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Ainda estou aqui… Mas o orelhão, um símbolo brasileiro, logo sumirá do mapa

Com o fim da concessão para as empresas de telefonia, não será mais possível zelar por produto tão obsoleto

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 jan 2026, 08h00 •
  • Ele ganhou fama global tardiamente e bem no instante em que a ficha vai cair: o orelhão, invenção tipicamente brasileira, ficou famoso agora por meio do principal pôster do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vencedor de dois Globos de Ouro, a partir da cena em que o Marcelo de Wagner Moura, desconfiado, fala ao telefone vermelho.

    Na virada de 2025 para 2026, na calada da noite, chegou ao fim a concessão pública das cinco empresas responsáveis pela manutenção dos aparelhos, encerrando um modelo que, por décadas, foi símbolo de acesso universal à comunicação. Até então, as operadoras eram obrigadas a manter e conservar os telefones públicos, que passaram a cair em desuso com a popularização dos smartphones. Hoje, restam 38 000 unidades em todo o país — número irrisório se comparado ao auge do serviço, nos anos 2000, quando havia mais de 1 milhão de peças (veja o quadro). É sumiço que, a rigor, repete fenômeno semelhante das cabines vermelhas de Londres, que só não deram adeus definitivo por serem ícones de turismo.

    CEMITÉRIO - As famosas cuias no lixão: fim de um capítulo da vida urbana
    CEMITÉRIO - As famosas cuias no lixão: fim de um capítulo da vida urbana (Moacyr Lopes Junior/Folhapress/.)

    Um passeio histórico é conveniente. O surgimento dos primeiros telefones públicos nas ruas das cidades brasileiras foi uma das maiores revoluções na forma como as pessoas se comunicavam. Os orelhões permitiam que, com apenas uma ficha (e, depois, cartões, hoje raridades colecionáveis), fosse possível fazer chamadas para a família logo ali ou de longa distância, tempo em que os telefones fixos custavam o preço de um carro. Trouxeram facilidade e entusiasmo. A novidade rendeu até tema para uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, em 1972: “A verdade é que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que não precisam mais fazer fila no boteco ou na farmácia para dar um recado telefônico”.

    O processo de desmanche, embora esperado, foi silencioso. Desde 2014, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) vinha flexibilizando as obrigações das operadoras, permitindo a retirada gradual dos aparelhos, parte deles vandalizada, diante da queda contínua no volume de chamadas e do aumento dos custos de conservação e reposição. Permanecerão, até 2028, apenas os telefones instalados em localidades remotas — sobretudo áreas rurais, comunidades isoladas e regiões da Amazônia Legal — onde a cobertura de telefonia móvel ainda é precária. Nesses casos, o orelhão segue classificado como serviço essencial. Nos centros urbanos, o fim de linha é para já.

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    arte orelhão

    Responsável pela maior parte dos orelhões ainda em pé, a Vivo esclarece que a Anatel migrou o regime do serviço de concessão para o de mera autorização, eufemismo que costura o desfecho. Segundo a empresa, ao longo dos próximos anos os investimentos serão concentrados em novas tecnologias — como 4G, 5G ou superiores — e na ampliação da infraestrutura de fibra óptica no país, em linha com a demanda da população por banda larga de alta velocidade, seja no celular, seja em conexões fixas.

    Além do aspecto prático, o fim dos orelhões representa o encerramento de um capítulo simbólico da vida urbana brasileira. Criado pela designer sino-brasileira Chu Ming Silveira, o equipamento ganhou o formato de um ovo — ou, na definição do poeta Drummond, “uma cuia invertida” — para garantir melhor acústica. Tornou-se ícone do espaço público, cenário de ligações apressadas, filas improvisadas, pontos de encontro e até suporte para publicidade. Os poucos que ainda resistem seguem funcionando com chamadas gratuitas, já que não existem mais fichas nem cartões: para as empresas, tornou-se mais barato liberar o uso do que investir em sistemas de cobrança para um serviço quase abandonado. Sua retirada definitiva evidencia como a conectividade deixou de ser um serviço coletivo, ancorado no espaço físico, para se tornar uma experiência individual, portátil e digital. Vale lembrar, como triste nota de epílogo, um premonitório comercial de televisão da Telesp, a companhia paulista, de 1979, em que um orelhão morre nas ruas de São Paulo, violentado e agredido, coberto com jornal, e RIP — daria uma cena adequada ao já clássico O Agente Secreto.

    Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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