da felicidade de Harvard
Conhecido mundialmente por popularizar a ciência da felicidade, Tal Ben-Shahar é professor, escritor e um dos principais expoentes da psicologia positiva. Professor de um dos cursos mais disputados da história da universidade de Harvard, ele dedica sua carreira a traduzir descobertas científicas em ferramentas práticas para uma vida com mais bem-estar, significado e resiliência. Em sua análise do mundo contemporâneo, Ben-Shahar frequentemente alerta para um dos grandes obstáculos ao bem-estar: a comparação social amplificada pelas redes sociais. Nelas, somos expostos a um recorte editado e irreal da vida alheia — onde todos parecem mais felizes, bem-sucedidos e viajados —, o que, por contraste, tende a minar nossa própria satisfação com a vida real. VEJA conversou com ele com exclusividade em uma rápida passagem de Ben-Shahar pelo Brasil.
Por que parece mais difícil para as novas gerações se sentirem felizes?
Infelizmente é o que vemos hoje. Muito disso se deve ao desenvolvimento tecnológico. As crianças de hoje não vivem tanto ao ar livre ou com amigos, os videogames e mídias sociais tomaram esse lugar. E eu não sou contra a tecnologia, mas os excessos são um grande problema.
O senhor aponta as relações como um dos pilares mais importantes do bem-estar. Como construir e manter amizades profundas em um mundo que é mais individualista e virtual?
Somos animais sociais, não animais de mídia social. E, portanto, precisamos fazer dos relacionamentos uma prioridade. Se não o fizermos, todo o sucesso do mundo não nos fará felizes. Na verdade, só nos fará mais infelizes. Há uma frase linda de Francis Bacon: “A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas pela metade”.
O mundo pós-pandêmico ficou mais triste?
A pandemia elevou os níveis de depressão e de ansiedade. Nos acostumamos a passar menos tempo com as pessoas. Por exemplo, muitas pessoas trabalham de casa, o que é conveniente, mas também significa que interagimos menos com outros seres humanos e ficamos mais com telas e presos em uma sala. Esse é um fator significativo para diminuir níveis de felicidade.
Críticos afirmam que a psicologia positiva pode ser tirana e invalidar emoções ditas ruins, como raiva, tristeza e inveja. Concorda?
Eles estão absolutamente certos. Uma das maiores barreiras para a felicidade é a crença de que a vida ideal não tem emoções dolorosas. Não experimentar esses sentimentos leva a uma vida desconectada. Falo muito sobre a importância de permitir a infelicidade como base da boa vida, chamo isso de “permissão para ser humano”. É inerente ao ser humano passar pela dor e ser infeliz em algum momento.
O senhor afirma que o estresse é fundamental, ideia contrária aos discursos motivacionais em alta que tratam estresse como inimigo da felicidade. Poderia explicar?
Se você vai à academia e não pega peso, você não vai ficar mais forte. O mesmo na vida. Se você não estressa, você não vai crescer psicologicamente. Ainda bem que a vida nos fornece estresse, queiramos ou não. Encarar esses momentos é uma oportunidade de crescimento, desde que também haja recuperação. Se você decide sempre levantar pesos pesados, sem nenhum descanso, certamente vai se machucar.
Muitas dicas de bem-estar focam no indivíduo. A felicidade depende de cada um ou do ambiente em que se está inserido?
O coletivo e o social importam muito. Se há muitos fumantes à sua volta, é mais provável que você fume. Se você anda com pessoas que são abertas sobre suas emoções, é mais provável que você seja aberto sobre suas emoções. Se você anda com pessoas mais felizes ou mais gentis, é provável que você seja mais como eles. Portanto, a estrutura social não pode ser ignorada.







