Guilherme Arantes: “Sou um cara em busca do sublime na música”
O cantor e compositor de 72 anos conta como se reinventou em novo disco após passar por problema cardíaco
Por que lançar um novo disco, Interdimensional, e encarar mais uma turnê agora? Passei quase três anos em reciclagem forçada, pois fiz um tratamento de saúde (cateterismo de urgência e angioplastia). Foi um período de reflexão para me renovar em termos musicais e compor um repertório mais ambicioso, com um disco maior. A turnê comemora meus cinquenta anos de carreira e marca um reencontro com o público que estava havia muito tempo sem um show. Em 2025, eu não fiz nada, e no ano anterior tive poucas aparições.
O que inspira suas buscas musicais atualmente? Tenho passado por um reposicionamento para elaborar esteticamente letras, canções e temas. Nos últimos tempos, tomei um rumo muito harmônico e melodicamente ambicioso, na tentativa de me superar e criar músicas mais bem construídas.
O que o move nisso? O show business está mudando de escala. Desde os anos 1990, gêneros como pagode, axé e sertanejo vendem na casa do milhão. Nossa geração, dos anos 1980, acabou não vivendo isso na época, mas a MPB é um nicho que está crescendo. É visível que nosso mercado teve um upgrade. Mas eu não peguei isso. Fiquei dois anos fora e estou voltando agora para encarar o desafio de lidar com essa nova realidade.
Como enxerga o cenário musical de hoje? O mercado está muito voltado para o entretenimento, principalmente devido à força de tantos festivais de música. Faço parte de outro movimento, porque nosso forte é buscar a arte. Falo em nome dos meus colegas, como é o caso do Djavan, do Lenine, que também estão lançando novos discos nessa proposta de construir coisas bonitas e elaboradas e que não sejam necessariamente para diversão ou entretenimento.
O que sente que mais mudou dos anos 1980 para cá? Estamos vivendo a era das hit factories. Não só no Brasil, mas no mundo todo. Há uma produção musical em escala industrial e isso abastece mercados como o sertanejo. Para nós, o desafio e prazer maior é estar numa escola antiga do compositor, de ficar amadurecendo um álbum por bastante tempo. Para mim, o maior prazer ainda continua sendo produzir novas ideias para os mesmos assuntos: romantismo, amor, vida cotidiana.
O que mais o marcou nesses cinquenta anos? Tive momentos muito reveladores na carreira. Se eu voltar atrás, quando comecei fazia uma música que era bastante confessional e autorreferente da minha angústia enquanto jovem, da minha solidão e do meu estranhamento. Eu acho isso um privilégio muito grande, porque já entrei nesse universo vendendo minha individuação como angústia diante do mundo, e o mundo respondeu. Todo mundo querendo estar no escuro do seu quarto à noite, à meia-luz — daria tudo para o meu mundo e nada mais. Não estourei com nada comercial ou que fosse uma jogada para dar certo. Sou um cara desesperado na busca do sublime nas músicas.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979







