Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

‘Vodca no olho’ faz primeira vítima

Universitário imita moda iniciada no YouTube e agora terá de passar por transplante de córnea

Prática começou nos Estados Unidos e se disseminou pela internet através do YouTube

N., 23 anos, estudante de economia em Campinas, não lembra muito bem o que aconteceu. No dia em que perdeu 80% da visão do olho direito, começou a beber às 23 horas e só parou às 4 horas da madrugada. Em algum momento, resolveu seguir o exemplo de jovens americanos que tinha visto no YouTube dias antes, e começou a pingar vodca nos olhos, usando uma colher. Foram várias gotas no olho direito, e, já desestimulado pela forte sensação de ardência, poucas no olho esquerdo. Foi para casa, anestesiado pela bebida, e acordou com uma violenta sensação de que havia areia nos olhos, ambos extremamente vermelhos. Disse aos pais que a bebida havia espirrado nele, foi ao médico e, dois dias depois, veio o diagnóstico dado pelo médico Leôncio Queiroz Neto, oftalmologista do Instituto Penido Burnier: só lhe tinha restado no olho direito 20% da visão, por causa de uma perfuração na córnea.

“Quando entra em contato com os olhos, a vodca faz doer e é um pouco gelada [a sensação de esfriamento é a vodca em ação, queimando a córnea]”, conta N., que entrou para a fila do transplante. Não há mais solução para o que foi causado pela vodca. Entre 60 e 90 dias ele deve ser submetido a uma cirurgia a laser que vai retirar a área de seu olho que ficou opaca e esbranquiçada e ganhar uma nova córnea. Até lá, N. não vai poder dormir direito, já que é preciso pingar colírio a cada duas horas em seu olho, e também não verá mais os amigos, com os quais cortou contato desde que tudo ocorreu. “Procurei me afastar deles, tamanha foi a vergonha.” (Leia a entrevista com N.)

N. foi atraído pelos vídeos porque achava que a prática era inofensiva e que a vodca poderia deixá-lo mais embrigado se fosse assimilada pelos olhos. O médico Paulo Schor, professor do departamento de oftalmologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), desmente as duas teorias difundidas pela internet. “O álcool presente na vodca vai matar as células que ficam na parte superficial do olho. Essas células vão descamar e, quando cicatrizarem, podem trazer opacidade ao olho. A diminuição da visão vai ocorrer com 100% de certeza, de forma permanente ou duradoura”, afirma.

E se embriagar pingando gotas de vodca no olho “é absolutamente impossível”, diz. “Dentro do olho só cabe um gota – e até por isso não recomendamos mais que uma gota de colírio. A segunda gota vai escorrer. E o ‘barato’ que alguns dizem vivenciar nada mais é que a distorção da imagem, o que acontece porque o sujeito acabou de destruir a parte superficial do olho.”

Ainda em Campinas, Queiroz atendeu outro caso, dias antes de N. Outro universitário, 21 anos, aluno de administração, também assistiu a um vídeo no YouTube e resolveu imitar. “Por sorte, ele não ficou tanto tempo com a vodca no olho, mas sofreu uma queimadura e teve um edema. Não vai precisar de transplante, mas a sorte de um não quer dizer que os outros tenham a mesma sorte”, afirma Queiroz.

Tico e Teco – Presente em vídeos no YouTube desde 2006, a prática da vodca no olho se disseminou no Brasil com maior força este ano. Até Tico Santa Cruz, vocalista da banda Detonautas Roque Clube, colocou no YouTube, no dia 31 de maio, um vídeo com o título “VODKA EYEBALL SHOT”. ‘Vodka eyeball’ é como a prática foi batizada nos Estados Unidos.

Depois da repercussão do vídeo, Santa Cruz mudou o status do vídeo de público para privado (visível apenas para pessoas previamente autorizadas por ele). Quando ele fez isso, o vídeo já tinha sido visto mais de 9.000 vezes.

Em seu blog, ele escreveu que experimentou por curiosidade. “Meus olhos ficaram ardendo por três dias”. Sobre as críticas negativas feitas a ele nos comentários do vídeo e em matérias veículadas pela imprensa, afirmou no blog que o problema não era dele. “Aparece um universitário em Campinas que pode ter problemas e a culpa é minha? Eu o estimulei a fazer isso?”, escreveu.

Para a psicóloga Ilana Pinsky, vice-presidente da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), este tipo de comportamento entre universitários adultos está cada vez mais comum. “A faculdade é o período em que as pessoas mais bebem. É um prolongamento da adolescência, mas sem o freio familiar e com dinheiro suficiente e liberdade para fazer o que bem entender.” Para ela, é como dirigir alcoolizado. “Só é explicado pela falta total de reflexão sobre seus próprios atos e pela consequência deles.”

“Espero que ninguém mais faça isso”, diz jovem que pingou vodca no olho

Sem 80% da visão em seu olho direito, o universitário N., 23 anos, aluno do terceiro ano de uma faculdade de economia em Campinas, é a primeira vítima brasileira da moda americana chamada ‘Vodca eyeball’.