A disputa pela Casa Branca ganhou novos e importantes elementos nas últimas semanas, mas segue sem apontar um favorito. A igualdade de chances entre o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney é tão grande que transforma qualquer tentativa de previsão em mero achismo.
A briga pelos chamados estados indecisos e o esforço de Obama em convencer os americanos a anteciparem o voto mostram que o quadro apresentado este ano é bem diferente daquele de quatro anos atrás, quando o democrata representava uma possibilidade real de mudança. Desta vez, os eleitores vão escolher entre um presidente que não conseguiu deixar sua marca e um republicano que não se sabe se poderá fazer melhor.
Romney promete que sim, fará melhor, e demonstrou credibilidade com seu desempenho no primeiro dos três debates televisionados realizados em outubro. Bem preparado, defendeu uma versão mais consistente de suas propostas, diante de um Obama disperso e superficial. Com seu desempenho, Romney conseguiu mudar a percepção que as pessoas tinham sobre ele. “Muitas pessoas que não pensavam assim começaram a vê-lo como um possível presidente. Desde então, ganhou um novo impulso na campanha”, opina Carol Weissert, professora de Ciências Políticas na Universidade do Estado da Flórida.
O impulso foi conquistado de maneira tão sólida que Romney não perdeu fôlego nos encontros seguintes, nos quais encontrou um oponente mais bem preparado. E conseguiu expor seu grande trunfo: as propostas econômicas. “Um ponto forte de Romney é sua experiência no setor privado, o que é visto como algo positivo pelos americanos, neste contexto de crise”, diz Grant Neeley, professor de Ciências Políticas da Universidade de Dayton, em Ohio.
Se a economia é o ponto de apoio da campanha republicana, também é a principal munição contra o adversário. Romney acusa Obama de não ter conseguido tirar o país da crise e afirma que não conseguirá fazê-lo se tiver mais tempo para isso. A resposta democrata é que o governo impediu que a situação se deteriorasse ainda mais. Quando Obama assumiu a Presidência, em 2009, os EUA perdiam 800.000 vagas de empregos por mês. Sua resposta, com pacotes de estímulo agressivos, conseguiu impedir uma verdadeira depressão. Levantamento do Departamento de Trabalho divulgado na sexta-feira indicou a criação de 170.000 vagas e taxa de desemprego de 7,9% em outubro.
“A política de Obama trouxe resultados razoáveis, especialmente na criação de empregos e na indústria automobilística - o que é um fator importante em Ohio, estado estratégico nestas eleições”, avalia o diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Washington. “Considerando que a crise era muito maior do que se imaginava, o fraco dividendo econômico dos EUA não pode ser considerado uma falha só do presidente”.
Porém, não é fácil ganhar aplausos quando a taxa de desemprego segue elevada, mesmo depois da promessa de que pacotes de estímulo à economia melhorariam a situação. E Obama ainda recuou em sua proposta de reformar as finanças do país, sendo julgado agora pelas promessas não cumpridas. “Uma desvantagem para qualquer candidato à reeleição é não poder debater em um âmbito hipotético. E esse é o maior desafio de Obama. É muito mais fácil para os adversários apontar erros da gestão alheia”, pondera Cary Covington, professor do departamento de Ciências Políticas da Universidade de Iowa. “Desta vez, não há promessas que o levem à reeleição. Ou os eleitores se convencem de que a situação em 2009 era muito pior do que se imaginava, e que o cenário atual é razoável diante dessa constatação, ou eles não darão a Obama uma segunda chance”.
Novo fator - A passagem do furacão Sandy pelos Estados Unidos na reta final da campanha apresentou um novo desafio para Romney, que precisou achar o tom certo para suas declarações nos primeiros dias da catástrofe. E jogou os holofotes sobre o presidente, que tentou se mostrar um líder competente. Não se sabe se os eleitores, ainda vivendo a tragédia, ficaram convencidos, mas o lado democrata já tem consequências concretas para comemorar: os elogios do republicano Chris Christie, governador de Nova Jersey, e o apoio de Michael Bloomberg, prefeito de Nova York.
“Estudos mostram que os eleitores tendem a punir os governantes pelos desastres naturais, mas este também foi um bom momento para Obama mostrar sua liderança de forma que liberais, conservadores e indecisos possam apreciar”, opina Covington. Para Barbosa, a tempestade pode não ser determinante para o resultado das eleições, mas vai ser mais um ponto a ser considerado pelos americanos. “Claro que um único acontecimento não pode decidir as eleições, mas é mais um fator de incerteza acrescentado a todos os outros”, destaca.
Os pontos fortes e fracos de Romney
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Homem de negócios: ponto forte
Romney tem experiência no setor privado: foi um consultor de destaque no Boston Consulting Group. Depois, foi o CEO de uma firma de capital de risco, a Bain Capital, que rendeu milhões em dividendos aos seus investidores. Conhecido por sua capacidade de analisar montanhas de dados para tomar decisões acertadas, surge com a imagem de eficiente homem de negócios num contexto em que o desemprego, o déficit nas contas governamentais e a queda no padrão de consumo são temas considerados essenciais pelos eleitores.
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Homem de negócios: ponto forte
Romney tem experiência no setor privado: foi um consultor de destaque no Boston Consulting Group. Depois, foi o CEO de uma firma de capital de risco, a Bain Capital, que rendeu milhões em dividendos aos seus investidores. Conhecido por sua capacidade de analisar montanhas de dados para tomar decisões acertadas, surge com a imagem de eficiente homem de negócios num contexto em que o desemprego, o déficit nas contas governamentais e a queda no padrão de consumo são temas considerados essenciais pelos eleitores.
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Vice articulado: ponto forte
Fervoroso e articulado defensor do governo enxuto e de uma reengenharia social de programas médicos e de aposentadoria, Paul Ryan aparece como escolha acertada para compor a chapa. Presidente da Comissão de Orçamento da Câmara, Ryan é um dos líderes mais influentes do Congresso desde 2010, quando a onda conservadora do Tea Party – com o qual ele tem ótima relação – fez os republicanos recuperarem a maioria na Câmara. A pessoa indicada para apresentar aos eleitores a plataforma republicana na área fiscal.
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Postura energizada: ponto forte
Romney teve um sólido desempenho no primeiro debate: estava bem preparado e defendeu uma versão mais consistente de suas posições políticas, enquanto Obama foi pego de surpresa e teve uma performance fraca e dispersa. Com isso, conseguiu mudar a percepção que as pessoas tinham sobre ele, ganhando um novo impulso na corrida à Casa Branca.
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Repetidos deslizes: ponto fraco
Uma série de gafes desgastou a imagem de Romney. Entre elas, uma crítica à organização das Olimpíadas de Londres, ao ressaltar problemas “desconcertantes” no evento. Quando o furacão Isaac atingiu o sul dos Estados Unidos, foi criticado por ter dito, em um evento de campanha em Indiana, que agradecia ao convite para o encontro em “terra seca”. Outra declaração controversa estava em um vídeo vazado para a revista de esquerda The Nation, no qual aparece dizendo que os 47% dos eleitores a favor de Obama gostam de favores do governo, se consideram vítimas, não pagam imposto de renda, querem continuar assim e estão fora do alcance eleitoral dos republicanos.
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Pouco pessoal: ponto fraco
Os discursos de familiares de Romney na Convenção Republicana, em agosto, insistiam em mostrá-lo como bom pai, marido e filho. Foi uma tentativa de aproximar o candidato do público, já que ele enfrenta um adversário que tem na mulher (Michelle Obama) um de seus principais cabos eleitorais. Sendo assim, Ann Romney também passou a participar mais ativamente da campanha. Outro ponto pouco conhecido do republicano é a influência de sua religião mórmon sobre suas posições políticas, já que ele pouco abordou a questão ao logo da campanha.
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Fogo amigo: ponto fraco
A campanha de Romney tem enfrentado constrangimentos por causa de declarações de republicanos a respeito de um tema sensível: aborto. Primeiro, o deputado pelo estado do Missouri Todd Akin falou em “estupro legítimo”, depois, o candidato ao Senado pelo estado de Indiana Richard Mourdock disse que a gravidez resultante de um estupro era “algo que Deus pretendia que acontecesse”. O membro do Tea Party John Koster também deu sua opinião sobre o tema, dizendo que sobre “essa coisa de estupro”, realizar um aborto é uma nova agressão ao corpo da mulher.
Os pontos fortes e fracos de Obama
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De olho nas minorias, mulheres e jovens: ponto forte
“O presidente tentou se voltar para as questões das mulheres, dos jovens e das minorias. Nesta reta final, também dedicou recursos substanciais para a abertura de escritórios de campanha nos estados indecisos - num esforço para atrair eleitores”, destaca John Hudak, pesquisador sobre governança do Brookings Institute. Enquanto Romney se apresenta como a ‘mudança real’, Obama tenta trazer de volta o espírito da campanha de 2008, quando ele se mostrava como esperança de mudança. Há quatro anos, o discurso arrebatou os jovens, que compõem uma cobiçada fatia do eleitorado americano.
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De olho nas minorias, mulheres e jovens: ponto forte
“O presidente tentou se voltar para as questões das mulheres, dos jovens e das minorias. Nesta reta final, também dedicou recursos substanciais para a abertura de escritórios de campanha nos estados indecisos - num esforço para atrair eleitores”, destaca John Hudak, pesquisador sobre governança do Brookings Institute. Enquanto Romney se apresenta como a ‘mudança real’, Obama tenta trazer de volta o espírito da campanha de 2008, quando ele se mostrava como esperança de mudança. Há quatro anos, o discurso arrebatou os jovens, que compõem uma cobiçada fatia do eleitorado americano.
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Vitória na área da saúde: ponto forte
Um ponto alto do governo Obama que trouxe resultados para a campanha foi a aprovação pela Suprema Corte de uma de suas principais bandeiras. O ObamaCare - proposta de tornar obrigatório a todos os americanos, exceto aqueles que vivem abaixo da linha da pobreza, adquirir um plano de saúde - foi considerada constitucional juntamente com o restante da reforma de saúde aprovada em 2010. Apesar da conquista do governo, o ObamaCare é pouco popular entre os eleitores - e a eliminação de toda a reforma traria uma economia de 95 bilhões de dólares por ano aos EUA. Para Romney, a saúde deveria ser incumbência dos estados. Se for eleito, ele promete revogar a lei.
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Maioria nos colégios eleitorais: ponto forte
Já que a escolha do presidente dos Estados Unidos é feita pelos colégios eleitorais, e não pelo voto popular, os candidatos precisam ganhar os estados. Nesse trabalho, Obama leva uma pequena vantagem em relação ao rival em alguns estados indecisos: em Iowa, Wisconsin e New Hampshire, segundo levantamento do Wall Street Journal e NBC News, na Virgínia, na Flórida e novamente em Ohio, de acordo com pesquisa da Reuters/Ipsos.
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A devastadora crise continua: ponto fraco
Pacotes de estímulo podem ter evitado que a economia americana estivesse ainda pior do que em 2009, quando Obama assumiu, mas o fato é que o país não conseguiu sair da crise. A taxa de desemprego segue elevada (7,9%)- acima dos padrões históricos do país (que giram em torno de 6%). O presidente é acusado pelos republicanos de ter aumentado o débito federal, o que pode levar a um aumento dramático dos impostos.
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Promessas são mais do mesmo: ponto fraco
Obama perdeu muito de seu lado inspirador e, para os próximos quatro anos, promete mais do mesmo – e ele ainda continua fixado no passado, culpando a herança maldita do governo Bush. Seu esforço de campanha ficou focado em fazer acusações ao adversário, esquecendo-se de estabelecer uma relação de confiança com os eleitores.
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Política externa pouco assertiva: ponto fraco
Obama costuma responder com propriedade aos temas sobre a política externa, como o fez no último debate contra o rival Romney. O grande trunfo do presidente é a morte de Osama bin Laden em maio de 2011. E esse “sucesso contra o terror” foi usado repetidas vezes como narrativa essencial na campanha de Obama. Porém, o presidente também se mostrou confuso em muitos momentos, como ao explicar o que ocorreu em torno da morte do embaixador americano na Líbia, no mês passado, e a falta de um envolvimento mais assertivo da Casa Branca na Síria, enquanto o regime de Bashar Assad dá continuidade à sangrenta repressão. Além disso, Obama faz questão de relembrar os fracassos de Bush na política externa, em especial a intervenção americana no Iraque e no Afeganistão, mas a forma como está sendo feita a retirada das tropas dos dois países é considerada controversa por muitos americanos.