Marcelo do Rego: “Me abrir é uma forma de ajudar os outros”
Para lidar com a depressão, o mentor começou a correr e hoje inspira outras pessoas a se transformar
Foi em meados de 2016, quando nasceram meus filhos gêmeos, Joaquim e Samuel, que uma chave virou na minha cabeça. Eu estava no piloto automático, colocando a culpa no mundo inteiro por tudo que havia acontecido comigo. E foram muitas coisas. Sofri abuso na infância. Acompanhei o divórcio dos meus pais. Sofri um assalto que me deixou traumatizado na adolescência e fiquei com medo de sair de casa por muito tempo. Vivi o luto pela perda da minha mãe, portadora de HIV, e depois pela perda do meu pai. Foi uma experiência pela qual tive que passar muito antes do que qualquer pessoa espera. E precisei tomar remédios tarja preta. Mais tarde, passei a usar essa imagem para representar os momentos da minha vida em que atingi o fundo do poço. Eu carregava a depressão quase como uma herança. Mas, com a chegada dos meninos, entendi que algo precisava mudar. Então comecei a fazer terapia, o que me deu uma base de sobrevivência para encarar os desafios que viriam.
Em 2018, o Samuel teve uma infecção generalizada muito séria. Naquele momento, cheguei outra vez ao fundo do poço e voltei a depender da medicação. Mas, superado esse episódio, logo eu viria a tomar outra decisão importante. Na véspera de Natal, olhei para a mesa da ceia e vi uma garrafa de Coca-Cola. Eu tomava muita Coca-Cola. Então decidi parar de tomar. Foi como uma promessa. E essa primeira decisão levou a outras. A ponto de eu começar a notar mudanças no corpo e na rotina. Mergulhei na leitura de livros de autoajuda, cortei o açúcar do café, passei a tomar banho gelado… E o esporte entrou na minha vida.
Comecei a deixar o tênis de corrida na porta, como forma de incentivo. E passei a correr. No início, eu não gostava. Era um esforço enorme, mas eu entendi que a corrida me trazia benefícios, físicos e mentais. Dali a pouco estava participando de provas e completei minha primeira São Silvestre. Depois encarei uma meia maratona. Foi difícil, fiquei os dois dias seguintes sem conseguir andar direito. Entendi que precisava buscar uma assessoria esportiva, porque aquilo podia prejudicar minha saúde se não fizesse cada etapa com cuidado. Não demorou e estava concluindo minha primeira maratona. Foi muito emocionante percorrer os 42 quilômetros da prova de Berlim.
Mesmo adorando correr, tive recaídas, crises de saúde mental. Quando eu e a mãe dos meus filhos decidimos nos divorciar, em 2021, cheguei mais uma vez ao fundo do poço. Na época, mantinha um diário e registrei que estava tendo pensamentos de encerrar tudo. Mas entendi que não era o que eu queria. Voltei ao psiquiatra e aos remédios. Hoje, felizmente, não dependo mais deles, mas tudo bem se precisar usar de novo. Viver com depressão é aprender a saber quando buscar ajuda. Só que os homens da minha geração não foram estimulados a falar de sentimentos e emoções. Esse foi um dos motivos pelos quais decidi escrever meu livro, Do Tarja Preta à São Silvestre.
Os medicamentos e a prova de corrida são os dois extremos da minha experiência. Juntar tudo isso em um livro é uma espécie de herança que quero deixar aos meus filhos. Por ter perdido meus pais cedo, fiquei com um receio de também morrer jovem. Eu queria mostrar a minha história, e me abrir é uma forma de também ajudar outras pessoas. Posso servir de exemplo, gerar um estímulo para enxergarem as coisas de outra forma. E isso tem dado certo. Hoje muitos se abrem comigo de uma maneira que não fariam normalmente, falando de problemas mais tangíveis, financeiros ou de saúde, ou de experiências que viveram. E, agora, ainda trabalhando no mercado corporativo, faço questão de manter um grupo de mentoria para que outros homens possam se abrir e falar de seus problemas.
Marcelo do Rego em depoimento a André Sollitto
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979







